Nos dias que correm quase pode ser perigoso dizer isto, mas é verdade que se prepara um atentado no Teatro da Cornucópia. Nasceu um novo grupo de teatro e a peça escolhida para se estrear foi Os Justos, de Camus.

Faltam duas horas para o espetáculo se iniciar e André Pardal, Bernardo Souto, Guilherme Gomes, João Reixa, Nídia Roque, Ricardo Alas e Rita Cabaço começam a chegar a conta gotas ao teatro. Os sete membros do elenco de Os Justos preparam-se para mais uma sessão. O Teatro da Cidade lançou-se no panorama teatral português no dia 30 de março de 2016.

Da mesma turma para o mesmo grupo

Já se pode dizer que conhecem os cantos à casa. O Teatro da Cornucópia foi ponto de encontro dos elementos do grupo. Pisaram o palco em A Ilusão ou  Atelier Narciso e encontraram-se em Hamlet. Mas a história já vem de trás. Bernardo Souto, Guilherme Gomes, João Reixa, Nídia Roque e Rita Cabaço conheceram-se na Escola Superior de Teatro e Cinema, eram da mesma turma.

Guilherme Gomes e Nídia Roque em Hamlet. Foto: Rui Carlos Mateus

Guilherme Gomes e Nídia Roque em Hamlet. Foto: Rui Carlos Mateus

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Nídia é quem começa por explicar esta decisão. Depois de terminarem a licenciatura em Teatro, sentiram a necessidade de formar um grupo: “Sabíamos que pessoalmente nos dávamos muito bem e  que nos identificamos de alguma maneira artisticamente. Então decidimos começar a reunir-nos, muitas vezes, na casa do Guilherme ou a ler na Gulbenkian”.

Aos cinco membros fundadores juntaram-se André Pardal e Ricardo Alas. Também já tinham participado em projetos em conjunto e estudado nas mesmas escolas. Juntos, os sete aventuraram-se num texto de Camus, apresentado por Luís Lima Barreto, ator na Cornucópia. Começaram a ter ensaios de escrita, a ler outras obras paralelas, a extrapolar as personagens e lançaram-se no desafio da encenação conjunta. “Acaba por ser um trabalho de redescoberta e é uma coisa muito artesanal. És tu a teceres estas coisas”, afirma Guilherme sobre a criação coletiva.

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Espaço no Teatro da Cornucópia, onde chegaram a trabalhar em conjunto. Foto: Catarina Veiga

A construção de uma identidade

O texto descreve a preparação de um atentado por um grupo de jovens. “Quando começamos a ler o texto já havia alguns acontecimentos à volta do tema, mas realmente tornou-se bastante atual agora que o estamos a fazer”, revela Nídia. Ankara, Bruxelas, Paris ou Lahore foram algumas das cidades afetadas pelo terrorismo e isso estabelece uma ligação com o texto. Mas o grupo refere que a obra nem só reflete o terrorismo. Dentro do humanismo de Camus, Nídia afirma que umas das questões colocadas foi: “Porque é que estamos vivos?”

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Nídia Roque explica que o humanismo em Camus foi um dos pontos-chave para a escolha do texto. Foto: Catarina Veiga

Também foram responsáveis pelo cenário, os figurinos e o desenho de luz. Com tantos encargos, surge a questão se estão preparados para o desafio de embarcar com o Teatro da Cidade. Guilherme Gomes responde com convicção: “Este grupo acaba por surgir por uma vontade de querer estar preparado para isso, então vamos estando preparados”. Rita Cabaço também não tem dúvidas: “Não estou a dizer que estamos aqui prontos para tudo e mais alguma coisa, mas acho que começamos na altura certa. Estamos prontos pelo menos para isto que estamos a viver agora” . 

Os projetos em que foram participando deram-lhe “estaleca” como diz Rita. “Juntares-te a um grupo de pessoas em específico e começares a fazer determinados trabalhos serve para tu ires construindo a tua identidade e a tua identidade é a maneira de te relacionares com as coisas à tua volta”, explica Guilherme, também apelidado pelos colegas como “o poeta do grupo”, sobre a escolha de avançar com o grupo.

“Temos uma espécie de mote inicial. Nós chamamos-nos Teatro da Cidade também por causa do conceito de cidade como lugar de encontro”, revela Guilherme.  Querem chamar público ao teatro, encontrar-se e falar com ele, não aceitam ficar encerrados no edifício teatral. “Companhias novas devem sentir a tentação de chamar pessoas novas também, porque se as pessoas mais velhas vão ao teatro é porque em algum momento foram chamadas para o teatro”, acrescenta. 

É esta identidade que querem ir procurando ao longo do tempo. Guilherme explica que querem criar um sentido com as suas performances. “Nesta área, quando te propões a fazer um trabalho ou a criares uma estrutura, tem de ser um bocadinho mais do que a questão de ganhar dinheiro. Porque é que fazes o espetáculo? Quais são as tuas vontades? Porque corres o risco de o espetáculo não funcionar.”

E se tem funcionado até agora também o agradecem ao Teatro da Cornucópia. Não têm de pagar espaço e o cenário foi construído por técnicos da Cornucópia, a partir da estrutura do último Hamlet.

Na preparação do atentado 

A hora para a preparação do espetáculo chega. Há que ir para os bastidores vestir a personagem.

Os rapazes arranjam a barba. Trocam o fato de treino pelo fato de terrorista. As raparigas entre-ajudam-se com o cabelo. Nídia ajeita o vestido de revolucionária disfarçada. Rita coloca uma maquilhagem para interiorizar uma duquesa pálida.

Paralelamente à preparação das personagens, há questões que se levantam. Quantos espetadores terão esta noite? Quem estará na plateia? Respondem que logo na primeira noite tiveram pessoas importantes na plateia como a atriz Luísa Cruz ou como destaca João Reixa, para aliviar o ambiente: “Esteve lá o meu pai”. O ator recorda aquela noite como “muito bonita”. 

O passo seguinte é o aquecimento em palco. Acompanhado com a música de um tablet, o grupo vai fazendo exercícios de dicção e trabalhando o corpo.

Minutos antes de a porta da sala fazer entrar os espetadores ainda há quem vá repetindo falas. Há quem cante. E todos esperam pela energia positiva no palco. Querem divertir-se acima de tudo. Abraçam-se a dois e em grupo. “Boa merda!”, recomendam os atores e os técnicos. O espetáculo vai começar.

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Desejo conjunto: diversão em palco. Foto: Catarina Veiga

O atentado chega ao palco

Estamos em 1905, na Rússia. Um grupo de jovens do Partido Socialista Revolucionário prepara um atentado contra o Grão-Duque Sergei Alexandrovich, Governador Geral de Moscovo. São terroristas por uma causa: a justiça e o aniquilamento da pobreza.

Dora Dulebov (Nídia Roque), a única mulher do grupo, e Boris Annenkov (Bernardo Souto) recebem Stephan Fedorov (Guilherme Gomes), que acaba de sair da prisão. Entretando chega Alexis Voinov (Ricardo Alas) e Yanek Kaliayev (João Reixa), o próximo a efetuar o atentado, que sai fracassado. Havia uma criança com o Grão Duque. Surgem discussões entre Stephan e Yanek sobre o sentido da luta. Se o primeiro está disposto a morrer e a matar a qualquer custo pelos seus ideais, o segundo coloca a honra da revolução como uma condição nesta luta.

Se na peça há divergências, também em ensaios existiram. Rita explica: “Havia discussões, havia opiniões diferentes, às vezes até foram discussões mais acesas, mas foi sempre para servir um espetáculo. Nunca foram ataques pessoais.” Guilherme complementa dizendo: “Há uma sensação de respeito que deve existir em todos os grupos. O facto de nos conhecermos bem, permite que compreendamos certas coisas. Não é preciso dizer tudo.”

Como dizem em folha de sala, “A luz que nos ilumina é forte, e abrangente”, o que se pode transpor para a sua relação em grupo ou para palco. Os Justos, do Teatro da Cidade, é uma peça onde o desenho de luz é determinante, seja na janela onde se avista o Grão-Duque, no candeeiro da mesa do planeamento ou na entrada da duquesa (Rita Cabaço) e de Skuratov (André Pardal) na prisão, onde Kaliayev é interrogado e julgado depois do atentado.

 

Uma “energia boa” num lugar que é uma “coincidência boa”

Mais uma noite, mais “uma energia boa” transmitida pelo público. O palco da Cornucópia é um lugar que Nídia descreve como “coincidência boa”. “Como nós nos cruzamos todos aqui e tivemos bastante tempo com estas pessoas, criámos uma ligação muito forte com elas. Ser aqui e com o apoio que nos estão a dar é muito especial“, acrescenta Rita.

Para outubro, já têm um projeto agendado com textos de Karl Valentin, no Carpe Diem, em Lisboa. Este será um trabalho com um encenador convidado. Ao que Guilherme alinhava: “Queremos experimentar várias maneiras de trabalhar”. 

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‘A bomba’ no camarim do Teatro da Cornucópia. Foto: Catarina Veiga

Podes assistir ao espetáculo até dia 10 de abril, de terça a sábado, às 21h, e domingo, às 16h. A conversa com o público está marcada para dia 10 de abril, depois do espetáculo das 16h. Consulta mais informações, aqui.