Antes de do 25 de abril, o cinema português passou por várias fases muito distintas: numa primeira, reinaram as comédias que ainda hoje fazem parte da nossa memória coletiva e que constituíram a chamada Era de Ouro do cinema nacional; em meados do século passado, a produção entra numa fase negra e em 1955 nem uma única longa-metragem chega a ser realizada em Portugal; com a chegada dos anos 60, damos início ao Cinema Novo Português, que traz uma lufada de ar fresco à nossa 7.ª arte, agora longe da imagem ingénua da nossa realidade perpetuada pelas comédias de Vasco Santana e tantos outros.

Contudo, e por muito diferentes que todas as fases sejam umas das outras, todas têm em comum o facto de terem sido todas “vítimas” da censura e da pouca liberdade que existia no Portugal ditatorial de há cerca de 40 anos. Sofia e a Educação Sexual foi, talvez, o maior exemplo dessa mesma censura: proibido devido ao seu tema e à forma como o aborda, só chega às salas depois da Revolução dos Cravos para grande sucesso comercial e afirmando-se, desde logo, como um dos mais importantes marcos do cinema português. Hoje, é considerado como um dos “mais vanguardistas da época” (assim o chamou Jorge Leitão Ramos no jornal Expresso) e merece, portanto, ser recordado no Hollywood, tens cá disto?.

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Realizado pelo, até então, crítico e cineclubista Eduardo Geada, Sofia e a Educação Sexual acompanha, como o título indica, Sofia, uma jovem e ingénua rapariga que, após morte da mãe, regressa da Suíça para se instalar numa casa de família em Cascais. É aí que se cruza com costumes complexos, egoístas, excêntricos e carnais, levados a cabo pela alta sociedade e pelo seu próprio pai e pela sua amante, Laura. Sofia é então apanhada numa vida social onde vai, primeiramente, assistir de perto a esta nova realidade, e, com o desenrolar da narrativa, descobrir-se a si mesma e deixando-se levar pelo seu desejo.

Sofia e a Educação Sexual é, deste modo, uma mordaz crítica aos costumes da burguesia da época e de um modo de vida fútil e hipócrita. É ao acompanhar a protagonista que vamos dando conta dos inúmeros defeitos da sociedade portuguesa de alto estatuto e, aos poucos, somos obrigados a vê-la ceder àquilo que de mais tentador há no seu novo meio. Talvez por curiosidade ou quiçá para se esquecer da vida que deixou na fria Suíça (ou até um misto de ambas as hipóteses), Sofia deixa que Laura a conduza por novos mundos, lhe explique o que é o desejo e a transforma numa mulher sedutora. Geada filma todo este percurso como até aí ninguém havia filmado (e como poucos voltaram a filmar): com uma câmara que capta toda a sensualidade dos corpos das duas atrizes principais, mostrando-as em cenas incrivelmente eróticas, raras no nosso cinema.

Falando em atrizes, é sempre bom destacar Luísa Nunes e Io Apolloni. As duas partilham o ecrã na grande maioria do filme e é com elas que vamos assistindo aos comportamentos da burguesia e à “aula” de educação sexual, onde Sofia é a aluna e Laura a sua mentora. A química entre ambas é palpável e os momentos em que os seus corpos se unem são alguns dos pontos altos da fita. Ao par de atrizes junta-se Artur Semedo, que desempenha o papel de Henrique, um homem sedutor que conquista ambas as protagonistas, e Carlos Ferreiro, pai de Sofia e amante de Laura, que figurará em alguns dos segmentos mais fortes e perturbadores do filme.

E, ainda que não tenha tido um envelhecimento muito feliz (os diálogos gravados por cima das filmagens e as performances ligeiramente teatrais tiram, por vezes, genuinidade ao filme), Sofia e a Educação Sexual continua a impressionar nos dias de hoje. Com uma fotografia muitíssimo interessante e uma acertada escolha de cenários, a obra continua a ter grande força visual. Geada ousa ainda em prolongar os seus planos, como o icónico “Amo-te Jorge”, no qual a personagem principal repete a dita declaração de amor durante cerca de minuto e meio num plano fixo sem qualquer corte, com resultados hipnotizantes.

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Sofia e a Educação Sexual é um título ímpar no nosso cinema. Lançado na melhor altura possível, que contribuiu em muito para o seu sucesso comercial, e ganhando a cada ano que passa mais reconhecimento junto da comunidade cinéfila nacional, o filme abriu portas a um cinema português sem tabus, pronto a percorrer novos terrenos ainda por explorar.

Ficha Técnica:
Realizador: Eduardo Geada
Argumento: Eduardo Geada
Elenco: Luísa Nunes, Io Apolloni, Artur Semedo, Carlos Ferreiro
Duração: 101 minutos

8/10

Hollywood, tens cá disto? promete trazer, mensalmente, até nós aquilo que só Portugal nos dá: o Cinema Português. Não que de Hollywood não cheguem muitos títulos de qualidade, mas de Portugal, ao longo das décadas, têm sido muitos os grandes filmes de que pouco se fala. Esta é a rubrica certa para se falar deles.