Gelo é um filme de ficção científica coproduzido por Portugal e Espanha. Ora, só de se dizer isto, a imagem com que ficamos na cabeça não é a melhor. Apesar dos países ibéricos serem conhecidos pela boa qualidade do seu cinema e de, nalgumas ocasiões, terem unido esforços em torno de bons filmes, só o facto de se terem agora arriscado pelo universo da ficção científica, género dominado pelo cinema americano e para o qual não aparentamos ter fundos ou sequer experiência suficiente, parece antever uma longa-metragem de baixa qualidade.

Contudo, a obra de Luís e Gonçalo Galvão Teles, pai e filho, pode orgulhar-se de ter feito de tudo para se destacar no cinema ibérico. A dupla imaginou uma história minimamente original, com uma narrativa não linear e até desafiante para o espectador, no que toca a adivinhar como é que as duas narrativas se vão ligar uma à outra. Ora veja-se: conhecemos, em primeiro lugar, Joana, uma estudante espanhola que vem para Lisboa estudar cinema e que rapidamente se apaixona por Miguel, um colega mais velho obcecado por gelo. Paralelamente, vemos uma jovem rapariga chamada Catarina, que vive enclausurada num palácio isolado, sob tutela de Samuel, a crescer e a tentar fugir desta sua “prisão”.

A relação que as duas raparigas mantêm é, infelizmente, dada a conhecer demasiado cedo no filme, de forma nada discreta pelos argumentistas. Não que não fosse já bastante evidente o que são as duas uma para a outra, mas a “confirmação oficial” surge tão precocemente que mata quaisquer dúvidas que tivéssemos e que nos poderiam deixar ainda com incertezas face à narrativa. E é aqui que encontramos um dos grandes defeitos de Gelo: não nos é dado assim tanto tempo para interiorizarmos a história de modo a que sejamos, mais tarde no filme, surpreendidos por eventuais plot twists e novas revelações. O argumento, que quase pretensiosamente cita Billy Wilder e cai, a dado momento, no auto-elogio, faz referência à forma como os filmes podem deixar o público ter a sua própria versão da narrativa e surpreende-los até ao último segundo de fita, mas à medida que Gelo se desenrola acontece exatamente o contrário: o foreshadowing utilizado está longe de ser subtil e acaba por, em vez de dar meras pistas, contar-nos tudo o que precisamos de saber.

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Sem mais nem menos, Gelo perde o seu mistério e efeito surpresa. O poder de aliciação do filme fica então entregue às personagens e à própria ficção científica em si, que, como é óbvio, nos aguça a curiosidade (com altas ou baixas expetativas, ver cenários futuristas assinados por Portugal e Espanha deverá ser do interesse do público ibérico). E o que encontramos nesses aspetos? Mais desilusões.

Joana e Miguel, com quem temos de passar a grande maioria do tempo, são um casal típico de telenovela portuguesa com linhas de diálogo do mais cliché que há. Os adolescentes que os rodeiam são uma versão muitíssimo limpa e soft desta faixa etária nacional, comportando-se até mais como adultos do que como jovens. Catarina e Samuel acabam por ser personagens muito mais genuínas e credíveis, mas, infelizmente, são relegados para um segundo plano em detrimento da história de Joana. O elenco (com a espanhola Ivana Baqueiro, a Ofélia de Labirinto de Fauno, e o português Afonso Pimental à cabeça) escolhido para encarnar esta meia dúzia de personagens demonstrou até boas qualidades de interpretação, mas sente-se completamente desaproveitando perante os fracos protagonistas de Gelo.

É nos cenários futuristas, que se adivinhavam à partida o ponto naturalmente mais fraco do filme, onde acabamos por ter as confirmações de que, de facto, ainda estamos a anos-luz das produções dos grandes estúdios do género da ficção científica. Os efeitos especiais menos convincentes que aqueles usados em videojogos cortam a criatividade dos Galvão Teles, que à primeira vista até dão a impressão de ter boas ideias visuais. Contudo, não dá para levar a sério o embaraçoso CGI e green screen presente em algumas cenas e perde-se aquilo que poderia, com os meios técnicos adequados, ser um dos pontos mais fortes do filme.

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Ficamos com o sentimento final de que Gelo tinha condições para se vir a tornar num título único que se afirmasse como um marco da produção ibérica. Luís e Gonçalo Galvão Teles apresentam excelentes ideias e é de saudar a sua iniciativa corajosa de se aventurarem com este projeto no seu país. Não obstante, tal como não podemos negar que os dois estão cheios de boas intenções e de que muita da sua visão fica logo condicionada por um baixo orçamento e falta de tradição no género, também somos obrigados a admitir que muitos erros cometidos são exclusivamente da sua responsabilidade (nomeadamente o argumento). E é pena que assim seja…

4/10

Ficha Técnica
Título: Gelo
Realizador: Luís e Gonçalo Galvão Teles
Argumento: Luís e Gonçalo Galvão Teles e Luís Diogo
Elenco: Ivana Banquero, Afonso Pimentel, Albano Jerónimo, Ivo Canelas, Ruth Gabriel
Género: Ficção Científica, Fantasia, Drama
Duração: 105 minutos