Judaica: dos refugiados ao anti-nacionalismo

Judaica: dos refugiados ao anti-nacionalismo

A Judaica já vai a meio e continua a primar por uma programação riquíssima e variada, como se voltou a comprovar no seu terceiro dia. De documentários à ficção, de dramas à comédia, o festival não desilude e vai oferecendo ao seu público uma data de títulos muito interessantes e curiosos.

Ellis

Redigida pelo famoso Eric Roth, protagonizada pelo lendário Robert De Niro e realizada por JR, Ellis apresenta ao público o hospital abandonado da ilha de Ellis, onde imigrantes que procuravam o sonho americano ficavam detidos durante longos períodos de tempo devido ao seu estado de saúde e, em vários casos, chegando mesmo a ser obrigados a voltar para os seus países de origem.  Com um excelente conceito e uma fotografia digna de um filme de longa duração, Ellis é uma magnífica curta-metragem que se enquadrou na perfeição no tema do terceiro dia da Judaica.

8.5/10

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Todos os Rostos têm um Nome

Imediatamente após a curta-metragem Ellis, foi exibido o documentário Todos Os Rostos Têm Um Nome, de Marcus Gertten. Partindo de filmagens de arquivo da chegada a Malmö de sobreviventes de campos de concentração alemães a 28 de abril de 1945, o realizador sueco toma como sua missão encontrar essas mesmas pessoas hoje ou, pelo menos, conseguir associar um nome a cada rosto que ali chegou à procura de uma nova vida.

As entrevistas a alguns dos sobreviventes que Gertten conseguiu localizar servem de grande exemplo dos diferentes efeitos que a guerra tem em cada ser humano, havendo quem fale sobre o que aconteceu e quem se recuse a deixar que essas memórias voltem ao de cima, assim como uma pessoa que admite todas as noites falar sozinha. As situações retratadas são também diferenciadas e extrordinárias: uma mulher americana que, numa infeliz visita à sua família em Itália, é detida por Nazis que a apontam como uma espiã; um membro da resistência norueguesa que relembra uma história em que soldados da SS realizavam experiências em crianças judias, acabando por matá-las; um par de irmãos que sobreviveram à guerra fugindo e escondendo-se, em que o mais novo diz que ter passado anos disfarçado como rapariga e relembrando como no reencontro com os seus pais não conseguiu sentir nada.

São estas as histórias que fazem do documentário algo especial, algo de intimamente humano. Por outro lado, peca por uma fotografia banal e recorrente do género, assim como um tempo de duração maior do que àquele que deveria ter.

No entanto, para além de tudo isto, o ponto do documentário que mais permitia a reflexão da audiência foi a possível comparação com a atual situação dos refugiados na Europa. O debate realizado após a peça cinematográfica, com a presença do realizador do documentário Marcus Gertten, de Pedro Calado (Alto-Comissário para as Migrações) e de Rui Marques (Plataforma de Apoio aos Refugiados), serviu para desenvolver esse mesmo tema, deixando a mensagem que também todos aqueles que hoje fogem da guerra à procura de uma nova vida no continente europeu também têm um nome.

7/10

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Querido Deus

A curta que antecedeu o filme da noite apresentou uma simples e bonita história passada em Jerusalém. É lá, mais precisamente no Muro das Lamentações, que uma mulher vai depositando nas fendas das paredes daquele lugar sagrado os seus desejos. Um vigilante assiste às suas ações e, à noite, vai ler os bilhetes da mulher, com intuito de concretizá-los.

Em apenas um quarto de hora, Querido Deus consegue despertar-nos vários sentimentos, ao contar uma história misteriosa com um toque de melancolia, que culminará num final enternecedor. Sem que seja necessário qualquer diálogo para entendermos a relação que os dois protagonistas estabelecem entre si, contribuindo para tal as boas interpretações da dupla Lior Ashkenazi e Reymond Amsalem, a curta desenrola-se suavemente e vai conseguindo manter o mistério sobre o porquê do vigilante estar a concretizar os desejos da mulher que observa todos os dias. Querido Deus é, assim, um cativante e delicado título que abriu e bem a última sessão deste terceiro dia de Judaica.

8/10

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Finsterworld

Expetativas altas para um filme que teve bastante sucesso junto da crítica internacional. Finsterworld propõe-se a contar uma série de histórias em mosaico onde o sentimento geral das personagens é o mesmo: o de não se sentirem realizadas, de não sentirem que são quem querem ser e de não se identificarem com a sua nacionalidade alemã. É um pouco difícil um espetador português relacionar-se, por isso, com o filme. Um dos principais temas explorados tem a ver com a identidade dos germânicos e da (difícil) relação que estabelecem com o seu país e, principalmente, com o seu passado histórico e coletivo. Percebemos as ideais transmitidas, mas não as conseguimos sentir verdadeiramente.

Contudo, não é apenas este impedimento em conseguirmos colocar-nos junto das personagens que faz com que Finsterworld seja uma pequena desilusão. Isso deve-se a uma narrativa que demora demasiado tempo a construir-se. O primeiro e o segundo ato parecem estar constantemente a bater na mesma tecla, colocando em evidência a peculiaridade e bizarrice dos seus personagens sem que nada de muito relevante chegue a acontecer. O clímax e a última meia hora demonstram que havia ideias e conclusões interessantes às quais a realizadora Frauke Finsterwalder queria chegar, mas não justificam nem compensam um maçador e, por vezes, incoerente build-up.

A “fábula negra” que se prometia acabou por ser um leque de histórias monótonas que conduziram a um final, esse sim, curioso. Pena que para lá chegar tenhamos tido que percorrer um caminho desinspirado e vazio. Destaque, ainda assim, para o belo trabalho de fotografia e para as boas performances dos atores.

5,5/10

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Texto redigido por: Rui Pereira e Sebastião Barata

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