Durante semanas foram visto cartazes espalhados por toda a cidade. Os Mal Sentidos foram vistos um pouco por todos e isso criou uma expectativa que saiu falhada. Quarta-feira foi o dia da sua estreia no Festival Cumplicidades e a plateia do Negócio da ZDB esgotou para ver o trabalho de Andresa Soares, Matthieu Ehrlacher e Gonçalo Alegria.

Os Mal Sentidos prometia trabalhar “sobre vários níveis de tradução e de deslocação de sentidos da realidade para complexificar a leitura da actualidade numa tragicomédia do Presente”, dizia a folha de sala. E efetivamente assistimos a uma comédia muito trágica, que rompeu os limites da dança e onde as noções de coreografia, de movimento, de técnica simplesmente foram ignoradas. Confuso, descoordenado e incoerente. Assim vejo este espetáculo onde a dança foi deixada de lado e se assistiu a uma performance que se assume como uma ação política e uma crítica à sociedade moderna.

Fotografia: Joana Linda

Fotografia: Joana Linda

Um desconfortável e interminável silêncio

Um casal em constante divergência,  Andresa Soares e Matthieu Ehrlacher, entra em cena numa total escuridão. Ouvem-se os passos, a luz acende-se e sentam-se fitam o público. E ali ficam, parados, a olhar durante 20 minutos. Na típica tentativa de inverter posições e usando a comum confusão entre observador e observado, os intérpretes ficaram sentados nas cadeiras demasiado tempo.

Nesta longa espera e incomoda posição, público e intérpretes perderam posição na cadeira e o desconforto era nítido. Neste momento maçador e inconveniente, foi surgindo um crescente medo de que todo o espetáculo fosse assim. O nervosismo aumenta e a vontade de abandonar a sala começa a tornar-se notória por parte da plateia. São 20 minutos em que a plateia é olhada como se de um filme se tratasse com um foco apontado à sua cara. Todo o espetáculo parece, aliás, um filme mudo, onde a expressão corporal forçada existe e o movimento é esquecido.

Um guião desconexo sobre um mundo confuso

O mito resulta de uma construção colectiva de várias narrativas. O mito é algo que se torna comum a todos, que é partilhado e aceite pelo senso comum. Na contemporaneidade é aos media que atribuímos o papel de construção de ideais factuais. É sobre esses factos que orientam a vida, sobre as relações que desdobram o real (e que traduzem a comunicação)  e que são interpretados que espetáculo trabalha.

A temática  do espetáculo é atual. Quando finalmente se põem em pé e é tomada uma iniciativa, frases soltas são projectadas na tela preta. O texto dramático explora as mais variadas temáticas que vemos passar diariamente nos jornais: violência doméstica, crise, corrupção, migração, desigualdade de géneros, recessão, …

O texto foi criado a partir de frases soltas retiradas do jornal Público. Aqui, fora do seu contexto, exploradas com um outro sentido que não o original, estas frases dão origem a um guião confuso e irregular. Cria-se uma discussão entre um casal que vive preso no seu universo. Passamos por uma longa vida deste casal ao longo do espetáculo. Longos períodos de tempo são assumidos como acordos políticos e sociais para se estabelecer a paz e consenso. O texto é desconexo, mas as inspirações do mundo real são óbvias.

A moda de projetar texto está cada vez mais implementada na dança contemporânea, tanto em Portugal como a nível internacional. Tanto se faz um interpretação palavra a palavra de texto, como se parte de uma abstração e daquilo que o texto transmite, ou apenas há uma ação a acontecer em palco que nos dizem derivar do guião.

Temo que este misto que não é dança nem é teatro se torne na vanguarda e venha para ficar. Temo que a dança deixe de ser dança e cada vez se opte pela performance ou pelo acting. A noção de movimento é cada vez mais absorvida pela intenção de agir e o conceito assume o papel principal numa história que deve ser contada através do corpo.

A aposta na comédia e na ridicularização da dança usa-se cada vez mais. Infelizmente. Começa a ser recorrente brincar com uma arte que por si só já é mãe de controvérsias e muitas vezes leva ao descrédito de algo muito maior.

Fotografia: Joana Linda

Foto: Joana Linda

A ironia e os clichés

Há momentos engraçados onde até se consegue soltar um riso, há outros onde a boca abre e ninguém percebe a intenção daquele momento. Para piorar voltamos ao século XX e os clichés de fumar e comer em palco voltam a ser usados como se algo inovador se tratasse. Esquecemo-nos que mais de 20 anos passaram desde que esses momentos foram levados a palco e tornaram numa moda. Agora é apenas um reutilizar de algo já feito.

Nos últimos momentos de Os Mal Sentidos, os intérpretes saltaram sem parar, num movimento muito similar ao do vira ou do malhão. Aos poucos começaram a tirar a roupa. Foram-se despindo das várias camadas de humanidade e de socialização. No entretanto comeram uma maçã, fumaram um cigarro, atiraram talões de compras ao ar, partiu-se uma cadeira, gritaram, saltaram, caíram ao chão e pararam. As frases continuaram a passar, às vezes tão rápido que era impossível ler. Agora já nem texto, nem performance era compreensível.

Foto: Joana Linda

Em calções amarelos e camisola branca, os dois intérpretes envolvem-se numa luta. Numa luta pelo poder onde um deles terá de ser anunciado vencedor. Há uma procura pela libertação, mas a competitividade é algo intrínseco ao homem. Indivíduo e sociedade são partes integrantes da mesma dicotomia. Dicotomias essas que são atuais e reais, dicotomia nas quais nos movemos diariamente e que aqui foram exploradas. Há uma luta de forças, um contrapor de vontades, um querer ganhar.

De repente dois homens invadem a cena numa violenta luta de boxe. Os intérpretes saem e ficam em cena os atletas Caê Campos e Cheyenne Nunes (Ninja). Agora sim, assistimos a verdadeiro combate onde se procura encontrar o melhor guerreiro, aquele cuja força se sobrepõe a tudo.

O espetáculo acaba. Fica a frustração. Num festival que se diz de dança contemporânea, vemos a performance a chegar-se à frente e assumir o papel da dança. Coreografia, movimento e técnica são cada vez mais acessórios, vistos como superficiais e dispensáveis. Da dança ficamos apenas com a expressão corporal e a noção de espaço e tempo.

Talvez tenha sido ensinada a valorizar algo muito mais físico que o conceito, talvez os meus ideais de dança sejam retrógrados e se foquem em algo que atualmente está em desuso. Dizem que há espaço para tudo, e assim espero que seja. Os limites entre a dança e a performance confundem-se cada vez mais. Talvez sejam as tais vanguardas e, como sempre, haverá sempre quem as ame e quem as odeie.