Na maior parte das vezes, ouvimos um álbum, enquanto vemos o Facebook, fazemos trabalhos, pensamos em mil e uma coisas. Então… até que ponto é que ouvimos mesmo um álbum com atenção e conseguimos tirar partido de toda a experiência sensorial associada? Um exercício demorado e complexo, em que se relata a viagem, os cenários e todas as sensações despertadas pelo Masala, de Jibóia.

I

Estou na Turquia. Ankara chega até mim como uma cidade estranha. As pessoas que lá habitam não são iguais a mim. Por cada ombreira onde passo sinto que, embora me seja a mim uma terra estranha, ela não é de todo estranha a mim. Ao fundo de uma sala inundada de homens de aparência austera, não convidativa e todos usando um estranho chapéu fino mas alto, ouve-se um instrumento de sopro. A musicalidade com que toca não relembra as flautas de pan, nem os oboés aborrecidos das salas de concerto ocidentais. Aproximo-me para ver do que se trata.

Um velho – que eu adivinhei estar em jejum, devido à sua aparência magra e ossuda – estava sentado num canto daquela taberna impregnada pelo cheiro do chá preto. Foi quando admirava a mestria do meu velho amigo que do outro lado daquele salão, aparecido ainda hoje não sei de onde, um gordo turco, de bigode espesso – talvez o patrão? – grita, exasperado, numa língua para mim incompreensível. O velho não lhe fez caso. Quase que como rogando uma praga, o pachulento homem repetia a sua frase abanando um cacete tipicamente turco. O velho não lhe fez caso. Num acesso de fúria aquele homem agita o instrumento, batendo-me com intensa força na parte de trás da nuca, fazendo-me desfalecer naquele momento. O resto da noite é uma névoa na minha memória.

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II

Foi quando estava a recuperar os sentidos que um rapaz na idade dos 15 anos me ajudou a levantar. Para minha surpresa disse-me um “Anda, consegues correr?” na língua que tão bem conheço. Senti-lhe um ligeiro travo paulino nas palavras. A confusão já se tinha instalado, tudo estava mais vermelho com a poeira que se levantava naquele lugar. Meio cambaleante, com o braço à volta daquele rapaz, conseguimos chegar à saída daquele lugar espartano de guerra. A luz que irradiava do lado de fora cegou-me por breves instantes. Quando recuperei a visão deparei-me com um cenário mudado daquele de onde julgava estar antes.

No lugar da areia vermelha, estava agora areia mais amarela. No lugar dos prédios de tijoleira encarnada estava uma fila de palmeiras que se estendiam, creio eu, até ao infinito. O rapaz insistia. “Temos de correr, depressa.” Do quê, ainda hoje não sei, mas não me arriscava a ficar naquele lugar. Corremos durante uns 10 minutos, mais coisa menos coisa. Estava agora em frente a um aeroporto, onde aquele rapaz me entregou um bilhete de avião que apenas dizia “São Paulo – Lisboa: Porta 12; 8h20“. Estava em São Paulo. Como lá tinha chegado, nunca saberei. Às 8h35 estava no avião.

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III

Lisboa não é uma desconhecida minha. Há uns anos tive a felicidade de me aventurar com uma rapariga desta cidade. Esta felicidade, tão passageira, tornou-se num espaço de sete meses numa infelicidade tal que julgo não ter podido caber em mim mais um grão sequer daquele triste sentimento.

Estava no avião ainda, onde tive tempo para pôr em prática a minha capacidade de reflexão do passado. Como poderia ter sido eu tão cego? Como poderia eu ter sido apanhado nessa armadilha irracional, tentadora e aliciante mas que tão cedo se torna tão colérica, tão egocêntrica, tão mirante do seu próprio umbigo: a paixão. Deu-se-me um acesso de raiva que não fiquei quieto. A certa altura julguei ser a turbulência do avião um efeito da minha perna que não parava no seu lugar, sempre subindo e descendo ao ritmo de uma qualquer bateria pulsante que me punha nervoso.

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IV

O avião aterrou finalmente. Durante a última meia hora de voo adormeci, derivado do cansaço. Quando saí do avião senti uma onda de calor que não era própria de uma cidade europeia. Porque dormi na última meia hora não me dei conta que o avião tinha aterrado não em Lisboa, mas em Marraquexe. Isto vim eu a saber através de um indivíduo australiano com quem meti conversa no aeroporto de São Paulo, mas que não teria mais encontrado até esta altura. Confuso, pedi-lhe amavelmente que me mostrasse o seu bilhete.

Estava ali tão claro como a chuva num dia de chuva: “São Paulo – Marraquexe: Porta 12; 8h20“. Estava perdido, longe de tudo o que conhecia, confuso por tudo o que tinha acontecido nas últimas horas e, confesso, com fome. Não tinha dinheiro, não falava a língua e não sabia como sair dali. A noite adensava-se e começava a resfriar. Não me lembro de muito dessa noite. A fome começava a afetar-me os sentidos. Antes de adormecer à porta de uma casa de chá, passam por mim um rapaz com o seu macaco. Na mão, levava duas maçãs, claramente roubadas tal era a desconfiança com que a criança olhava para trás. Acordo na manhã seguinte. Estou às costas de um camelo. A caminho do Dubai.

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V e VI

O porquê de eu estar montado num camelo é-me estranho. Acordei e ali estava, embalado pelo passo vagaroso do animal. Ao meu lado ia apenas um homem, também com um destes quadrúpedes. Era um inglês, dotado das artes anatómicas e estudioso da astronomia. Tudo isto fiquei eu a saber dado ter este homem uma propensão para verbalizar a sua paixão em muitas palavras. Por outros termos, falar muito. Demasiado até. “George, muito prazer. Venho da bonita terra de London, sir. Terra de belezas exóticas, apesar da chuva.

Contou-me as batalhas que aconteceram naquele deserto, heróis da antiguidade que se juntaram às constelações assim que deram o último fôlego. De tudo me falou, menos da razão que me levava a estar sentado naquele animal impaciente, desajeitado e – por muito que apreciasse a conversa histórica – que me prendia àquele homem cujo aborrecimento verbal ou era de estima ou inato.

Ao longe uma nuvem levanta-se. “Uma tempestade de areia!”, exclamei, interrompendo o homem de uma das suas demasiadamente descritivas histórias. A tempestade aí vinha, cavalgante, do sítio para onde íamos. Ela vinha, nós íamos. “Sabe, sir, uma tempestade é o que um homem faz dela. Você vê a tempestade como um todo. Eu vejo cada grão dela.” Não percebi o sentido daquela interpelação. Aquele homem falava em metáforas há demasiado tempo e eu, confesso, não estava para o ouvir.

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VII

A tempestade passou por nós. Durante meia-hora tudo o que se situava a mais de três passos não existia. Deixei de ver o inglês, para meu regalo e alegria. A areia foi-se dissipando. À minha frente uma grande placa de alumínio que com letras magistrais desenhava um simpático “Benvindos a Luanda“. Neste momento estava prestes a implodir. O que tinha feito um homem tão simples para estar constantemente a ser atacado por esta entidade divina, karma ou azar? – conforme a crença do leitor, que não me atrevo a discriminar. Foi num grito de dor que acordei. Acordei? Acordei onde? De quê?

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VIII

Estava em Oslo, na minha cama. Tinha-me refugiado neste país frio há dois anos e três meses, juntamente com a minha mãe. Aliás, fazia hoje dois anos e três meses. O relógio marcava as 8h20. Estava, no mínimo, desconcertado com aquele sonho. Procurava os meus óculos na cabeceira da minha cama. Senti um papel.

“Aula de música adiada para amanhã. O velho George ligou, o neto partiu a perna a correr. O avô manda um abraço apertado desde Ankara, diz que agora está a aprender a tocar flauta. Onde já se viu?
Beijinhos da mãe.

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