É considerada por muitos a revelação do programa Donos Disto Tudo, na RTP1. “Também era a única que ninguém conhecia”, responde-nos Joana Pais de Brito, a atriz que não quer ser confundida com comediante. Não é verdade. Conhecemo-la antes, no Canal Q, junto de outros jovens atores no Camada de Nervos e na Estocada Final. Mas, conta, são as personagens do DDT que lhe trazem cumprimentos na rua.

Num café no LX Factory, local escolhido pela própria para a entrevista, o Espalha-Factos conversou com a atriz sobre o trabalho na estação pública, as suas personagens e os primeiros passos na representação.

Há uma “bomba latina” dentro de Joana Pais de Brito

Joana, discreta e calma, sublinha umas folhas quando a encontramos, ao final de um dia de trabalho. De sorriso tímido, ainda enverga uma etiqueta amarela com o seu nome. Só a meio da conversa se apercebe disso. Esteve nas gravações de um episódio especial do Preço Certo, antes da entrevista. A RTP tem sido parte da vida da atriz no último ano.

Integra o elenco de Donos Disto Tudo desde o início, em outubro do ano passado. Num programa repleto de alguns dos mais importantes nomes da comédia em Portugal (Ana Bola, Joaquim Monchique, Eduardo Madeira e Manuel Marques) e realização de Fernando Ávila (falecido recentemente), a atriz é a mais nova do grupo, mas nem por isso passa despercebida.

Maria Rueff elogiou o seu trabalho no programa, nomeadamente as suas imitações de algumas personalidades portuguesas, neste que é dos poucos programas de humor em Portugal. “Faz falta a crítica. É muito bom o país ter um canal público onde haja humor, independentemente de eu estar a trabalhar com eles ou não“, diz Joana.

No DDT há espaço para a crítica social, para a criação de novas personagens e imitações de outras. Dentro dela cabem personagens bem diferentes… e uma “bomba latina” de seu nome Ana Malhoa, um dos grandes sucessos do programa e alguém que Joana admira na vida real. Foi a própria quem fez a proposta aos guionistas para incluir a personagem no guião.

Mas esta imitação não é coisa de agora: “A ‘Ana Malhoa’ é muito antiga, muito anterior a este programa. Eu já tinha vindo a trabalhar nesta personagem há anos mas não tinha nenhum objetivo”, conta. A Ana Malhoa de Joana Pais de Brito é o resultado de um trabalho intenso que, afirma, “não é natural“. “Há trabalhos muito grandes. Qualquer colega meu a quem perguntes vai ter a mesma resposta: é muito trabalho de casa“.

E quem diz Ana Malhoa, diz também a Cristina Ferreira, a Joana Latino ou a Catarina Martins de Joana. Com algumas das pessoas que imita “há uma ligação“. Joana não sabe ao certo de que natureza: “Pode haver um clique inicial, ou em relação à voz, à postura, o que a pessoa emana, não sei“. Não é seu objetivo que dali saia uma fotocópia pois neste processo de trabalho complexo fazem-se escolhas. “Não há só uma face para cada pessoa, por isso podemos ter imitações tão diferentes“.

A sua Catarina Martins, por exemplo, foi uma proposta da equipa de argumentistas liderada por Maria João Cruz e está longe de ser convencional. “Eu quis criar uma personagem quase de BD e fazer uma mistura entre o Gato das Botas do Shrek com o boneco Chuck. Mas foi a minha escolha”.Joana Pais de BritoE o objetivo é esse: desconstruir estereótipos, hábitos ou pessoas, mesmo que estejam num “lugar de poder”. “Eu acho que as imitações das pessoas que têm um estatuto maior na sociedade, como a Ana Malhoa e a Cristina Ferreira, são as que têm mais impacto, porque a pessoa está num lugar de poder e nós estamos a desconstruir. É quase como se fosse uma coisa proibida. Eu acho que essas personagens têm mais sucesso por causa disso, mas é a minha interpretação“, explica.

E o que dizem os imitados das suas interpretações? “Eu não penso nisso. Não estou a desvalorizar isso mas não é uma coisa pessoal, não é um recado. É uma personagem criada a partir daquela pessoa, uma espécie de uma máscara daquela pessoa“, responde.

A possibilidade de receber comentários menos positivos de alguns fãs das personalidades que desconstrói com as suas imitações não a demove. “Não houve comentários negativos mas se houver faz parte porque são pessoas muito queridas do público e por isso têm legiões de fãs. A intenção nunca é ferir nem gozar“.

Joana Pais de Brito

A terapeuta ocupacional queria ser atriz

Mas nem sempre foi esta a vida da atriz. Joana tinha “outra ocupação, outra vida“. Era terapeuta ocupacional, mas queria ser atriz. “Foi um clique”, conta. Já tinha feito teatro amador, mas a tempo inteiro trabalhava num Centro de Reabilitação. Decidiu retomar aulas de representação: teve aulas na Act – Escola de Atores e aprendeu com vários profissionais, entre eles John Frey (com quem aprofundou a técnica de Meisner, uma técnica de interpretação).

Seguiu-se o curso de representação em Nova Iorque, a formação como atriz e o teatro profissional. Em 2013, teve a primeira experiência em televisão na Academia RTP, com o telefilme Almas Penadas, da autoria de Rita Camarneiro. Depois disso, fez um casting. “Não sabia o que era mas fiquei“. E ficou no Canal Q, durante três anos. “Éramos todos jovens atores, tirando o João Cabral, já experiente. Estávamos todos mais ou menos a começar e conseguimos fazer um trabalho consistente durante dois anos“.

Joana Pais de Brito

Regressou à RTP com o remake de Agora Escolha e um lugar de destaque nas noites da estação pública. “Foi muito bom o desafio porque era um espaço muito fechado, era tudo ali, com várias pessoas à volta de uma mesa, o que não é fácil“. Além disso, Joana pôde trabalhar com atores de renome como Maria Vieira ou Victor Espadinha.

Mas a comédia entrou na vida de Joana por acaso. “Não foi planeado. Aconteceu que o meu primeiro trabalho televisivo, e o segundo também, foram na área da comédia. A televisão o que faz é, de repente, pôr uma lupa em cima da pessoa, o que a pessoa está a fazer é o que fica. E foi o que aconteceu.” Joana não gosta de um género específico e tem outros projetos em cima da mesa, nomeadamente no teatro. Rapidamente retifica que não se considera comediante. “Sou atriz“, remata.

Fotografias da entrevista: Inês Lourenço da Graça.

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