White Haus ©Luis Espinheira

Entrevista a White Haus: “Aprecio pessoas que pisam o risco”

Com o recente lançamento do single This is Heaven, o Espalha-Factos falou com White Haus sobre quase tudo: a ondulação entre os X-Wife e White Haus, pontos comuns e pontos divergentes entre os projetos e o que é que podemos esperar deste novo registo de João Veira.

EF: Quando decidiste editar o EP homónimo, a tua carreira enquanto DJ não era propriamente recente e os X-Wife, já em fase de maturação, acabaram por ficar estagnados durante quase três anos. O que te fez investir num projeto a solo? O timing do lançamento foi o mais apropriado?

João Vieira: O projeto White Haus apareceu numa altura em que os X-Wife pararam. E pararam porquê? Não por cansaço, mas porque um dos elementos da banda foi viver para Lisboa e, ao ir viver para Lisboa, nós cortamos com a rotina de ensaios que tínhamos há 10 anos: escrevíamos músicas constantemente, íamos fazendo um álbum, depois ensaiávamos esse álbum, depois escrevíamos músicas… e andávamos nisto. De dois em dois anos, mais ou menos, lançávamos um disco.

Quando nós paramos em 2011 e lançamos o último álbum, fizemos a tour dos 10 anos, demos uns concertos importantes em 2012 e ficamos quase um ano sem fazer música. Quer dizer, ensaiávamos uma vez de seis em seis meses (quando ensaiávamos) e aquilo acabou por ficar um bocado parado. Entretanto, o Rui também tinha o projeto dele a solo e é normal que estivesse mais entusiasmado e mais para aí virado. O Fernando estava a tocar com outras bandas também e eu estava um bocado à espera. Enquanto esperei, resolvi pensar que a minha carreira como DJ poderia crescer também se eu começasse a produzir e se calhar era uma boa altura para começar a produzir porque não sabia o futuro, se os X-Wife iriam continuar ou não…

“E eu gosto de fazer música. É o que sei fazer melhor (risos), acho eu, e por isso decidi investir tempo, porque o difícil aqui era o arranque.”

Era perceber como é que eu faço uma faixa de raiz, uma vez que nos X-Wife só fazia as guitarras, as melodias de voz e escrevia as letras, mas não fazia as batidas nem as linhas de baixo. Então, comprei um baixo e comecei a ver muitos vídeos no YouTube sobre imensas coisas. Ia ouvir músicas, ia analisar como é que este tipo faz isto e aquilo, e foi assim que surgiu.

Se o timing foi o melhor ou não… Para mim foi o melhor, porque já tinham passado dois anos desde que eu tinha lançado alguma coisa e não sabia quando é que os X-Wife iriam lançar outra vez. Foi um EP um bocado surpresa e foi tudo mais ou menos premeditado para não começar a falar em nada. Por isso, quando saiu o EP, saiu logo o vídeo, saiu logo o disco e acho que fez sentido. Foi uma nova fase da minha vida. Para mim, o timing foi perfeito.

EF: O percurso de DJ Kitten a White Haus foi devidamente planeado ou andaste em deambulação constante, experimentando sonoridades sem grandes preocupações?

JV: Não. As coisas não são sempre planeadas, acontecem simplesmente. Eu deveria ter investido principalmente no início. Houve várias pessoas que me abordaram e disseram “tu devias produzir”, quando estava mais na berra e ainda se vendiam muitos discos. Só que, para mim, era um universo complicado e não foi uma coisa que pensasse na altura em fazer. Depois, sentia-me um pouco obrigado, mesmo porque havia uma data de DJ da minha geração, muitos deles ingleses, do tempo em que estive em Inglaterra e que conhecia muito bem, como por exemplo o Erol Alkan e o Rory Phillips, que eram meus vizinhos e faziam um club ao mesmo tempo que eu fazia um club – eles faziam o Trash e eu o Club Kitten. Eram clubs concorrentes, mais ou menos da mesma dimensão, e eles próprios também eram como eu. Eram DJ de clubs, não produziam e não passavam muito música de dança na altura (passavam coisas do pós-punk, um indie, um britpop…).

Eu depois reparei que tanto um como o outro começaram a produzir e a carreira deles levantou, principalmente a do Erol, que começou a ter muito mais destaque e começou a atuar em festivais… Por isso, há aqui duas coisas muito diferentes: o papel de produtor e o papel de DJ.

“Um bom produtor nem sempre é um bom DJ e um bom DJ nem sempre é um bom produtor. E, às vezes, há alguém que consegue fazer bem as duas coisas. Mas eu acho que a carreira de DJ, se tu não começas a produzir, chega a um ponto em que vai estagnar e as pessoas vão partir para outra.”

Então, tens que desenvolver um projeto em que comeces a produzir. White Haus começou nesse sentido, mas depois foi para outro lado por causa, quase, de um telefonema de uma entrevista que eu tive via Skype com uma editora, a Strut, que me contactou logo e que queria editar White Haus. Estavam muito interessados e ele perguntou-me “Isto é uma banda a tocar? Isto são músicos?” e eu disse “não, sou eu a fazer tudo” e ele ficou “ah, mas tu devias pôr isto a tocar ao vivo”. E começamos a trocar muitos e-mails, eles estavam mesmo interessados e eu então pensei “bem, vou ter de contratar músicos e vou ter de fazer uma banda de White Haus”, que era uma coisa que eu não queria. O que eu queria era fazer um projeto a solo, só que eu não conseguia fazer isto ao vivo sozinho porque tem algo de electrónico, mas também tem uma base rítmica muito forte de bateria e de baixo. Ao ter essa base rítmica, não poderia reproduzir isso em eletrónica, e também estar a lançar estas pistas parecia um bocado ridículo. Então, voltei outra vez para a outra banda e foi assim a história (risos).

EF: Se colocarmos o teu trabalho em análise, podemos considerar que a mescla de estilos é uma das caraterísticas vincadamente presentes nesta tua aventura. Quais foram as tuas principais influências?

JV: Posso citar nomes e posso dizer que as minhas influências são completamente estranhas e coisas que parece que não têm nada a ver. Mas quando fiz o EP, as minhas grandes influências foram mais o pós-punk, coisas como Inflagranti, mas misturado com cenas de hip hop do principio dos anos 80 e em que a parte da vocalização era uma coisa mais falada. Claro que também tenho influências da DFA e da Italians Do It Better, editoras que têm aquela coisa do baixo sempre em cima da bateria, das proporções, tudo isso… Essas foram as grandes influências.

Depois, para o álbum, assumi uma electrónica um bocadinho mais fora, decidi buscar as influências de artistas que sempre me acompanharam como o Bowie e também coisas novas.

“Pode parecer completamente estranho, mas enquanto estava a fazer o disco, o álbum que mais ouvi foi o Yeezus do Kanye West e foi algo que me influenciou imenso.”

Não quer dizer que eu vá lá buscar coisas, mas a forma como ele fez aquele trabalho foi realmente uma base para mim super importante. Gosto imenso da música dele e, depois, sou um grande fã do Bowie também. Houve há pouco tempo uma polémica a dizer que o Kanye West ia fazer qualquer coisa em relação ao Bowie e muita gente já estava a fazer petições do género “não faças, por favor”. E eu pensei que até tem alguma coisa a ver, porque é um gajo um bocado à frente, mas percebo que chateie muita gente e que o detestem.

Depois, tenho imensas influências até de bandas que eu só conheça um single e que tenha lá em casa um single de sete polegadas. Há um bocado de música funk feita por brancos, na altura mesmo dos Talking Heads e coisas assim, e também aquelas primeiras experiências com os sintetizadores e as caixas de ritmos electrónicas do final dos anos 80, altura em que as bandas que deixaram as guitarras e começaram a tocar com sintetizadores. Há um bocado daquele lado da inocência, de experimentação e de não ter medo de errar. Eu gosto muito dessa parte, de quebrar um bocado normas do que é seguro e do que se deve fazer. Cada vez mais aprecio pessoas que pisam o risco e vão para coisas completamente diferentes. É isso que me interessa hoje em dia.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=js7B26LQ8Gw]

EF: Em que formato te sentes mais confortável para atuar? Qual é para ti o mais prazeroso?

JV: Depende muito do público. Às vezes gosto muito de pôr música como DJ, se tiver um público que está a acompanhar aquilo que estou a fazer e a gostar. Mas às vezes também apanho públicos terríveis, que estão com os telemóveis e a dizer que querem ouvir Rihanna ou coisas assim, percebes? Também existe o “A minha amiga faz anos. Podes passar o Happy Birthday do Stevie Wonder?” e aquele pessoal já decadente, muito bêbedo, no fim da noite a pedir para eu passar Motörhead (porque eu passava Motörhead há 12 anos). Isso é muito chato. Mas às vezes há momentos em que estou a passar música e o pessoal está ali em sintonia.

É um prazer enorme e é uma libertação muito grande. Em White Haus também é um grande prazer estar a tocar estas músicas e transpô-las de um estúdio para ao vivo. As músicas são todas feitas no estúdio e depois eu tenho de reproduzir aquilo ao vivo e ver como é que soa, por isso as músicas nunca são como o disco, são completamente diferentes, têm outra força e ganham outra dimensão. E X-Wife também é uma experiência diferente, porque tenho dois amigos em palco que me acompanham há muitos anos e há ali uma proximidade muito grande entre nós. Isso também já envolve outro tipo de emoções em palco e é diferente.

EF: Qual foi o ponto de partida para o processo criativo deste segundo álbum?

JV: O ponto de partida foi o This is Heaven. Foi a primeira música que eu escrevi para este disco e foi uma música que demorou o seu tempo. Tinha uma base de baixo e de bateria, uma melodia, mais tarde apareceu o refrão e só depois é que foi sendo montada. Eu deixei respirar e não quis pressionar as coisas. No resto do disco tem lá outra música que foi feita mais ou menos ao mesmo tempo. Possivelmente será o próximo single e, tal como a This Is Heaven, levou muito tempo. É um trabalho cheio de pormenor e que me dá algum gozo, mas também me põe um bocado maluco às vezes, porque são imensas tentativas e erros.

O que é diferente neste disco em relação aos outros é que conta com a participação dos elementos que me acompanham ao vivo. Eles deram ideias, principalmente o Simão, de linhas de guitarra, de linhas de baixo e coisas assim. Participaram também um pouco na produção do disco que foi feito, mas depois ao vivo foi limado e foi alterado para quando formos para estúdio. Desta vez, fui para um estúdio regravar tudo o que é voz, bateria e baixo. A única coisa que mantive foram os sintetizadores. Por isso, é um álbum diferente do outro. O outro é um álbum mais experimental, mais bedroom produced, se lhe quiseres chamar, e este já é um álbum de uma banda a tocar.

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EF: O que é que te fez optar pelo tema This is Heaven como o primeiro single do segundo longa-duração de White Haus?

JV: Primeiro, porque ouvi a opinião dos elementos que me acompanham na banda e foi mais ou menos unânime quando ouviram a primeira vez a música que lhes mostrei. Gostaram imenso e disseram “esta vai ter de ser o single”. Às pessoas que eu mostrava o disco, falavam sempre desta música. Muitas das pessoas até disseram que foi a melhor música que já alguma vez fiz. Não sei se é ou não, mas para algumas pessoas sim. Além disso, tinha os elementos todos que eu acho que são importantes num single. É o sentimento de tu ouvires e achares “ok, isto é um single” e isso é uma coisa muito intuitiva. Mesmo os grandes produtores que produzem álbuns para bandas ouvem e dizem “isto é single”, “isto é para o top” ou “isto não é para o top”. Pela parte rítmica, também, que eu acho que funciona muito bem a nível de pista, pela linha de baixo que eu gosto muito e por ter um refrão forte.

EF: À semelhança do êxito Far From Everything, o videoclip da dançável This is Heaven foi igualmente filmado por Vasco Mendes. A escolha de um cenário polaco e de todos os restantes elementos visuais presentes prendeu-se com algum motivo em particular?

JV: Este projeto White Haus tem também a ver com o Vasco. Ele começou desde o início a fazer todos os vídeos de White Haus, que já são seis, e nós planeamos as coisas com muito tempo. No caso da Far From Everything, foi um bocado pensar que, como a música tem um lado meio épico, poderia funcionar bem numa cidade como Hong Kong e, então, nós articulamos as coisas dessa forma. Ele é uma pessoa que viaja muito e nós combinamos com antecedência os passos todos para chegarmos a pensamentos como “Esta música funcionava mesmo bem em Hong Kong” ou “Esta música funcionava mesmo bem na Prelada”, que foi o que aconteceu com a How I Feel, uma cena que poderia ser filmada em qualquer lado do mundo. Este último foi na Polónia. Já filmamos em Londres, na Polónia, em Hong Kong, Berlim… Achamos que tem piada esta coisa de os vídeos se passarem sempre em cidades diferentes. Não houve assim nenhuma escolha especial, foi apenas pelo facto de ele estar lá. Vamos ver o próximo… Falta Nova Iorque, que é para mim a cidade mais importante (risos).

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EF: Neste momento, em que fase se encontra o disco? Contrariamente ao White Haus Album, este registo terá alguma colaboração?

JV: O disco está feito, está fechado e está masterizado. A colaboração que tem é dos músicos que tocam comigo ao vivo. Não tenho colaboração nenhuma.

EF: Em jeito de antevisão, em que aspetos julgas que este futuro disco se aproxima e se distancia do seu antecessor? Podes-nos adiantar mais alguma coisa?

JV: Sim, posso. Acho que o principal aqui é que o primeiro disco não foi pensado para ser tocado ao vivo. Este segundo foi testado antes de ir para estúdio, o que significa que as músicas foram-se moldando para uma componente “live” que o primeiro disco não tem. Depois há aqui a situação de gravar num estúdio profissional e outra coisa é gravar num estúdio caseiro, que foi o caso do primeiro. É um aspeto completamente diferente.

Para fazer um primeiro disco é importante fazeres da forma como eu fiz, que é fazer uma coisa num estúdio caseiro, uma coisa mais lo-fi e depois no segundo realmente experimentar alguma coisa diferente. Acho que é interessante essa coisa de álbum para álbum ir experimentando, ir fazendo coisas um pouco diferentes e ir testando. Caso contrário, pode-se tornar uma repetição e tanto processo para o resultado final torna-se um pouco aborrecido. Por isso, neste disco eu deixei-me levar um pouco pelos efeitos da voz, que uso muito no primeiro. Usei uma voz limpa no disco todo e usei imenso a voz da Graciela, que é uma coisa que não acontece no outro disco, exceto numa música. No outro disco, eu toco as linhas todas de baixo. Neste, não toco nenhuma, só toco sintetizadores, trato das vozes e faço as programações de baterias.

“É um disco com uma sonoridade completamente diferente.”

Eu acho que hoje em dia as pessoas ouvem nos telemóveis, nos iPads, nos computadores e se calhar não notam diferença de som deste disco para o anterior, ou pelo menos neste single, mas é uma diferença abismal. Não sei se hoje em dia isso é um bocado ingrato, porque eu não sei de que forma é que as pessoas hoje em dia ouvem música.

EF: Está prevista alguma data para o lançamento do novo álbum?

JV: Ainda não sei, mas a data mais importante que temos é o NOS Primavera Sound e também, como é aqui no Porto, se calhar não vamos tocar no Porto antes dessa data porque não faz muito sentido. Eu gostava de, no dia 10 de junho, já apresentar o disco, até porque estou cheio de pica para o tocar.

EF: Deixando de parte White Haus, Movin’ Up foi o primeiro single dos X-Wife em quatro anos, servindo para aguçar o apetite do público. Existem planos para a banda que partilhas com Fernando Sousa e Rui Maia?

JV: Nós neste momento estamos a escrever, temos imenso material e estamos a trabalhar de uma forma completamente diferente. Eu e o Fernando trabalhamos aqui no Porto, o Rui trabalha em Lisboa, vamos mandando coisas e falando. É um processo muito diferente daquilo a que estávamos acostumados, mas uma pessoa tem de se adaptar às coisas como elas são. É um processo mais difícil e mais moroso? É. O Rui também tem outros projetos. Ainda agora lançou um álbum a solo e anteriormente tinha coisas com Mirror People… O Fernando toca com mais duas ou três bandas e também tem White Haus. Não há aquela disponibilidade que havia antigamente, mas também não é algo que queiramos descartar, porque nós sentimos isso nos últimos concertos, principalmente neste último em que tocamos na Casa da Música.

“Foram concertos que correram super bem e nós achamos que era um desperdício não tocarmos juntos e não fazermos música, porque a coisa funciona bem.”

Somos uma banda já com uma bagagem muito grande e acho que era uma pena terminar, porque ainda podemos fazer muita coisa boa, estamos numa boa fase criativa e todos nós podemos trazer um input diferente àquilo que vamos fazer daqui para a frente. Mas também acho que não é preciso pressa para estarmos a deitar qualquer coisa cá para fora só porque temos de tocar como muitas bandas fazem, que lançam um single e querem tocar… Nós queremos fazer uma coisa bem feita, porque senão estragamos tudo o que fizemos para trás como aquelas bandas que voltam e fazem um álbum que não vale nada. Lembro-me de quando era miúdo e tinha aqueles discos em que os primeiros três eram fixes e depois ficavam uma porcaria. Eu não quero ser uma dessas bandas.

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