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Foto: Jesus Ubera

‘A Morte da Audiência’ : um espetáculo onde o público está vivo

Na reta final do festival Cumplicidades 2016, os espetadores foram levados a sair da plateia e a fazer parte da própria performance que viam. A Morte da Audiência de Bruno Humberto esteve no Museu da Marioneta, em Lisboa, para mostrar como um espetáculo também pode ser feito por quem não o prepara.

A ideia para A Morte da Audiência surgiu depois de Bruno Humberto ter apresentado Holding Nothing, em Inglaterra. A interação com o público é o mote do presente espetáculo, que está dividido em três versões: Working in Progress Versions. Depois de ter apresentado o trabalho no Trispace e no The Place, em Londres, e no Atelier Real, em Lisboa, chega ao Claustro do Museu da Marioneta.

Pistas para um espetáculo onde se vai participar

Num sábado chuvoso (19 de março), um espetáculo preparava-se para ser apresentado ao ar livre. O público começa a chegar e na entrega de bilhetes é-lhe dado um envelope com um número e indicações. Cada um deve ler o envelope antes do espetáculo para depois poder fazer parte dele. A curiosidade vai crescendo à medida que a hora marcada se aproxima.

As várias pessoas que estão no recinto começam a ler em voz alta e a rir-se com as indicações. “Vamos ter de dançar com alguém de faca na mão?” Ou “Temos de bater a alguém com uma cana”? As indicações abrem o apetite para o que se vai passar e de como se vão executar estes pedidos.

Surge uma voz no ar que indica o início, que não foi estragado pela chuva. Seremos “cúmplices de uma morte que se chama espetáculo”, ouve-se. Mas a verdade é que surge uma música de tourada e com ela o performer numa mini-bike, que interpreta uma garraiada humana. Há um pedido projetado numa tela, o número 7 deve entrar no espetáculo e terá de bater com canas no performer.

Há agitação, risos, pessoas que se afastam e no final uma queda que passa para um entorpecimento do corpo. Há depois um círculo em volta do performer, que se torna num contador de histórias e fazedor de discursos, mesmo não gostando de os fazer, após vencer um prémio.

A morte da audiência Bruno Humberto_ 19_ Mar_19h_Museu da Marioneta - Claustro_2016 Uma performance acerca da natureza da audiência – as expectativas, relações, tensões e papéis que cada um assume, individualmente ou em grupo numa situação de espectáculo ou terror cénico. Através da dança, video, teatro-físico, poesia e som, apresenta-se um ensaio absurdo acerca do espectador, da sua responsabilidade, acção e passividade em massa. Uma série de situações para um público em movimento, onde são desconstruídas coreografias de distâncias e poder inerentes em qualquer tipo de ritual ou espectáculo. Ficha Técnica: Texto, Autoria, Som, coreografia e performance: Bruno Humberto Fotografia: © Mário Vasa | World Academy
Foto: Mário Vasa | World Academy

O performer é também espetador

Mas o papel inverte-se e o performer torna-se parte da plateia. Aplaude alguém que está a atuar e é um fã incondicional do seu trabalho. O tempo passa e a adoração torna-se nula. Encontramos aqui um paralelo com o que se passa com os ídolos e o histerismo associado a eles.

Se a palavra e a voz foram determinantes nesta cena, na seguinte, Bruno Humberto utiliza o corpo como se fosse um predador e estivesse à procura de alguém. De facto, tem a intenção de transportar todo o público, e com o seu movimento leva o público para perto da tela.

No final surgem novas sensações: o perigo e o medo. O performer agarra numa faca e dança com uma espetadora Ela ri, ri muito. Os restantes espetadores formam pares e dançam com uma faca ao som de uma música romântica também. Surgem projetados todos os números e todos os que se mostram disponíveis participam no espetáculo. Já não há volta a dar, todo fizeram parte do espetáculo.

A morte da audiência Bruno Humberto_ 19_ Mar_19h_Museu da Marioneta - Claustro_2016 Uma performance acerca da natureza da audiência – as expectativas, relações, tensões e papéis que cada um assume, individualmente ou em grupo numa situação de espectáculo ou terror cénico. Através da dança, video, teatro-físico, poesia e som, apresenta-se um ensaio absurdo acerca do espectador, da sua responsabilidade, acção e passividade em massa. Uma série de situações para um público em movimento, onde são desconstruídas coreografias de distâncias e poder inerentes em qualquer tipo de ritual ou espectáculo. Ficha Técnica: Texto, Autoria, Som, coreografia e performance: Bruno Humberto Fotografia: © Mário Vasa | World Academy
Foto:Mário Vasa | World Academy

Uma performance para quem quer ser ativo

A Morte da Audiência é uma performance que obriga a atuar. É preciso estar preparado a não se ser passivo. Tem de se criar uma deslocação no espaço e ser performer também. Para o performer ‘oficial’ é um espetáculo intenso e arriscado. De facto, é ele quem comanda o seguimento e a ação do espetador. A espetacularidade de algo já estar fabricado antes da sua execução não termina, aqui é determinado pela presença de agentes que o criador não conhece, nem ensaiou.

E se o público não corresponder e for só audiência?  O jogo é mútuo e a ligação é feita pelos assuntos atuais contidos na peça e a predisposição para se ser ativo num espetáculo. A Morte da Audiência é um trabalho sobre o ser humano, a sua experiência, muitas vezes, indiferente no mundo e a forma como gerimos os nossos gestos, intenções, ações e emoções.

É um espetáculo absurdo e, muitas vezes, com sensações contraditórias, quer seja na dança de apaixonados com uma faca ou de alguém que não gosta de discursar, mas fá-lo na mesma. É a vida no seu sentido questionável e aqui há vidas a participarem num espetáculo que não prepararam.

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