Quem não se lembra de, em tempos que passaram, jogar o célebre The Sims e ser assaltado pelo assustador pensamento de alguém poder estar a manipular-nos do mesmo modo que nós manipulávamos as personagens daquele videojogo? Universos Paralelos é a peça de teatro que nos põe frente a frente com estas apavorantes suposições.

Vídeos, câmaras e mais vídeos. Pessoas, salas e corredores preenchem os ecrãs à nossa frente. Nós vemos, eles são vistos. O que observamos do lado de lá? Onde começa e acaba o universo do megapixel?

A nova peça produzida pela mala voadora vem endereçar estas e outras questões (algumas bastante existenciais) a um público jovem. Fá-lo de uma forma simples, descontraída. Universos Paralelos leva-nos pelo primeiro dia de trabalho de três novos seguranças cuja tarefa é fazer a videovigilância numa misteriosa empresa.

Aborrecidos com a monotonia do seu trabalho, os seguranças decidem roubar documentos da direção da empresa para descobrir o que é que esta anda a “congeminar”. Marco Paiva, Marta Correia e David Pereira Bastos estão em palco a guiar-nos pelo percurso destes vigilantes, enquanto as gravações das câmaras a que atentam se tornam mais intrigantes.

Fotografia cedida por TNDM II

Os seguranças acabam por descobrir que a empresa está a desenvolver um programa de realidade alternativa virtual que é uma réplica exata da sua realidade, com precisamente os mesmos lugares (supermercados, discotecas, hospitais, igrejas – tudo!). Dentro desta realidade alternativa habitam organismos virtuais que acreditam ser aquele o mundo real. A empresa tenciona sujeitá-los a todo o tipo de desastres, epidemias e terrores, para testar os seus comportamentos e reações. Uma espécie de experiência social.

É logo aqui que começa o existencialismo de Universos Paralelos. Somos levados a reavaliar a ideia de Deus. Quem é este criador que fez tudo quanto existe do modo como o fez? A hipótese de um génio maligno, qual empresa produtora da realidade simulada, equaciona-se. O horror instala-se entre os seguranças após a revelação e agrava-se quando percebem que a anterior equipa de segurança “desapareceu” por “saber demasiado”. O mistério cresce quando o chefe de segurança desaparece da empresa, das gravações das câmaras de vigilância e das memórias de todos.

Quando a simulação está do lado de cá

As realidades alternativas misturam-se e confundem-se até os seguranças (e o público) não mais perceberem o que é real e o que não é. Até todos ficarem a questionar a existência tal como a conhecem. O conceito não é, de todo, original, embora seja sempre intrigante. Desde a Alegoria da Caverna que o Homem se debruça sobre as dissimulações da sua percepção do real e as referências a cenários de realidades simuladas e super vigiadas multiplicam-se no imaginário da arte e da cultura pop, de The Truman Show a Matrix e tantos mais.

A ideia de mundos paralelos, que coexistem com o nosso, que são tão válidos como ele, que estão à mercê das suas próprias regras, e dos quais não estamos nem um pouco conscientes, é impreterivelmente fascinante. No texto de Jorge Andrade, diretor artístico da mala voadora (juntamente com José Capela), é de destacar a “maquinização” dos diálogos, constantemente rebobinados, denunciadores de que também aqueles seguranças não são tão reais como acreditam ser.

Fotografia cedida por TNDM II

Mesmo com o tom constantemente relaxado da peça, está explícita essa pretensão da desconfiança e de uma inquietação – que chega a ser concretizada com sucesso em determinados momentos, particularmente quando mergulhamos nas atrativas imagens da realidade virtual, uma experiência de simulação intrinsecamente estética. Aqui o reconhecimento tem de ir para toda a componente vídeo, a cargo de Jorge Jácome e Marta Simões.

A vitória do timing

Apesar das interpretações algo pueris (compreensíveis pelo facto de o público-alvo do espetáculo ser jovem), a coordenação entre a representação ao vivo e a interação desta com o vídeo é impecável – sempre no timing correto. A contracena dos três seguranças é dada do lado de lá do ecrã, por Jorge Andrade, Maria João Falcão, Pedro Caeiro, Manuel Moreira, Vítor d’Andrade e muitos outros. Todos os personagens têm o nome dos atores que os interpretam, o que se torna bem cómico quando alguns nomes mais sonantes estão envolvidos em cenas absurdas.

O fio condutor emaranha-se e não se pode dizer que se chegue a grandes conclusões em Universos Paralelos, mas as perguntas estão lá para quem quiser pensar sobre elas. E, no final, uma técnica nada tecnológica consegue trazer um efeito surpreendente à trama. Depois de deixar o Teatro Nacional D. Maria II, onde esteve em cena até 6 de março, a peça segue agora para o Teatro Virgínia, em Torres Novas, onde será apresentada nos dias 11 e 12 de março.