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Fotografia: João Tuna

‘O Limpo e o Sujo’: a limpeza do ser na sujidade do mundo

O Limpo e o Sujo de Vera Mantero esteve em cena no Teatro Maria Matos entre os dias 1 e 3 de abril. Integrada no ciclo 3 Ecologias, O Limpo e o Sujo é a mais recente criação de Vera Mantero que regressa à exploração da dança por ela mesma, à reconhecimento do movimento como veículo de expressão que sem que seja necessário recorrer à fala.

Num palco despido, sob um céu falso de emaranhados elétricos, surgem três bailarinos em camisas coloridas e espampanantes. Volmir Cordeiro, Elizabete Francisca e Vera Mantero sacodem a poeira da camisa, despojam-se da de toda a sujidade visual, auditiva, mental e corpórea. Contorcem-se, reviram-se do avesso, tentam expelir as suas entranhas. Fazem caras de nojo, desagrado, de medo, de espanto. Ao mesmo tempo apresentam-se numa calma e tranquilidade aterradoras. É uma coreografia que procura uma limpeza do ser para um melhor equilíbrio com o ambiente, é uma mudança interior que tem de acontecer no interior de cada pessoa, é uma luta e uma experiência individual partilhada primeiro entre os três intérpretes e agora exposta a público no último fim de semana no Teatro Maria Matos.

Fotografia: João Tuna
Fotografia: João Tuna

Em O Limpo e o Sujohá sobretudo um alegre chafurdar na fusão entre estas duas espécies de corpos” – os educados e os deseducados – diz a própria criadora sobre a sua peça.

“empurrar, insistir, arrancar, espremer, expurgar, expelir, insistir, esticar, expor, insistir, abrir, apertar, pressionar, esmigalhar, abrir, reter, esfregar, insistir, apontar, varrer, abrir” – expressões retiradas da folha de sala

A coreografia desta performance baseia-se numa mescla de movimentos muito diferentes em si, resultado óbvio de uma criação contínua conjunta. Partindo da improvisação, cada um dos intérpretes deixou-se levar para a criação de uma desenho coreográfico pessoal e uno, onde se explora as três ecologias de Félix Guattari: o meio ambiente, as relações sociais e a subjetividade humana.

Depois de um longo período de experimentação e divagação, os três intérpretes acabaram por juntar os seus trabalhos individuais uma frase coreográfica que se repete ao longo de 80 minutos. Frase essa em que o movimento se esgota facilmente, apesar das diferentes formas de interpretação que cada um dos bailarinos assume.

Fotografia: João Tuna
Fotografia: João Tuna

Nesta performance de dança, salienta-se a expressividade e o valor do gesto. A cara e a interpretação corporal são dois dos motores que fazem mexer O Limpo e o Sujo.

Também o som se assume como um quarto corpo presente em palco. João Bento explora ao vivo as sonoridades que ilustram o espetáculo. As sonoridades densas e sintetizadas, trabalhadas em live durante o espetáculo, tanto estão em total sincronia com o movimento dos bailarinos como obriga a que a situação se inverta e cause uma confusão sob quem dita e quem segue quem.

Fotografia: João Tuna
Fotografia: João Tuna

O Limpo e o Sujo é um espetáculo em que Vera Mantero se propõe a manusear os matérias do mundo: imagens, objetos, palavras, movimentos, o próprio corpo, o espaço, o tempo, os desejos, o intrínseco ao humano. Limpamo-nos na sujidade, sujamo-nos no limpo. A podridão e a obscenidade humanas coabitam lado a lado com a acalmia e o puro que há de natural em cada um de nós. Há uma procura de limpeza de espírito, um expulsar do nojo e do pegajoso, uma tentativa de libertação do eu. Reinventar o eu e trabalhar o sujeito como ator essencial da ecologia humana e ambiental. Para que vivemos? De onde vem o desejo? O que se revela vital?

“Há um lugar significativo para o corpo nestas questões, sendo o lugar que providencia a ativação dos sentidos e que providencia o pensamento, e que intensifica as relações com tudo o que está à nossa volta. Tudo isto tem a ver com aquilo que cria energia, movimento, intensidade e desejo, e isso cria sentido para a vida” – Vera Mantero no texto da folha de sala

 

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