Foto: Zeta Duarte

Em entrevista: a história de ‘Mê Menine, e a Tu Mãe?’, uma peça sobre Olhão

Mê Menine, e o Tê Pai? surgiu em setembro de 2008 como uma peça de comédia baseada na cultura de Olhão e das terras piscatórias do Algarve.  Através de dois pescadores, Zé e Janica, que conversam enquanto remendam as suas redes, contam-se as histórias populares e satirizam-se os problemas da zona, com um humor simples e despreocupado.

A peça esteve em cena seis anos, até que em 2015, João Evaristo e Joaquim Parra, da companhia de teatro A Gorda, autores e atores da obra, decidiram extingui-la e criar a sua sequela, Mê Menine, e a Tu Mãe?. Nesta, após Janica inventar histórias sobre Zé no decorrer da primeira peça, os amigos discutem à mesa de uma taberna e dão azo a novos enredos, sempre com a inteligência e o humor que os caracterizam.

A peça está agora em digressão pelo Algarve, tendo começado com duas apresentações em Santo Estêvão, com sala cheia. O Espalha-Factos esteve à conversa com os autores e atores da peça, que nos falaram do seu percurso, de planos para o futuro, e do panorama de teatro do Algarve.

Espalha-Factos (EF): Como surgiu a peça Mê Menine, e o Tê Pai?

João Evaristo (JE): A peça nasceu de um convite da Universidade do Algarve para apresentarmos um trabalho no âmbito das comemorações do Dia do Pescador, que estivesse ligada ao mar e à pesca, em 2008. Nós, como já tínhamos trabalhado há dois anos essa temática, a nível das histórias de Olhão e ligadas à pesca e aos hábitos e costumes, aceitámos o desafio e apresentámos um pequeno trabalho que partiu da base de dois pescadores que estavam a remendar as redes e iam contando histórias um ao outro.

Entretanto foi apresentado, e nós achámos que tínhamos ali uma base para construir uma peça. Acrescentámos mais umas histórias e montámos um trabalho de cerca de uma hora, uma hora e dez.

Só que entretanto a peça teve muita adesão, esteve em cena durante seis anos, mas durante seis anos a apresentar com muita regularidade, a fazer-se de forma intensa. E como a peça tocava muito nas pessoas elas iam-nos contando histórias, e nós íamos acrescentando esse material ao texto da peça. Até que chegou uma certa altura em que ficámos com duas horas de material.

Portanto achámos que estava na altura de fazer uma sequela. Além do mais ainda tínhamos material guardado que nunca tinha sido utilizado, e que dava para fazer uma nova sequela. E assim passámos para a história do Mê Menine, e a Tu Mãe?.

(Foto por Catarina Calças)
Joaquim Parra e João Evaristo, respetivamente. Foto: Catarina Calças

EF: Qual a origem dos títulos das peças?

JE: Na verdade, o título original do Mê Menine, e o Tê Pai? era Mê Menine, e o Tê Pai? E Outras Histórias, porque a peça era uma colectânea de várias histórias, e numa delas a frase “Mê menine, e o Tê Pai?” revela uma piada. Então decidimos que devia ser o título e outras histórias para fazer alusão às outras.

Entretanto para manter a ligação entre as peças, podíamos tê-la intitulado Mê Menine, e o Tê Pai? 2, mas não fazia sentido, porque já não íamos contar essa história na sequela. Mas tínhamos uma história onde poderia entrar a pergunta “Mê menine, e a Tu Mãe?”, e então assim ficou.

EF: A primeira peça ficou conhecida por ter introduzido muitas piadas relativas a Olhão e ao povo olhanense. Quando entraram em digressão, surgiu a necessidade de as alterar para se adaptar ao novo público?

JP (Joaquim Parra): Por acaso é uma coisa que eu pessoalmente achei interessante. Em Ferragudo, na primeira vez que lá fomos, no final algumas pessoas vieram ter connosco e disseram que já conheciam algumas piadas porque lá também se contavam algumas daquelas histórias. Em Lagos aconteceu-nos a mesma coisa, conheciam uma ou duas.

O que nos faz pensar: algumas destas histórias já de si pertencem a um Olhão da década de 30 e 40, referimos inclusivamente até a época das Invasões Francesas. Olhão era um centro piscatório, os pescadores circulavam por toda a costa algarvia, portanto provavelmente era assim que estas histórias eram divulgadas, de boca em boca, e toda a gente as conhece um pouco por todo o Algarve.

(Foto por Catarina Calças)
João Evaristo. Foto: Catarina Calças

“Já nos têm dito que a peça é muito localizada, que se saíssemos de Olhão não tínhamos sucesso. O que se sabe é que corremos o Algarve todo, inclusivamente atuámos em alguns sítios com malta vinda de Lisboa, e que entenderam a peça” – João Evaristo

EF: Uma das particularidades destas duas peças é, realmente, a adesão do público, e o reconhecimento que tem ganho um pouco por todo o Algarve.

JE: Ainda há pouco fomos a Santo Estêvão com o Mê Menine, e a Tu Mãe?, que foi até dos primeiros sítios onde fomos com a primeira peça, e tivemos de fazer duas sessões, quando fomos lá para fazer uma.

JP: Houve uma animação de verão que também fizemos no bar O Rolha, na baixa de Olhão. Combinámos chegar lá, casualmente, em personagem, e começarmos a conversar. Entretanto atuámos, aquilo cheio de gente, porque era verão e tudo, acabámos e fomo-nos embora. Só que às tantas olhamos para trás e as pessoas tinham vindo atrás de nós. Não sabíamos o que fazer, acelerámos o passo, e as pessoas aceleraram também. Ás tantas acabámos por ter de fugir delas.

“Chegámos a fazer treze vezes seguidas a peça. Temos pessoas que nos vão ver uma e outra vez, mas como até improvisamos e acrescentamos sempre alguma coisa nova, as pessoas gostam de voltar a ver” – João Evaristo

EF: As personagens, Zé e Janica, a certa altura “migraram” para o vídeo, e participaram em pequenos sketches da OlhãoTV. Como se fez essa transição?

JE: No J – Jornal da Juventude, Artes e Ideias de Olhão nasceu o Moce Mó, umas tiras de banda desenhada com pequeninos episódios, pequenas histórias de Olhão ilustradas. E depois surgiu a hipótese de nós passarmos essas BDs para a OlhãoTV. Então juntámos as duas personagens, e utilizámo-las para promover as tiras. As personagens são as mesmas, mas as histórias são completamente diferentes das da peça.

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EF: E para o futuro desta peça, o que têm planeado?

JE: O futuro desta peça provavelmente é fazer este ano de digressão, e acabar. Temos outros projetos, gostávamos de trabalhar e avançar com outras coisas.

JP: Já tentámos acabar com o Mê Menine não sei quantas vezes, mas as pessoas gostam e nós íamos fazendo. Mas já lá vão oito anos.

EF: Para finalizar, qual é a vossa opinião sobre o panorama artístico e cultural do Algarve, mais a nível do teatro?

JE: As perspetivas são boas. Recentemente foi criada a AZUL – Rede de Teatros do Algarve, uma rede artística que promove a circulação das peças e obras teatrais pelas salas do Algarve. É uma aposta na itinerância dos agentes culturais do Algarve pelos vários espaços, pelo que o panorama é positivo.

Apresentação de "Mê Menine, e o Tê Pai?" em Ferragudo (Foto por Zeta Duarte)
Apresentação de Mê Menine, e o Tê Pai? em Ferragudo. Foto: Zeta Duarte

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