Fotografia: Marco Carvalho

‘Claraboia’: o que acontece quando o Nobel sobe ao palco

Já mais de quatro milhares de pessoas espreitaram por esta Claraboia. O Prémio Nobel Português veio para palco e a nós parece-nos estar em casa. As visitas que chegam, de quinta a domingo, tornam-se mais uns hóspedes bisbilhoteiros desta edificação, onde a companhia A Barraca é a senhoria.

As lotações esgotadas sucedem-se e o orgulho espelha-se no rosto daqueles que pronunciam Saramago em palco. A companhia está prestes a assinalar o seu 40.º aniversário e o sucesso de Claraboia é o presente em que A Barraca tanto investiu.

“Está a ser muito gratificante”, revela Maria do Céu Guerra. A encenadora e atriz da peça é também a responsável pelo romance póstumo de José Saramago, lançado em 2011, ser agora o espetáculo em cena no Teatro Cinearte, no Largo de Santos.

Claraboia é um texto com história. Foi essa história que despoletou um impulso em Maria do Céu Guerra. “Uma coisa que me faz muita confusão é a injustiça, e o destino deste livro fez-me muita impressão”. Quando, em 1953, José Saramago envia o manuscrito de Claraboia para um editor de Lisboa, é ignorado. Rejeitado, Saramago não voltaria a escrever ficção durante mais de duas décadas. Só em 1989, quando é já um reconhecido autor publicado, Saramago é contactado pelo editor que agora quer publicar o romance. O autor recusa.

“Uma coisa que me faz muita confusão é a injustiça, e o destino deste livro fez-me muita impressão” – Maria do Céu Guerra

“Foi um livro maltratado”, explica Maria do Céu Guerra, “quando o li, pensei que é extraordinário como se consegue silenciar uma voz”. A atriz equaciona o que teria acontecido se aquele homem rejeitado “tivesse, por acaso, morrido antes: Portugal não tinha um Prémio Nobel da Literatura e nós perdíamos a grandeza da sua obra”.

Maria do Céu Guerra começou por entusiasmar-se com a arquitetura do romance e o grau de profundidade de todas aquelas personagens, tão diferentes entre si. Num prédio de três andares, sob uma grande claraboia, vivem seis famílias distintas, cada uma com uma história que vale só por si: “cada casa podia ser uma peça”, nota. Com o apoio de Pilar del Río (que tem estado presente nos ciclos de conversas de Claraboia, que já contaram com nomes como Lídia Jorge, Miguel Gonçalves Mendes ou José Luís Peixoto) e da Fundação José Saramago, o projeto conseguiu seguir em frente.

João Paulo Guerra, jornalista de profissão, nunca tinha adaptado nenhum texto para teatro. Já tinha feito locução para espetáculos anteriores d’A Barraca e confessa que a irmã, Maria do Céu, está constantemente a tentar convencê-lo a representar. Mas, desta vez, quando lhe ofereceu o livro, lançando-lhe o convite para o trabalhar, João Paulo aceitou o desafio. “O que o Saramago já tinha feito é uma grande ajuda”, confessa, “ele não tem muito diálogo, mas tem muito texto que fornece diálogo”.

O maior problema foi o fator tempo: fazer acontecer, em menos de três horas, um romance de 500 páginas não é fácil. Demorou cerca de três meses a fazer a adaptação, mas o texto foi ainda sofrendo alterações até à estreia, especialmente depois de tomar contacto com o extraordinário cenário de José Manuel Costa Reis, que monta em palco um edifício de três andares, permitindo às seis famílias estar, simultaneamente, em cena. Sem dúvida, o pilar de todo o espetáculo.

Numa primeira fase, tudo se resume ao papel. Depois, nos ensaios de leitura “ganha voz” e, nos ensaios em cena, “ganha corpo e movimento”. “A minha curiosidade era ver as caras do texto, quem era que dizia aquilo”, revela João Paulo Guerra.

Para Maria do Céu Guerra, era importante que a adaptação fosse fiel aos temas e às personagens de Saramago. “As famílias são estas, as frases são estas”, explica. E aqui há temas complexos, temas que pedem uma abordagem explícita, como a violação no casamento (“violação que a mulher rejeita moralmente como conceito, mas não rejeita no plano físico”) ou a dignidade de uma “rapariga de vida fácil” que não se ajoelha “aos pés do homem que lhe paga a subsistência”, nas palavras da encenadora. “José Saramago privilegia, na sua obra, a força e o caráter das mulheres, a capacidade que têm de amar e de levar a sua vida com dignidade mesmo quando é difícil”.

O conflito entre individualismo e coletivismo é central em Claraboia e em muito do pensamento de José Saramago. Maria do Céu Guerra fala-nos do direito “a levar a vida apenas como um absoluto egoísta, sem deixar que nada à sua volta o prenda”, um padrão que associa a Fernando Pessoa, e, no pólo contrário, a figura de um homem que assume compromissos de solidariedade, de coletivismo, de amor. “Nunca se fala de política”, como afirma Maria do Céu Guerra, nesta peça, mas ela está em todos os cantos.

O Salazarismo dos anos 50, “a década em que se pôde ver o regime em toda a sua consecução”, é o plano de fundo de toda a ação. “O que se pretendia quando se instalou o Estado Novo”, expõe Maria do Céu Guerra, “era isto: ter as pessoas remediadas, com um grande peso no peito, com um grande silêncio dentro de si”. Claraboia revela-se, de acordo com a encenadora, uma lição de História.

“São o pensamento político e a arte que nos podem salvar” – Maria do Céu Guerra

“Saramago dá-nos tão bem o Portugal deste tempo: um retrato de pessoas super vigiadas”, Maria do Céu relata, “vigiadas por si próprias, vigiadas pelas outras, vigiadas por uma claraboia imaginária de onde tanto pode entrar a luz, como entrar a noite, como pode ser um olho que nos espia a todo e qualquer momento, como ser o olho do escritor, como pode ser o ponto de fuga de uma coisa claustrofóbica!”.

A ideia da Claraboia enquanto ponto de fuga assemelha-se àquilo que ali está a acontecer, no palco do Teatro Cinearte, e em qualquer lugar onde o livro de Saramago é aberto. “É muito engraçado”, afirma Maria do Céu, “porque, realmente, são o pensamento político e a arte que nos podem salvar”. A Barraca nunca teve medo de misturar um e outro. Assim como Saramago.

Uma dívida que nunca vai poder ser paga.“Estamos todos a dever isto ao José Saramago”, Maria do Céu Guerra conclui, “mas já lhe devemos tanto…! Ficamos a dever-lhe mais uma coisa”.