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Judaica 2016: receitas e memórias do Holocausto

Prestes a chegar ao fim, a Judaica dedicou o seu penúltimo dia em Lisboa ao Holocausto. O tema já havia sido figura principal em alguns filmes de dias anteriores, mas ontem não houve como escapar ao tema, graças a uma programação que o olhou de várias perspetivas.

Claude Lanzmann: Espectros de Shoah

Sobre Shoah, o monumento cinematográfico sobre o Holocausto, já não há muito a dizer. Por entre prémios, distinções e alguma polémica, o documentário de nove horas já foi discutido e analisado até à exaustão. Espectros de Shoah não se foca, assim, no filme em si, mas sim no homem que o criou: Claude Lanzmann.

O cineasta, conhecido por ser um homem reservado, é entrevistado por Adam Benzine e, aos poucos, começa a abrir-se e a contar alguns detalhes da produção do seu documentário e a forma como este foi afetando e tomando conta da sua vida. Apesar da idade avançada (90 anos), Lanzmann recorda com lucidez alguns momentos das filmagens, alguns deles inéditos até hoje, e conta algumas histórias de bastidores bastante curiosas. A força das suas palavras coloca em evidência um homem assombrado que, durante os 12 anos em que filmou e montou Shoah, se deixou afundar naquele universo negro e mortal, e a entrevista, que a início funcionava como uma espécie de making-off da obra-prima, vai ficando mais e mais íntima à medida que o francês explora as suas memórias. São 40 minutos impressionantes que, merecidamente, estiveram há quase um mês nomeados para Melhor Curta Documental nos Oscars.

8,5/10

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Festins Imaginários

Se vos dissessem que, em plenos campos de concentração e de trabalhos forçados, onde, pelo meio de tortura, morte e fome, prisioneiros iam escrevendo e partilhando receitas, o que achariam? Muito provavelmente, diriam que, ainda que algo paradoxal, não deixa de parecer natural que aqueles privados de humanidade e liberdade dedicariam parte do seu tempo a, em conjunto, relembrar aquilo que os libertava, por momentos, de toda aquela atrocidade.

Pois bem, Festins Imaginários, aparentemente, não se apercebe do quão óbvia é esta resposta e vai aprofundá-la em vão. O documentário fixa-se nesta parte da história da II Guerra Mundial, revelando alguns dos livros de receitas escritos na altura, no meio de todo aquele horror. É um perspetiva curiosa que seria interessante como uma curiosidade mencionada pelo meio de um documentário sobre o Holocausto em geral. Contudo, o tema alonga-se por mais de uma hora e a fita acabar por tornar-se francamente redundante. Há intervenções de filósofos, filólogos e psicólogos para explicar aquilo que não precisa de explicação e algumas entrevistas a sobreviventes e familiares de vítimas que apenas vão descrevendo as receitas. Festins Imaginários é um documentário vazio que não nos leva a lado algum, e foi um dos pontos baixos desta edição da Judaica.

3,5/10

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A Minha Herança Nazi

Após o anterior documentário exibido na Sala Manoel de Oliveira, A Minha Herança Nazi foi uma muitíssimo agradável brisa de ar fresco que demonstrou à audiência aquilo que uma peça cinematográfica do seu género deve realmente ser. A obra, que estreou em finais de 2015, estabelece uma dinâmica interessante entre Phillip Sanders, Horst von Wächter e Niklas Frank, três homens com algo trágico em comum: o Shoá.

Phillip, advogado famoso cuja família foi, quase na sua totalidade, exterminada pelos nazis no decorrer do Holocausto, viaja por diferentes locais europeus com os outros dois indíviduos, ambos filhos de importantíssimas figuras do regime nazi, cujos cargos implicavam responsabilidade de ações e contacto direto com Adolf Hitler. O documentário explora a relação de Horst e Niklas com o seu passado, usando Phillip como uma espécie de moderador de um debate muitas vezes dificíl de estabelecer. Enquanto Niklas tem plena noção de que o seu pai (Hans Frank) foi diretamente responsável pela morte de milhões de judeus, repudiando-o por isso e negando-lhe qualquer tipo de respeito, Horst cria uma visão pessoal do seu (Otto Wächter) ao vê-lo como homem decente, preferindo assim manter-se na ignorância e recusar, perante inúmeras provas que lhe são expostas, que também o seu progenitor é responsável por levar a cabo a Solução Final. A película apresenta assim duas diferentes perspetivas de dois filhos que durante toda a sua vida estiveram na sombra dos atos dos seus pais, mostrando ao espetador as dimensões psicológicas dos discursos opostos de Horst e Niklas.

Não só por abordar este tema negro da História de uma forma diferente àquela a que estamos habituados a assitir num trabalho documental, mas também pela sua fotografia, por deixar espaço para um debate de implicações morais e por tratar um tema sensível de uma forma extraordinária, A Minha Herança Nazi possui muitos poucos pontos fracos que se possam apontar, sendo assim merecedor do adjetivo “excelente”.

9/10

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Texto de Rui Pereira e Sebastião Barata