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‘O Alto’. Os jovens do Marco criaram uma minissérie

Se, em 2013, lhe dissessem que O Alto estaria na RTP2, Maria João não acreditaria. Nem ela, nem nenhum dos envolvidos neste “exercício de formação de atores”. A verdade é que, três anos depois do início das gravações, com muitas pausas e dificuldades orçamentais pelo meio, o “sonho” de um grupo de jovens de Marco de Canaveses chegou à televisão.

O Espalha-Factos esteve à conversa com Maria João Carneiro (ou melhor: a Maria Aurora João Azevedo d’O Alto) sobre o projeto, as (muitas) dificuldades que enfrentaram e a recompensa de ver “o impossível” tornar-se uma realidade. “Queremos passar a mensagem de que, com pouco dinheiro, também se conseguem fazer coisas interessantes em Portugal”, explica.

De Marco de Canaveses para a RTP2

Maria João tem 19 anos. Nasceu e cresceu em Marco de Canaveses, onde começou a fazer teatro amador com apenas quatro anos. Em 2012, sem se aperceber, as coisas começaram a ficar mais sérias. Juntou-se, a par de outros jovens com interesse pela representação, a uma associação sem fins lucrativos – os Alphatones. Mal sabia que, daí a quatro anos, estaria na televisão.

Os Alphatones começaram como um grupo de amigos que se juntou no Marco de Canaveses para explorar as suas capacidades artísticas, no âmbito da dança, do teatro e da música. Inicialmente, as coisas eram apenas no âmbito desportivo, só nos encontrávamos ao fim de semana e, depois, o grupo começou a tornar-se mais sério”. Entre formações, workshops e projetos artísticos, surgiu a ideia de uma minissérie que fosse nada mais do que um “exercício de formação de atores a uma escala um bocadinho maior”, conta Maria João. Assim nasceu O Alto.DSC05505bA ideia partiu de João Santana, mentor do projeto, realizador, produtor e coargumentista a par de Helena Macedo. Os dois deram “asas à ideia, passaram-na para o papel e, do papel, materializaram-na”, explica a jovem. João desafiou os atores amadores dos Alphatones a participarem nesta minissérie de época, feita por jovens, com jovens e para jovens… e não pensaram duas vezes. “Obviamente que todos os aceitámos”, diz Maria. A possibilidade de experimentarem o que nunca tinham feito gritou mais alto que todas as dificuldades que se adivinhavam. “Nenhum de nós era profissional na área nem tinha experiência profissional. Tudo o que tínhamos era rudimentar”.

Por isso mesmo João foi ao Porto buscar alguns atores já profissionais, que conheceu enquanto estudava Teatro, que pudessem ajudar no projeto e “dar umas luzes e ideias e elevar a fasquia do exercício”. São eles Daniel Pinheiro, Ismael Calliano, Teresa Vieira, Inês Cardoso e Nuno Stanley. Já os membros dos Alphatones eram amadores. “Nós não tínhamos nenhuma experiência com câmaras, nada no meio televisivo”. Mesmo assim chegaram à televisão.

O Alto foi, desde o início, uma verdadeira caixinha de surpresas. “O Alto nunca foi pensado para televisão. Inicialmente era um projeto audiovisual de formação de atores dos AlphatonesO intuito inicial do projeto era desafiar a capacidade de representação dos jovens atores e, quanto muito, estaria disponível online. Mas acabou por ser muito mais, tornando-se a prova de que, com pouco dinheiro mas muita vontade, se pode fazer muito… e chegar à RTP2.

Eu, como jovem de Marco de Canaveses, senti muitas vezes a diferença de oportunidades e de meios que existe numa terra como o Marco” – Maria João

DSC05624bNão foi um caminho fácil este de criar uma minissérie. Houve avanços, recuos e dias em que ninguém acreditava que o projeto pudesse ficar finalizado. “Todos os dias tínhamos obstáculos em que pensávamos que nunca iríamos terminar O Alto”, conta Maria João. E, tal como se esperaria de uma pequena produção, um dos entraves foi o orçamento. “O maior desafio de todos foi perceber como era caro e difícil fazer alguma coisa audiovisual em Portugal. Os fundos que tivemos passaram pelos apoios do Estado, que são muito reduzidos, mas principalmente pelo apoio de empresas do Marco de Canaveses e familiares que se chegaram à frente”, conta.

Mesmo assim as coisas continuavam difíceis. “Tivemos de improvisar, fazer acontecer com muito poucos meios. Essa parte também foi complicada, mas tornou as coisas mais interessantes”. Depois, chegou o apoio de Amélia Ribeiro, que lhes deu o impulso de que precisavam. Vencedora do Euromilhões, contribuiu com 20% do orçamento total d’O Alto.

A minissérie estava agora completa mas sem um canal que a acolhesse. Sem grandes esperanças, João Santana contactou a RTP e fez a proposta. Dias depois, ligaram-lhe de volta. “Interessaram-se pela ideia e pelo projeto. Foi uma coisa que nunca imaginaríamos. Ficámos super contentes”, afirma Maria João, sorridente como se esperaria de alguém que vê o trabalho intenso recompensado.

É muito bom ver que a televisão nacional aposta neste tipo de coisas que, obviamente, não poderão concorrer com um projeto profissional com milhares de euros de fundo, ou com atores profissionais e tudo à disposição”. Mas o objetivo também nunca foi esse, confidencia Maria, que reconhece que há erros. De uma produção de baixo orçamento, não se pode esperar a exatidão histórica das grandes produções nacionais ou internacionais.

O Alto chegou à RTP não pela qualidade do acting, nem pela qualidade técnica dos cenários ou pelos pormenores, porque há muitas falhas. Falhas de acting e de cena, há aparelhos, coisas completamente contemporâneas, carros. Há coisas que era extremamente caro e impossível, com os meios que tínhamos, aperfeiçoar e retirar”, explica.

A família João Azevedo regressa a Marco de Canaveses

O Alto chega agora à RTP2 e conta a história da família João Azevedo, de Marco de Canaveses, exilada durante 20 anos em Inglaterra, no tempo de Salazar. Quando se dá a revolução de abril, regressam à sua terra, onde reencontram a família rival: a família Ferreira. “Em Marco de Canaveses, os bancos da frente da Igreja eram sinal de poder, fama e influência na cidade. Há uma cena muito engraçada em que a família João Azevedo vai tentar chegar aos bancos em frente da igreja para mostrar que chegou, que está ali”, desvenda Maria João.

A série passa-se numa época que nenhum dos jovens atores viveu: o pré-25 de abril. Por isso mesmo foi necessária uma pesquisa intensa junto dos próprios familiares para perceber os hábitos e tradições da terra. “Experimentar um tempo que não foi nosso foi uma experiência maravilhosa, aprendemos imenso. Já existem imensas séries de jovens, com jovens, para jovens, mas num tempo atual e o facto de o João ter pegado numa época pré-25 de abril, em que o mundo era completamente diferente, foi muito interessante”. 

Depois, veio também o desafio da maquilhagem e dos figurinos. Sem orçamento para grandes caraterizações em látex que os envelhecessem, como exige o guião, os jovens tiveram o apoio de Catarina Pimentel e Helena Guerreiro para uma maquilhagem que os envelhecesse alguns anos, bem como as doações de figurino dos seus pais, avós ou conhecidos. “Sem a ajuda dessas pessoas e entidades não tínhamos orçamento nem para cobrir um terço“, admite.

Por isso mesmo, estes jovens sentem que devem muito à terra que lhes deu tanto, e a quem retribuem agora. “Esperamos que O Alto dê visibilidade a uma associação sem fins lucrativos e que leve pequenas cidades, como o Marco, mais longe, que não seja só centrado em Lisboa e no Porto. De certa forma, queremos que essa mensagem passe: que, com poucos meios, as coisas podem acontecer na mesma, e ser um exercício em que nós evoluímos e que as pessoas podem também perceber e evoluir connosco”, diz a jovem que pretende ingressar num curso profissional de representação em setembro.

A par disso, Maria João continua nos Alphatones. “Os Alphatones já me ensinaram muito”, conta. Já O Alto deu-lhe a certeza de que, apesar das dificuldades, é isto que quer fazer no futuro. “Mesmo que O Alto não fosse para a RTP, tudo aquilo que vivi com os Alphatones valeu a pena”. A minissérie de sete episódios já estreou na RTP2 e é emitida de segunda à sexta-feira às 13h.

http://youtu.be/yRqs11Oy-jc
Fotografias da entrevista: Mariana Martins

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