Já arrancou a Judaica 2016. A 4.ª edição da Mostra de Cinema e Cultura Judaica estende-se até domingo no Cinema São Jorge, partindo depois para Cascais, Belmonte e Castelo de Vide. A sessão de abertura foi ontem e trouxe muito público à Sala Manoel de Oliveira, curioso por ver Natalie Portman atrás das câmaras, em antestreia nacional. Até dia 20, muitas pontos de interesse e outra surpresas continuarão a passar por Lisboa, não faltando, por isso, motivos para dar um salto à Judaica.

LÊ MAIS: ESTÁ A COMEÇAR A 4.ª EDIÇÃO DA JUDAICA – MOSTRA DE CINEMA E CULTURA

UMA HISTÓRIA DE AMOR E TREVAS

Natalie Portman já conquistou o apreço do público e da crítica como atriz. Uma História de Amor e Trevas marca, assim, a sua estreia na realização, naquele que é um projeto muito pessoal e querido da, agora, cineasta, natural de Jerusalém, cidade à qual dedicou o filme.

E lá está: o grande interesse da fita reside na história de bastidores. Portman lutou durante oito anos para poder concretizar o sonho de fazer um filme sobre o seu povo e o seu país (todo ele falado em hebraico por escolha da realizadora), desde que adquiriu os direitos do livro autobiográfico de Amos Oz até à altura em que conseguiu angariar todos os fundos necessários. É um filme claramente feito com carinho e amor, e, no panorama atual do cinema, há que prezar tal devoção.

Apesar disso, o produto final de Uma História de Amor e Trevas está longe de corresponder ao nível de dedicação nele empregue. Portman revela a sua inexperiência na cadeira de realizadora, estando patente um trabalho de câmara, digamos, “trapalhão”, que até poderia ter sido atenuado na sala de montagem (o que não aconteceu). São muitos os movimentos de câmara inapropriados ou mal executados que nos distraem da história em si, esta já sem fluidez suficiente para ser acompanhada com verdadeiro interesse. As ideias que Portman tem para fazê-la avançar nem são más de todo (ainda que algumas existam com único intuito de ajudar ao final tearjerker), mas a forma como as aplica é confusa e forçada, nomeadamente as fábulas que Fania conta ao filho Amos.

O olhar sobre o período histórico no qual se passa a narrativa (a fixação do estado de Israel na Palestina depois da II Guerra Mundial) é algo superficial, ainda que afete diretamente a família que protagoniza o filme. As consequências no Médio Oriente da II Guerra Mundial ainda hoje se fazem sentir e seria de esperar uma análise interessante por parte de Portman relativamente a um assunto importante e nem muitas vezes presente no cinema. Contudo, tal não é muito aprofundado (ainda que seja de destacar o prisma minimamente imparcial através do qual é visto), estando em primeiro plano o drama familiar da família de Amos. Já este é filmado com delicadeza (em especial a relação entre o jovem e a sua mãe, Fania) e dá origem a algumas cenas comoventes, mas não deixam de estar presentes lugares comuns, à primeira vista, evitáveis.

Uma História de Amor e Trevas é, indubitavelmente, um filme feito com todo coração por Natalie Portman, mas está à vista a sua falta de experiência (não é por acaso que está melhor a interpretar Fania do que a filmá-la) que culmina numa primeira obra tecnicamente fraca e com dificuldades em dar vida e alma à história. Pode ser que numa próxima oportunidade consiga dar melhores provas do seu talento atrás das câmaras, mas, por agora, ainda não nos convenceu.

5/10

a tale of love and darkness