Em Portugal, a maior parte das séries internacionais são como estrelas. Da mesma maneira que a luz das estrelas demora anos até atingir o nosso planeta, também os novos episódios das séries estrangeiras demoram algum (demasiado) tempo a atravessar as fronteiras lusas. Não aproveitando este brilho de forma direta, poder-se-ia aproveitá-lo de forma ideológica. Por que não apostar mais nestes sucessos cintilantes?

Quanto à transmissão do que se faz lá fora, com raras exceções (como The Walking Dead, por exemplo), os novos episódios demoram quase uma temporada a chegar a Portugal. E são quase todas exibidas na televisão por cabo (como Game of Thrones, exibida na Syfy, ou Gotham, exibida na FOX), incitando o Zé Povinho a optar por soluções práticas e instantâneas, embora sacrificando, por vezes, a qualidade dos episódios das suas prediletas séries.

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Netflix

Estas soluções são, principalmente, online. No TOP 10 de 2015 das pesquisas realizadas no Google em Portugal pode-se encontrar o termo Netflix (serviço online que disponibiliza filmes e séries, através de streaming). E se esta presença na lista da tabela de classificação das tendências de pesquisa do motor de busca mais utilizado no mundo não demonstra procura, o que demonstrará? A resposta da programação generalista nacional não se adequa a esta perspetiva.

Já relativamente à produção nacional (potencialmente mais interessante), “o género dominante e praticamente totalitário neste momento (…) é a telenovela”, disse Nuno Artur Silva, administrador da RTP, a propósito do lançamento de Aqui Tão Longe que tenta aumentar a diversidade da ficção portuguesa.

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A ficção portuguesa está muito ligada ao conceito de novela e da programação diária. Na minha perspetiva, o que a salva é o núcleo cómico, que tem realmente valor, especialmente quando se adapta às realidades socioculturais do nosso país. O resto é, sensivelmente, idêntico entre novelas: excessivo drama familiar com tabus da atualidade encaixados nas entrepausas. E as novas novelas repetem. Ao fim de acompanhar duas ou três novelas fica-se cansado da produção nacional.

Aqui Tão LongeOs conceitos americanos, por exemplo, podem ser importados e trabalhados cá em Portugal sob a forma de produção própria (como se faz com os reality-shows e talent-shows). Já se provaram bons resultados (quem não gosta do Inspector Max?) e um episódio por semana é bastante exequível. Há, também, imensas temáticas para explorar desde advogados às épocas medievais, passando pela adrenalina vivida num hospital.

Neste sentido, a RTP tem feito o melhor trabalho. Com a estreia de Aqui Tão Longe, série nacional que aborda o terrorismo, no próximo dia 29, o canal público fez-me crer que a ficção portuguesa não estará presa para sempre ao típico formato da novela e poderá brilhar mais, eventualmente (apesar de manter a emissão diária).

Faltam agora os outros canais generalistas. Falta agora diminuir o tempo de espera desde o lançamento do episódio até à sua exibição em Portugal. Falta agora que a ficção portuguesa saia da sua zona de conforto e que isso seja apreciado pela audiência. Veremos se a luz de Aqui Tão Longe ofuscará os portugueses.

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