Sirumba é o quarto disco de originais da banda portuguesa que atravessou ontem a prova de fogo de tocar no Coliseu dos Recreios. Se algum dia a casa esteve para ir abaixo, ontem foi um deles.Há dez anos, um grupo de amigos da escola lançava-se na aventura do primeiro disco, pouco certos de que o nome escolhido na cozinha dos pais de André (vozes e guitarra) fosse um nome fixe para uma banda. Mas o nome do coletivo e de cada um dos quatro discos lançados – e que tem um pouco das histórias que viveram juntos (como contaram em entrevista ao Espalha-Factos) – vieram a revelar-se completamente acertados, pela singularidade e honestidade.

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Nos tempos de Olhos de Mongol, o quarteto (na altura quinteto) não tinha grandes ambições. Apenas eram amigos que queriam tocar juntos e “nunca pensámos chegar aqui”, confessou ontem Cláudia (baixo e voz), completamente rendida a um Coliseu com plateia e balcão cheios.

Aqui, é o Coliseu dos Recreios, a sala nobre de Lisboa, onde viram eles, e vimos nós, tantos concertos marcantes. E no jogo de Sirumba, não importa quem foi polícia e quem foi ladrão, o que importa é que todos jogámos e a alegria, após uma brincadeira que demorou cerca de duas horas, era patente no rosto de todos (deles e nossos).

Foi precisamente com o tema homónimo que se abriram as hostilidades com o palco exatamente alinhado, como nos traços do jogo, por uma parede de amplificadores mais lá atrás e os quatro músicos à boca do palco. Do lado de cá, receção imediatamente à abertura com o tema homónimo e Unicórnio de Santa Engrácia que se lhe seguiu. E ao fim de apenas dois temas o espanto de André Henriques: “Eh pá vieram tantos!“.

É verdade, se a massa mais jovem apanhou chuva na porta do Coliseu para estar nas grades e dar todo o seu apoio à banda (mosh, crowdsurf, t-shirts despidas, braços constantemente no ar), também os mais velhos, que acompanham os Linda Martini desde há dez anos, ou os melómanos, que podem ser os pais dos membros da banda, a verdade é que todo o público de ontem se juntou em uníssono para prestar devoção – cremos agora estar certa esta palavra – àquela que é certamente a banda rock mais importante do panorama português dos anos 2000.

Juventude Sónica, terceiro dos 23 temas tocados ontem à noite, é quase um manifesto de intenções dos “putos”, mas todos nos revemos no tema. Com Preguiça, regressa-se a Sirumba para viajar no tempo até Amor Combate com o público em uníssono a abafar a voz dos músicos. Mas nunca as poderosas guitarras, baixo e bateria – aquilo que é o ponto forte dos Linda Martini – deixaram de se fazer ouvir, tal a sua potência

O alinhamento seguiu-se equilibrado, entre os novos temas – Putos Bons, Comer Por Dois, Dentes de Mentiroso, Bom Partido e Farda Limpa com letras mais maduras, interventivas e arranjos mais complexos – passando por Casa Ocupada e Turbo Lento para regressar (inevitavelmente) a Olhos de Mongol. Dá-me a Tua Melhor Faca foi entoada em uníssono pelo Coliseu e banda, mostrando que não há grade que divida a banda do público, nem uma década que separe eventuais diferenças geracionais. Entre o público há crianças, bastantes, nomeadamente o filho mais velho de André Henriques que “veio ver o pai pela segunda vez”. Se isto não é amor, não sei o que é o amor.

Porque foi isso que emanou do palco. Um amor correspondido e vibrante, partilhado de peito aberto. “Vocês são lindos” diz Hélio Morais; alguém atira para Cláudia um cravo; eles felizes, tão felizes, abraçam-se e dão “turrinhas” quando no fim da tempestade sónica que foi Ratos e O Dia em que a Música Morreu (a próxima grande “malha” da banda, arriscamos) abandonam o palco visivelmente comovidos.

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Cá em baixo ninguém arreda pé. Só o bate no chão para fazer barulho e pedir mais, entoando o refrão de Cem Metros Sereia, a pedir que a felicidade não acabe já ali, que queremos viver mais juntos, partilhar. E eles acedem, pois claro. Dez Tostões lançada o ano passado; Panteão e os riffs a saírem descontrolados; Este Mar, do primeiro EP; Belarmino Vs. e o desejado Cem Metros Sereia de Casa Ocupada preenchem o encore.

Neste momento a casa ia indo abaixo, guitarras descontroladas, bateria pungente (como sempre) a marcar um ritmo desmedido de emoções e gargantas ao alto bem perto de amar os Linda Martini. Pedro Geraldes mergulha entretanto nos braços do público enquanto Hélio Morais confessa “Esta noite casava“. E estamos seguros, a promessa de amor eterno entre os quatro de Queluz-Massamá e o público de ontem do Coliseu foi para sempre.

Após maior insistência e o chão do Coliseu a tremer, a banda regressa para O Amor é Não Haver Polícia, e afinal, concluímos, no jogo da Sirumba todos queremos ser ladrões.

 

Fotografias: Mariana Godet