Os Óscares são há muito os prémios mais desejados no mundo do cinema. Entre polémicas de descriminação racial, sexual ou simplesmente de agenda, é certo que qualquer grande carreira no cinema apenas fica completa com a pequena estatueta dourada.

Seja com o eterno debate entre atores e atrizes, entre preferências estilísticas de filmes ou sobre a importância que determinado realizador teve no seu filme, a noite da entrega de prémios em Hollywood transforma-nos a todos uma vez por ano em teóricos do cinema com opiniões mais ou menos fundamentadas. No entanto, durante o tempo mais morto lá para o meio da cerimónia, os Óscares têm a atenção de valorizar um elemento importantíssimo no cinema que muitas vezes passa despercebido ao comum utilizador do Wareztuga. Estou a falar dos Óscares de Melhor Banda Sonora, Melhor Música, Melhor Mistura de Som e Melhor Edição de Som.

O cinema foi evoluindo ao longo dos tempos como a verdadeira arte audiovisual, e está agora longe da noção de imagem em movimento que lhe foi conferida na sua génese. As inovações tecnológicas têm como objetivo imergir o espetador na ação que se passa no ecrã, mas o som tem igualmente uma importância fundamental para atingir esse objetivo.

Os cineastas apresentam diferentes abordagens relativamente à utilização de som nos seus filmes. O caminho mais direto passa por aproveitar o estatuto já solidificado de músicas bem-sucedidas para dar um impulso de familiaridade ao filme. As músicas têm um elevado poder de transporte de emoções, pelo que quando ouvimos uma faixa conhecida durante um filme associamos à cena em questão as emoções passadas que ela nos tenha trazido. Alguns filmes reservam enormes orçamentos apenas para o licenciamento de músicas com este objetivo. Almost Famous por exemplo, realizado por Cameron Crowe, tem lugar durante os seventies rebeldes do Rock and Roll e a sua banda sonora ajuda à ilusão dado que somos constantemente transportados para essa época com temas de artistas como Led Zeppelin, Elton John ou David Bowie.

Tiny Dancer, Elton John em Almost Famous (2000)

Por vezes nem é necessário utilizar músicas conhecidas para alcançar um bom resultado. É habitual filmes de diversos estilos construírem uma cena onde pausam a narrativa e colocam o som em plano principal. Apesar de poderem inicialmente parecerem supérfluas, estas cenas raramente são vazias de conteúdo. A combinação de música e imagem pode transmitir sentimentos e descrever relações entre personagens demasiado complexas para caracterizar através de diálogos. A escolha da música correta, obviamente, é o essencial.

O’Children, Nick Drake and the Bad Seeds em Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1 (2010)

Outros exemplos dão um passo extra e desenvolvem músicas propositadamente para o filme. Incluem-se nesta categoria os musicais, apesar de ainda não ter conseguido compreender o charme deste género, já que a ligação entre filme e música é geralmente demasiado forçada. Um exemplo semelhante mas no entanto mais bem-sucedido são os filmes Disney, que contam com músicas criadas especialmente para a ocasião e utilizadas para auxiliar a narrar a história e marcar o ritmo da película. Algumas delas conseguem alcançar um grande valor como músicas em si dado que utilizam cantores bem-sucedidos para dar voz às personagens.

No entanto a sonoridade nos filmes ultrapassa largamente o conceito de música como o conhecemos hoje em dia. Grande parte da sua importância passa por criar de raíz uma atmosfera sonora que vá de encontro à estética geral do trabalho. Quem não sente arrepios só de ouvir os gritos tribais do Circle of Life do Lion King, composto por Elton John, ou o início de Star Wars de John Williams? Apesar de acompanharem imagens icónicas, é no elemento sonoro que reside o poder de choque e de identificação nestes ícones do cinema. Será que as letras amarelas a flutuar pelo espaço seriam igualmente recordadas se não se tivessem feito acompanhar pelo maravilhoso coro de trompetes?

Also Sprach Zarathustra, Richard Strauss em 2001: A Space Odyssey (1968)

Esta função da sonoridade não tem no entanto de estar tão destacada. As bandas sonoras da trilogia de Lord of the Rings, compostas por Howard Shore, são um excelente exemplo disso, pois conseguem com uma deliciosa delicadeza aumentar ou diminuir o ritmo das cenas na adaptação da obra de Tolkien. São elas que nos metem empolgados com algo tão leviano como dois minutos de cavalgadas ou correrias pelos descampados da Terra Média. Função semelhante desempenham as trilhas com que Hans Zimmer acompanha as super produções mais recentes de Christopher Nolan.

Nestes casos o som é passado para um plano secundário. Não tem como objetivo roubar a atenção, mas sim auxiliar o espetador a encontrar na imagem a postura pretendida pelo realizador. Com a sonoridade a representar requisitos estéticos tão importantes nos filmes tem-se recorrido recentemente a músicos galardoados para se responsabilizarem pelas bandas sonoras. São exemplos disso as colaborações de Trent Reznor, vocalista de Nine Inch Nails, com David Fincher (The Social Network, Gone Girl) ou Jonny Greenwood, guitarrista de Radiohead, com o realizador Paul Thomas Anderson (The Master, Inherent Vice).

Baton Sparks e Able-Bodied Seamen, Jonny Greenwood em The Master (2012)

Por fim não deveria deixar de mencionar os casos onde deliberadamente o filme é acompanhado por uma diminuta ou até mesmo inexistente banda sonora, geralmente mais característico de filmes independentes. Como infelizmente ainda não andamos na rua e ouvimos música vinda do céu, a ausência de elementos terceiros à cena em si ajuda a transmitir um aspeto mais realista, optando o realizador por destacar outros elementos do seu trabalho, como uma maior atenção à atuação ou aos diálogos das personagens.

No fim, o som é mais uma peça constituinte do grande puzzle que é um filme moderno. Não existe uma constante resposta correta, apenas diferentes opções que podem contribuir (ou dificultar) a transmissão da mensagem que o realizador pretende com o seu trabalho.