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Foto: João Catarino

‘We will use smoke machines’: Somos todos máquinas? Talvez sim, talvez não

Na segunda e última noite da apresentação de We will use smoke machines no Cumplicidades 2016, o espetáculo esgotou. Apresentado no Negócio ZDB, a performance colocou uma questão que já não é nova: Será que somos máquinas? O experimentalismo de uma atuação com teatro, dança, música, luminotecnia, vídeo e fotografia explorou a pergunta. Será que tivemos resposta?

Em noite de domingo, bem longe do televisor, pouco menos de uma centena de pessoas deslocou-se até à Rua de O Século para ver o espetáculo de Maurícia NevesWe will use smoke machines. Formada na Escola Superior de Dança, a criadora participa pelo segundo ano no festival, sendo que na edição anterior apresentou This is not A love story. This is A and B.

Pouco antes do espetáculo começar e a porta do Negócio ZDB abrir, alguns espetadores souberam que não iriam ver a performance que prometia uma crítica ao capitalismo através de várias vertentes artísticas. Quem teve lugar entrou ao som de uma música instrumental e passou por um cenário onde o destaque era dado a um tubo prateado que fumegava.

Onde há fumo, há Manifesto!

O ambiente estava criado para que Edgar Valente, o músico em cena, começasse a cantar uma música onde, entre muitas referências atuais, aludia a um governo corrupto. Ao aproximar-se do tubo metálico com fumo está, de uma forma entorpecida, a fotógrafa Catherina Cardoso, que cai, não resiste. Momentos depois flashes encandeiam os espetadores. Estão claramente a meter a plateia em palco. É feito o anúncio através de uma projeção comandada por João Catarino: estamos a assistir a um Manifesto.

Edgar Valente surge no centro da cena acompanhado por Maurícia Neves, estamos perante a voz da história e o corpo, respetivamente. O primeiro lança as evidências e a banalidade com que os problemas do mundo contemporâneo são tratados: “O Governo é corrupto, mas ok, que se lixe!” Em movimentos maquinais caminha entre o medo e a acumulação do mundo sujo e que a própria irá sujar. Há duas ações que destacam na atuação de Maurícia Neves, que denunciam o seu mal-estar.

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Com a voz e o gesto, a peça questiona a atualidade. Foto: João Catarino

Entre o nada e o tudo dos objetos

Maurícia Neves começa numa agitação acompanhada por uma frase: “Estou cheia de nada!” Surge o desejo por algo. A intérprete arranja uma pêra e devora-a, como se fosse a sua vida e ela estivesse a acabar. Mas afinal, a pêra não interessa, como se o que interessasse fosse apenas aquela ação e a sua posse. Deita-a fora. O chão está imundo, cheio de pêra. Maurícia apanha-a e surge neste momento mais um convite para o público acordar de qualquer monotonia em que possa estar. Maurícia provoca o público ameaçando lançar para cima dele a pêra devorada e cuspida. Pressente-se o nojo e o medo de se ser afetado! Estamos praticamente em cena.

Para além do corpo, da voz, do vídeo e da fotografia entram objetos em palco. ‘Vapone’, a máquina que “quando sorrimos nos faz feliz”, como se diz em cena, é o exemplo da publicidade diária a que somos sujeitos. Como segundo objeto focado vimos os camarões, do físico ao vídeo, fixamos a lógica de mercado a que estes “bichinhos” estão sujeitos. Todos sabemos, mas ali vimos!

Quase no fim e como acumulação de todas as imagens apresentadas o manifesto foi transportado para francês, Catherina Cardoso gritou para o público sobre mundo atual. Os restantes já calmos, acalmaram a intérprete e os quatro terminaram a olhar para o público a fumar, como nada se tivesse passado e como se fossem máquinas, prontas a começar um novo dia. Ou afinal, foram eles que comandaram o espetáculo todo e tomaram a decisão de o terminar?

Uma eterna questão ainda sem resposta

We will use smoke machines é uma performance que lança o desafio ao próprio espetador. Ao provocar o mundo atual e ao comunicar com o público pergunta-lhe o que está ali a fazer sentado. Somos nós que comandamos as máquinas como os intérpretes estão em palco fazem? Ou seremos comandados por elas e pelos sistemas que estão por detrás delas? A questão permanece nesta peça, que a própria criadora, Maurícia Neves, referiu como um “eterno questionamento”.

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Quem são as máquinas no espetáculo? Foto: João Catarino

A imprevisibilidade em cada sessão

Em conversa final com o público e orientada pelo programador Ezequiel Santos, Maurícia Neves referiu que “a peça está sempre em processo”. Juntamente com os restantes intérpretes e ainda sob o efeito da performance, a criadora destacou “o jogo de cintura perante o grupo”. Sendo cada apresentação diferente, o grupo brincou com a sujidade que um espetáculo pode ter: o ruído, os imprevistos, o facto de apenas Maurícia Neves e Edgar Valente terem experiência de palco e o que cada um pode acrescentar de novo a cada sessão. Os quatro, juntamente com Francisco Leston, responsável pelo desenho de luz, estiveram em confronto e das duas apresentações não sabiam o que iria acontecer. Apesar de ter um seguimento, não se sujeitaram aos códigos que um espetáculo pode sustentar.

Ainda no âmbito deste espetáculo e do Cumplicidades é possível ver a exposição How we built a smoke machine, na Casa da Imprensa, a partir das 17h.

 

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