Judaica 2016: o último dia e uma despedida emocionada

Judaica 2016: o último dia e uma despedida emocionada

Ao fim de cinco dias repletos de excelentes filmes, interessantíssimos debates e outras grandes iniciativas, a Judaica 2016 terminou. O dia final voltou a primar pela programação variada e a cerimónia de encerramento foi recheada de emoções fortes, com a presença do escritor e realizador Péter Gárdos.

Eichmann, O Espectáculo

Eichmann, O Espectáculo, produzido pela britânica BBC, centra-se no julgamento de Adolf Eichmann – aquele que foi um dos principais orquestredores do horrendo plano que ficou na História conhecido como “Solução Final da Questão Judaica” – e na difusão televisiva do mesmo, que constituiu a primeira série documental distribuída mundialmente.

Este enredo, que segue Milton Fruchtman (Martin Freeman) e Leo Hurwitz (Anthony LaPaglia) – os responsáveis pela transmissão televisiva do evento – corria o risco de se tornar numa peça cinematográfica desinteressante, algo que acaba por não acontecer neste filme realizado por Paul Andrew Williams. Ao apresentar ao espectador as filmagens originais do julgamento de uma forma fluída e não forçada, a obra ganha uma dimensão mais realista, permitindo uma maior imersão por parte do público. Além disso, os aterradores eventos do Holocausto não são expostos em demasia nem utilizados com o mero intuito de causar o choque: são-nos apenas apresentados relatos curtos de três sobreviventes e, num outro momento, um cena em que Eichmann é confrontado com imagens arrepiantes da realidade dos campos de concentração, isto utilizando sempre os vídeos originais de arquivo.

Colocando à audiência a mesma questão com que Hurwitz se debatia – se, nas condições certas, qualquer humano se pode tornar um monstro como Eichmann ou se, por outro lado, essa capacidade é apenas possível a determinados indivíduos – Eichmann, O Espectáculo apresenta uma forma filosófica de o público pensar o tema incontornável que ainda é o Holocausto.

7/10

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Jerusalém Oriental/Jurusalém Ocidental

Realizado pelo português Henrique Cymerman e Erez Miller, o documentário Jerusalém Oriental/Jurusalém Ocidental, produzido por Gidi Avivi, mostra a produção de um albúm em oito dias e oito noites numa colaboração entre músicos israelistas e palestinianos, partindo da premissa que o mundo político pode ser esquecido com a produção de arte.

Seguindo principalmente David Broza, músico israelita e ativista pela paz de quem partiu a ousada ideia de fazer o albúm de mesmo nome que o documentário, este filme pretende mostrar como ideia principal que uma ponte entre palestinianos e iraquianos é possível, mesmo que o primeiro passo na direção de um diálogo de paz seja algo tão simples como um disco musical. Durante o documentário conhecemos também um pouco sobre os artistas, sendo uma das histórias de maior destaque a de Muhammad Mughrabi, rapper que toda a sua vida viveu num campo de refugiados, apresentado ao público a realidade do mesmo.

Apesar de, como peça documental, Jerusalém Oriental/Jerusalém Ocidental ser completamente mediano, o seu ponto forte é a discussão política que instiga, como foi provado após a exibição da película em que, numa sessão de perguntas e respostas com Cymerman e Avivi, foram levantas questões como a influência do estado islâmico, as pressões a que os próprios artistas foram sujeitos (quer pelas suas famílais, quer por grupos externos) pela sua participação no albúm e se será possível alguma vez alcançar-se a paz a que se apela no documentário.

6/10

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Febre ao Amanhecer

O filme escolhido para encerrar a 4.ª edição da Judaica foi Febre ao Amanhecer. Baseado numa incrível história verídica, a fita acompanha Miklós e Lili, dois sobreviventes do Holocausto que recuperam das sequelas que os horrores dos campos de concentração lhes causaram. Ele é diagnosticado com uma doença terminal mas, incapaz de desistir da vida, envia cartas a mais de 100 raparigas húngaras em tratamento na Suécia, de modo a conhecer alguém com quem possa refazer a sua vida; ela ficou conquistada pela carta de Miklós e decide continuar a correspondência.

Os dados são então lançados para um romance à distância, onde, paralelamente ao amor que os dois vão desenvolvendo um pelo outro, há também um confronto com o passado recente, com aqueles que perderam na guerra e aqueles ainda desaparecidos. O excelente trabalho de fotografia transporta-nos eficazmente para a época e para o ambiente pesado que se vivia na altura, e as boas interpretações do par amoroso concedem à narrativa a genuinidade necessária para acreditarmos no drama dos protagonistas. Febre ao Amanhecer tinha, assim, boas condições para se tornar numa obra de alto calibre, mas há um grande problema: o argumento. As mudanças de tom entre os diálogos sobre o amor das personagens e as recordações que todas têm do Holocausto nunca são naturais, sentem-se antes forçadas e “isoladas”: do nada, há uma qualquer fala sobre o que aconteceu a determinada altura num campo de concentração sem que nada a pedisse e sem que nada de relacionado lhe siga. Já as conversas sobre amor acabam por ir dar a caminhos aclichézados e algo lamechas, fazendo com que a bonita história de Miklós e Lili caia ocasionalmente em alguns lugares comuns.

Péter Gárdos esteve presente na sala e explicou ao público o porquê de ter escrito e, depois, levado ao grande ecrã esta história verídica. Miklós e Lili são, nada mais, nada menos, que os seus pais, e o escritor/realizador decidiu partilhar com o mundo as vivências dos seus progenitores depois de a mãe lhe ter mostrado todas as cartas que havia trocado há mais de meio século com o seu então futuro marido. Num discurso emocionado, Gárdos contou alguns pormenores da vida dos seus pais e explicou o episódio que o levou a ir para a frente na realização do projeto. O público, chocado e sem palavras, não fez qualquer questão e foi, assim, dada por terminada a última sessão da Judaica 2016.

7/10

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A Judaica parte agora para Cascais, onde vai estar entre 8 e 10 de abril, seguindo-se Belmonte (14 a 16 de abril) e Castelo de Vide (5 a 8 de maio). Em Lisboa ficam as memórias de mais um grande certame, bem como as emoções de cinco belos dias onde se celebrou o melhor do cinema e cultura judaicos. Elena Piatok, a diretora e alma do festival, voltou a dirigir o evento com todo o seu amor e dedicação e tornou a cidade alfacinha na “capital do cinema judaico“, tal como Henrique Cymerman fez questão de referir.

Texto de Rui Pereira e Sebastião Barata

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