26 de fevereiro de 2016 é a data que marca um importante ponto de viragem para os The 1975 e a sua extensa base de fãs, que coincide com o lançamento do álbum com o nome mais longo que, provavelmente, a Humanidade já viu: I Like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It.

Quem segue a banda e o seu vocalista, Matt Healy, no Twitter, deve lembrar-se do mítico episódio em que os The 1975 quase provocaram um ataque cardíaco aos fãs e deram a entender que uma separação (ou pelo menos uma pausa) estava para vir – “The hardest part of any relationship is to say goodbye (…) Change is na inevitable part of life”foi a passagem mais crítica do discurso – mas que, na verdade, foi um anúncio para a mudança de ares que estava para vir.

Digo que este álbum representa um ponto de viragem e passo a justificar: The 1975 nunca foi uma banda que se assumisse como sendo exclusivamente pop e se viajarmos até ao seu primeiro trabalho, com o mesmo nome, somos obrigados a notar uma pontada de alternativo e indie (em faixas como Robbers ou Sex) e essa mistura de estilos continua a ser uma das características mais fortes da banda; neste caso, estamos perante um álbum que cresce, na medida em que não tem medo se assumir: é maioritariamente pop.

Começamos a viagem pelo novo mundo cor de rosa dos The 1975 com Love Me, uma canção, no mínimo, estranha. Há que confessar que, ao ouvir esta faixa, tememos um pouco pelo resto do álbum: não percebemos bem o que está a acontecer, a sonoridade é completamente diferente e, até agora, não no bom sentido; dá-nos alguma vontade de passar a música à frente – de desistir das restantes faixas, atrevo-me a dizer – mas resistimos ao impulso e mantemos a esperança de que algo bom está para ouvir.
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À medida que vamos avançando no disco ficamos contentes por não termos desistido de o ouvir. UGH! e A Change Of Heart são como lufadas de ar fresco, sendo que esta última é, talvez, a break up song mais bonita e leve que já ouvi na vida. Além disso, traduz na perfeição aquilo que achamos que vai acontecer, depois de uma separação (Finding a girl who is equally pretty won’t be hard), e aquilo que realmente acontece (I never found love in the city /I just sat in self-pity and cried in the car).  She’s American é o pico de energia pop deste álbum, a canção em que tudo o que a compõem nos cativa (principalmente o refrão, que é dos que fica entranhado na memória durante dias). A letra diz Don’t fall in love with the moment, mas não consigo cumprir a ordem; se é este o pop que os The 1975 tanto queriam abraçar, sou totalmente a favor.

If I Believe You, Please Be Naked (prémio de título mais sugestivo para uma canção instrumental alguma vez feito) e Lostmyhead são faixas menos ritmadas e mais introspectivas. Têm um gosto mais alternativo, à boa moda antiga da banda (antes de todo o cor de rosa surgir) e são uma boa pausa no algodão doce que este álbum parece ser, por serem tão alusivas à realidade vivida pelo vocalista, Matt Healy. The Ballad Of Me And My Brain retrata a procura pela sua estabilidade mental – metaforicamente designada por cérebro, na letra -, perdida na faixa anterior.

So I heard you found somebody else /And at first I thought it was a lie. Assim começa Somebody Else, a canção para a qual o adjectivo mais adequado que me ocorre é relatable. Fala-nos da fase de negação que todos nós enfrentamos quando alguém que costumava ser nosso, passa subitamente a ser de outra pessoa (e neste caso falando de possessividade no sentido poético e romântico da questão). I don’t want your body /But I hate to think about you with somebody else / Our love has gone cold/ You’re intertwining your soul with somebody else.

Loving Someone, por outro lado, é uma faixa cuja sonoridade não cativa muito, mas que é contrabalançada com o peso da letra: nela está contida uma crítica social aos media e cultura pop, pela maneira como induzem a juventude a certos comportamentos; uma excelente intenção, se pensarmos que grande parte da base de fãs dos The 1975 é composta por essa mesma juventude.

A canção que dá nome ao álbum – I Like It When You Sleep, For You Are So Beautiful Yet So Unaware Of It – é o instrumental que nos deixa respirar do ritmo das faixas anteriores, o interval antes de retomarmos a onda pop, com The Sound, faixa em que o refrão se repete demasiado e acaba por sufocar ligeiramente o resto da letra.

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Paris é a canção que considero ser a pérola de todo o disco, em que o ritmo é mais calmo mas não por isso menos viciante. Sem dúvida, a minha música preferida e a que se destaca de todas as outras, pela melancolia na própria melodia, na letra e na voz de Matt Healy. Não é que ritmos mais dançáveis e mais excêntricos lhes fiquem mal, mas é claramente neste registo que os The 1975 mostram o que têm de melhor. Terminamos a exploração deste novo álbum com as faixas Nana, She Lays Down e How To Draw, num registo acústico e ainda triste, onde claramente a guitarra e a voz chegam para fazer um bom trabalho.

Se inicialmente me assustei e temi que os The 1975 tivesse tomado um rumo demasiado superficial e comercial, agora constato que isso não aconteceu, de todo. Nota-se que tentaram alargar os seus horizontes quanto ao género musical – como Matt Healy chegou a declarar, “há muita coisa que falta à música pop” e, do meu ponto de vista, pop não corresponde necessariamente a comercial que passa nas rádios– mas conseguiram arriscar nesse aspecto, sem deitar a perder a essência da banda e o que os tão torna tão peculiares. E se há algo que tenho a louvar neste álbum, é a coragem de sair (um pouco mais) fora da caixa e toda a honestidade desse processo.

Nota: 7,5/10