3 de março de 2016, 11h50. No auditório 0.05 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa estão cerca de vinte pessoas à espera para ouvir Andrew Tarvin, o “Engenheiro do Humor”, cuja palestra deverá ter início ao meio dia.

Ouvem-se os murmurinhos típicos das conversas que se cruzam e intensificam ao entrar mais gente no auditório. A sala começa a encher. Andrew veste uma camisa ao xadrez, um casaco desportivo e jeans. É alto, magro, e com um ar naturalmente simpático. Enquanto o público espera, conversa com a professora Teresa Botelho, responsável pela organização do evento. Parece nervoso.

Passam uns minutos do meio-dia quando Teresa começa a falar para todos os presentes. A professora faz uma pequena introdução em inglês, à qual se segue uma salva de palmas. Silêncio, que se vai falar de humor.

Andrew começa a falar, deixando explícito que não quer palestrar como se de um monólogo se tratasse. Espera antes que as duas horas seguintes sejam uma “conversa”. Aliás, o próprio nome do evento – American Humor Culture – a conversation with Andrew Tarvin – denuncia esta vontade do orador.

O logotipo da página de Andrew.

O logotipo da página de Andrew.

Nem um minuto passou desde que Tarvin começou a falar e o auditório já ri. Acabou de contar que não fala português nem se aventura além do inglês porque não é muito bom a aprender outras línguas, como o provam experiências anteriores. Teve cerca de cinco anos de espanhol e não se lembra de nada – excepto frases aleatórias como “tengo un gato en mis pantalones”. Para além disso, foi a França e tentou falar francês. A piada? É que lhe responderam em inglês, tal era a qualidade do seu sotaque gaulês.

Em seguida, Andrew pede aos presentes que se levantem. É o momento de conhecer um pouco as pessoas que o ouvem. Faz algumas perguntas e, conforme a resposta, as pessoas devem-se ir sentando. “Quem vive em Portugal há, pelo menos, 5 anos?” – sentam-se os poucos que habitam no país há menos tempo. A pergunta repete-se três vezes, variando apenas o número de anos. Dez anos, vinte anos, e as pessoas vão-se sentando. Quando chega aos trinta anos, não mais de dez pessoas permanecem levantadas. A sala inteira começa a rir, incluindo os que não se sentaram. Sobretudo esses, arrisco dizer.

Segue-se a altura de ele mesmo se apresentar, avançando para o slideAbout me” do powerpoint que acompanha a palestra. Em primeiro lugar, Andrew descreve-se como um autêntico nerd. É também engenheiro, profissão que o cativou desde pequeno. Em criança, gostava de estragar coisas para depois as arranjar – funcionou sempre, menos com o casamento dos pais, que se divorciaram, conta.

Após algumas curiosidades, Tarvin começa a palestra propriamente dita. Fala acerca da diferença entre ser “eficiente” ou “efectivo” – é possível ser-se eficiente com computadores mas não com pessoas, uma vez que estas têm emoções. Desta distinção surgiu o conceito de “Effective working”, que gosta de usar.

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Um tweet explicativo da diferença entre humanos e computadores.

Andrew define o humor como algo mais do que comédia e considera-o uma habilidade, ou seja, qualquer um pode aprender a “fazer humor” –  “O humor pode aprender-se. Nós não somos os atributos da nossa personalidade, nós somos as nossas ações. Se agimos como comediantes, tornamo-nos comediantes”, afirma.

Para explicar o que isto significa, coloca um desafio – a audiência deve posicionar um polegar para cima numa mão e um dedo indicador a apontar para a frente na outra. Resta ir alternando a posição dos dedos nas duas mãos.

A explicação é simples – há quatro “estágios de competência” em qualquer habilidade nova que queiramos aprender. Em primeiro lugar, temos uma incompetência inconsciente, seguindo-se uma incompetência consciente, uma competência consciente e uma competência inconsciente. Este último estado é exemplificado por Tarvin através da enorme facilidade com que executa o desafio, enquanto os ouvintes travam lutas caricatas com os próprios dedos. A ideia é que, tal como esta habilidade – que afirma demorar apenas cerca de cinco minutos a ser aprendida – também o humor se aprende. Basta começar.

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Os quatro estágios da competência – via Twitter.

O humorista, para quem o stand up comedy é mais difícil do que o improviso, avança com mais uns quantos jogos, curiosidades e factos estatísticos acerca do humor – por exemplo, um estudo mostrou que “quanto mais as pessoas usam o humor, maior é o valor do seu ordenado”. Fala ainda dos diferentes estilos humorísticos, explica como é que o humor funciona e quais os seus benefícios.

A palestra desenvolve-se de forma leve e informal, com gargalhadas de cinco em cinco minutos. O final do evento fica marcado por algumas questões do público, às quais o orador responde de modo convincente. Tarvin, que assume que “o humor nunca é garantido”, sabe fazê-lo de uma forma genial e transforma duas horas de palestra num momento de verdadeiro prazer, no qual a interação com o público é uma constante que não cansa, mas vicia.

Escolher uma única frase para explicar o porquê de o humor funcionar parece não ser fácil para Andrew – “Essa é uma pergunta difícil”, responde. “Desafiante… gosto disso! Bem, a versão curta da resposta seria que o humor funciona porque somos humanos. A versão mais longa seria que funciona porque a vida é difícil e o humor lembra-nos que podemos divertir-nos mesmo nas situações menos boas”.

Já fora da sala, na qual decorre agora uma aula, o humorista responde a mais algumas das nossas perguntas, entre as quais “Que conselho daria a todos os estudantes que estão a acabar uma licenciatura e ainda não sabem ao certo o que querem fazer no futuro?”. Andrew sorri e diz: “Eu diria que não tens de saber. A ideia de que todos devem saber desde sempre aquilo que querem é errada. Experimenta. Experimenta um monte de coisas até encontrares aquilo que te apaixona.”

Visita o website e o blog de Andrew Tarvin aqui e aqui.

Nota: as citações incluídas no texto foram traduzidas do inglês de forma livre pela autora.