foto de Heinrich Völkel

Leonor Teles: “Pode-se dizer que tentei e consegui”

O Espalha-Factos entrevistou a realizadora portuguesa Leonor Teles a propósito da sua curta-metragem Balada de um Batráquio, premiada com o Urso de Ouro. Aos 23 anos, a cineasta dá-nos a conhecer aquilo que a motivou a trabalhar neste projecto e confessa ainda que “está agora a começar”.

Espalha-Factos: Numa curta-metragem cujo conceito é aparentemente simples, tratas com pertinência problemas complexos como a xenofobia e a exclusão social. Quais são, para ti, as vantagens e desvantagens em abordar estas temáticas numa narrativa de pequena duração?

Leonor Teles: A verdade é que eu ainda não sei abordar assuntos de outra forma, ainda não sei fazê-lo num formato longo, portanto acho que essa é uma condicionante que eu tenho neste momento. Apesar disso, acho que a duração ideal para este filme é mesmo a curta-metragem, porque, desde o início, eu disse que este filme deveria ter uma duração de cinco a sete minutos e acabou por ter onze. O formato curto permite não aborrecer ninguém, ir direto ao assunto e tornar as coisas simples e eficazes. Porque se reparares na questão central do filme, não faria sentido estar vinte minutos, ou mais, a partir sapos, perdia o impacto que o filme tem.

EF: Filmaste Balada de um Batráquio em Super 8. A que se deveu esta escolha de formato?

LT: Filmei em Super 8 porque achei que era o formato mais apropriado para abordar esta temática. É um formato que por si só é muito tosco e permite criar uma imagem muito granulada, com as cores muito vivas e era preciso conseguir que a vertente estética e visual se coadunasse com a temática e com a narrativa do filme. Ou seja, isto é tudo uma parvoíce pegada e era preciso que o suporte em que nós filmássemos continuasse esta ideia de tornar as coisas mais “parvas”.

nocas

EF: No teu filme, assistimos à destruição dos infames sapos de loiça. Que dimensão simbólica atribuis a esse gesto? Considera-lo como um ato de libertação, ou, por outro lado, uma atitude de desafio?

LT: Não sei se atribuo uma dimensão simbólica particular… Eu fui partir sapos “só porque sim”, porque é uma forma de quebrar com o preconceito, acho que é um bocado isso… Acho que é mais uma atitude de desafio, porque para partir os sapos tive de infringir a lei. Aquilo que eu fiz foi vandalismo, portanto estou a desafiar o que está instituído, na medida em que as pessoas põem sapos à porta para afastar ciganos e eu parto os sapos para acabar com essa parvoíce. Mas claro que esse tipo de atitudes não vai acabar…

EF: O nome Balada de Um Batráquio remete-nos para o som que o sapo reproduz ao ser partido. Porquê a escolha deste título?

LT: O filme é muito musicado e eu, na altura em que andava a preparar o filme, estava a ouvir uma música que tinha a palavra ‘Balada’ e fiquei com ela na cabeça. Era o Quando Troveja dos TV Rural. Achei que tinha de por a palavra também no titulo do filme. Depois em conversa com uma amiga, surgiu-me de repente a ideia de Balada de um Batráquio e achei que era perfeito para o filme.

EF: Durante a rodagem, o ato de “partir os sapos” acaba por decorrer de forma bastante fluída, trazendo a espontaneidade que o filme precisa. Não tiveste nenhuma crítica negativa por parte dos donos dos sapos ou de alguém envolvido no filme?

LT: Até agora não houve nenhuma queixa, mas a verdade é que o filme ainda não estreou em Portugal e as pessoas ainda não o viram cá. Portanto, não sei se serei processada por alguém, mas o facto de filmar em Super 8 protege um pouco esse aspeto de identificação automática, uma vez que este não é o formato com mais definição. Quem vê o filme, consegue identificar os locais, mas se calhar não consegue fazer essa mesma identificação das pessoas de uma forma tão clara como faria se fosse filmado em HD.

nocas2EF: Enquanto trabalhavas em Balada de um Batráquio, sentiste-te influenciada pela obra de algum cineasta em particular?

LT: Não, para este filme em específico não houve nenhum cineasta que me influenciasse, mas existem alguns que me inspiram, como é o caso do Wong Kar-Wai e, de outra forma, o Pedro Costa.

EF: Antes de Balada de um Batráquio, tinhas realizado a curta-metragem Rhoma Acans, onde exploraste também esta temática das tradições ciganas. De que forma estes dois trabalhos estão relacionados?

LT: O Rhoma Acans e o Balada de um Batráquio são completamente diferentes. Enquanto no primeiro, eu estou a questionar a tradição cigana, fui à procura do que é a identidade cigana e qual o papel da mulher cigana na sociedade, aqui eu estou a trabalhar numa coisa completamente diferente. Estou a intervir na “realidade”, a partir sapos, eu própria estou a tentar responder às questões levantadas pelo filme. Penso que a única coisa que os dois filmes têm em comum são os sujeitos, ou seja, os ciganos.

EF: Que conselhos gostarias de dar a jovens realizadores portugueses que estejam agora no começo das suas carreiras?

LT: Eu ainda nem sei bem o que dizer a mim… Eu também sou um desses jovens realizadores que está agora a começar. O que posso dizer a uma pessoa que quer muito realizar um filme, explorar um tema e trabalha-lo através do cinema é que tentem. Eu também trabalhei bastante para conseguir realizar este filme. Desde o momento em que nasceu a ideia, em setembro de 2013, até ao momento em que o concluí, em dezembro de 2015, passaram dois anos e pouco. Portanto, pode-se dizer que tentei e consegui. Foi um percurso bastante longo e difícil, mas valeu a pena.

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Perguntas de Diogo Ferreira e André Pereira 
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