O Conto dos Contos é o mais recente filme do italiano Matteo Garrone, tendo passagem obrigatória nesta edição da 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, inaugurando o seu primeiro dia.

Este é o primeiro filme do realizador em língua inglesa e a debruçar-se sobre os temas da fantasia e dos contos de fadas. Mas não são as fadas que dão vida ao universo criado pelo italiano, mas antes os homens e as suas fragilidades. É essencialmente por esse lado sombrio ainda mais profundo do que o idealizado por Stephen Sondheim no musical Caminhos da Floresta, que Conto dos Contos consegue ser surpreendentemente ambíguo e especial.

O filme apresenta três histórias que se cruzam entre si nos seus início e final e se focam, independentemente, na relação de um príncipe com o seu irmão gémeo da plebe, na complexa paixão de um rei por duas peculiares e enganadoras irmãs e ainda no egoísmo de um outro rei na relação defeituosa com a sua filha. Este leque de personagens é representado por um elenco variado e interessante (desde Salma Hayek a Vincent Cassel) que acaba por não ser extraordinário pela falta de profundidade e desenvolvimento de personagens típicas. vincentComo boas parábolas e histórias aparentemente tradicionais, adaptadas da obra homónima do autor italiano Giambattista Basile, estas são narrativas relativamente intrincadas que se vão desenrolando com um belo ritmo de voltas e reviravoltas imprevisíveis.  É na transposição desse ritmo para a construção fílmica que reside o ponto forte da obra de Garrone.  A sua película organiza-se por diferentes actos que as histórias vão partilhando como se comunicassem entre si, cada qual com um número exacto de tensões e conflitos, de pausas e começos.

Para quem apreciou a brutalidade e o realismo próprios do retrato da máfia siciliana de Gomorrah, que colocou o realizador no centro das atenções, tem bastantes razões para gostar de O Conto dos Contos. Os filmes, embora estilisticamente incompatíves, são olhares fortes sobre a condição humana e sobre as nuances da violência no cinema. Na arte e na vida, ela é a deusa imperfeita que comanda os nossos desejos reprimidos, a presença por vezes subtil ou enigmática que paira sobre as nossas intenções.

Visualmente, O Conto dos Contos é uma espécie de blockbuster discreto. De facto, o filme está bem constituído por momentos que facilmente se encontrariam num filme fantástico de Hollywood, tendo porém a capacidade de os tratar e filmar de modo muito diferente, com uma sensibilidade muito própria e um estilo bem mais sóbrio. Esta maturidade europeia cria, nos seus melhores momentos, imagens marcantes e praticamente tangíveis da própria imaginação, combinadas com uma mise en scéne bastante competente. No entanto, falta a Garrone a fórmula do autor perdido num mundo desconhecido e original (mas em pleno controlo dele), a que já nos habituaram as melhores obras de Tim Burton ou do compatriota visionário Dario Argento.Tale of Tales

O primeiro filme em inglês de Matteo Garrone poderá dizer muito sobre o seu realizador. O investimento na produção transparece, sem dúvida, a sua imensa confiança no projeto. Mas se falta algum carisma a O Conto dos Contos, essa particularidade parece não estar totalmente assente na base mais simplista da matéria prima que lhe dá forma.  Embora um pouco discreto, é um filme que tem tanta ambição como subtileza na forma como se escreve e deixa escrever nas entre-linhas, o que certamente o torna igualmente fascinante.

7,5/10

Ficha Técnica

Título: O Conto dos Contos
Realizador: Matteo Garrone
Argumento: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso a partir da obra de Giambattista Basile
Elenco:  Vincent Cassel, Salma Hayek, Toby Jones, John C. Reilly, Bebe Cave Género: Fantasia, Terror
Duração: 125 minutos