Das profundezas dos projetos on hold emerge Deadpool, um caso à parte que honra o material de origem e abre as portas para o visceral mundo Rated R das bandas desenhadas.  Esta carta de amor “escrita” por Ryan Reynolds assume-se como a alternativa ideal para quem procura um registo diferente daquilo que a Marvel e a DC (atualmente) oferecem. Preparem-se para uma salada composta por algumas tripas, nudez e uma comédia sem limites que começa assim que os créditos surgem no ecrã.

Na verdade, Deadpool não poderia ter aparecido numa altura melhor. O timing é absolutamente perfeito, visto que o mercado cinematográfico está saturado de filmes sobre heróis que utilizam collants e que querem salvar Nova Iorque de uma ameaça interplanetária. Num ano em que vamos ter mais uma mescla de filmes relacionados com comics (spoiler: são mais de seis!), a aventura de Wade Wilson é o ideal para os espectadores mais exigentes e que procuram outro tipo de entretenimento.

Antes de explicarmos, brevemente, a história do “Merc with a Mouth”, convém salientarmos o processo atribulado que o projeto sofreu ao longo de vários anos. Para todos os efeitos, este é projeto da vida de Ryan Reynolds, o “ultimate fanboy” do personagem. O ator sempre alertou, com alguma urgência, para a criação de um filme sobre Wade Wilson mas viu as tentativas a caírem, uma por uma, no inferno dos projetos em desenvolvimento. Esta luta demorou mais de dez anos até o personagem ter finalmente uma aparição no grande ecrã (vamos esquecer, por breves momentos, que aquela aberração que apareceu no final do X-Men Origins: Wolverine nunca existiu).

E podemos afirmar, com toda a certeza, que a espera valeu a pena. Não só foi lançado no melhor período possível, como também explora ao máximo o carinho que Ryan Reynolds nutre pelo personagem.

Exemplo da personalidade do personagem nas B.D's.

Exemplo da personalidade do personagem nas B.D’s.

De um modo simples, até porque a narrativa não é complicada, após ter sido diagnosticado com vários tumores inoperáveis espalhados pelo corpo, Wade Wilson, um mercenário dotado de uma imaginação sem limites, decide juntar-se a um programa governamental que alega ter uma possível cura para o problema. Como podem adivinhar, rapidamente as coisas dão para o torto e Wade fica com uma aparência horrível (que vai esconder, posteriormente, com um fato de spandex) e com um poder de regeneração semelhante ao Wolverine. Porém, o humor afiado do mercenário continua intacto. E é precisamente neste ponto que o filme assenta. Deadpool não é um herói nem o pretende ser, quanto muito é uma espécie de anti-herói, que não tem um filtro na língua e simplesmente diz o que quer e faz o que deseja, mesmo que isso resulte em situações embaraçosas para aqueles que o rodeiam. Uma das características essenciais do personagem é a quebra da fourth wall – este tem a perfeita noção que é uma figura de uma banda desenhada – o que resulta em situações hilariantes (e com um teor extremamente meta) da constante interacção entre a mente depravada do mesmo com os espectadores.

Neste campo, Ryan Reynolds agarra por completo o papel e quebra as regras, através de piadas inteligentes e ácidas relacionadas com o passado e o estado actual da indústria cinematográfica, bem como a forma como certos atores atingiram o sucesso (Hugh Jackman é um dos maiores alvos). Para além disto, a constante loucura de Deadpool atinge níveis estratoesféricos com uma panóplia de comentários meta, que vão desde criticar certos tipos de móveis do IKEA como apontar o dedo aos estúdios FOX porque não tiveram budget suficiente para criar certos personagens em CGI ou elaborar um clímax explosivo quando a narrativa assim o pedia.

Tim Miller, um estreante nestas andanças, apesar da experiência nos trabalhos relacionados com efeitos especiais, apoia-se, sobretudo, no facto do filme ter um orçamento limitado, em relação aos outros gigantes deste universo, para mostrar que é possível realizar um filme Rated R quando um certo personagem assim o “pede”. A aventura de Deadpool só resulta porque não tem limites para a violência ou sarcasmo negro. O personagem desafia constantemente a nossa sanidade mental, seja a dilacerar maus da fita com um par de katanas enquanto ouve DMX ou Salt-n-Pepa, como também a apimentar o enredo com referências ao mundo real. Se retirarmos este aspecto, o filme, simplesmente, perde a alma.

Deadpool imagem 1

Wade Wilson possui um arsenal ilimitado de destruição

Mas para aqueles que estiveram atentos à campanha genial de marketing, podemos garantir que existe uma história romântica (e com uma química notável, cheia de “sumo”, entre Ryan Reynolds e Morena Bacarrin) no meio de tantos palavrões, nudez, sangue e humor negro. Também está presente a existência de um vilão britânico, interpretado por Ek Skrein, que se chama Ajax (como aquele limpa-vidros bastante conhecido) e a inclusão normal de personagens secundárias como Colossus, Negasonic Teenage Warhead (sim, leram bem), Big Al (uma idosa cega que vive com Wade Wilson num pequeno apartamento) e Weasel (pede-se especial atenção para os fãs de Silicon Valley porque vão delirar com a interpretação de T.J Miller).

Em suma, Deadpool é a aposta ideal para quem está cansado dos milhares de filmes que a Marvel e a DC pretendem lançar até 2020. Face ao sucesso inesperado na bilheteira – a Fox não sonhava que o filme atingisse estes números estratosféricos – resta-nos esperar pela sequela , de preferência com o regresso de Ryan Reynolds na equipa de produção e como supervisor do argumento. O céu é o limite para o anti-herói que adora chimichangas.

P.S.: Por favor, e como vai sendo um  hábito em filmes dentro deste registo, não se levantem da cadeira assim que os créditos surgirem. Garanto-vos que vai valer a pena porque vão ser presentados com uma homenagem a um filme brilhante de 1986. Não vou mencionar o nome da fita, até porque isso estraga a surpresa, mas é díficil não apanhar a referência.

9/10 A.K.A um fim de semana romântico com a Morena Bacarrin.

Ficha Técnica

Título: Deadpool (Piscina de la Muerte para os amigos)

Realizador: Tim Miller

Argumento: Rhett Reese, Paul Wernick com o auxílio de Fabian Nicieza e Rob Liefeld (os criadores originais do personagem)

Com: Ryan Reynolds, uma breve aparição de Karan Sori, Ed Skrein, Morena Baccarin e T.J Miller

Género: Ação, Aventura, Comédia