O ensaio solidário da nova comédia God teve lugar no dia 16 de fevereiro e conseguiu angariar mais de 4000€ para a Casa do Artista. Nesse dia, o  Espalha-Factos foi ao Casino Lisboa para assistir ao espetáculo e falou com o ator Joaquim Monchique.

De Nova Iorque para Lisboa

É Deus no Céu e Joaquim Monchique na Terra. Mais propriamente agora no Casino Lisboa. O ator visitou Nova Iorque e assistiu a um dos maiores sucessos dos últimos anos da Broadway. Nele Jim Parsons, que interpreta a personagem Sheldon na série A Teoria do Big Bang, encarna Deus que terá descido à Terra para intervir no rumo da humanidade e tornar a vida mais aprazível.

Lê mais: Joaquim Monchique leva ‘God’ ao Casino Lisboa

Ao Espalha-Factos, Joaquim Monchique confessou que, mesmo de antes de ver o espetáculo, pensou: “Eu quero fazer isto!”. Depois de três anos com outro sucesso, Lar Doce Lar, com Maria Rueff, Monchique pegou neste projeto com toda a alma e certeza que iria dar que falar. E isso notou-se em palco.

Numa adaptação de António Pires (encenador), João Quadros, Joaquim Monchique e Rui Filipe Lopes, este é um espetáculo a não perder que, além de nos proporcionar gargalhadas certas, traz também prestígio à nossa cidade. “Deus nunca veio ao Mundo, mas pela primeira vez que vem, vem a Lisboa, a Nova Iorque e a Los Angeles. Acho bom o triângulo…Lisboa não está na moda?! [risos]”, disse-nos o ator.

God. Foto: Catarina Veiga

God. Foto: Catarina Veiga

Abre-se a cortina para Deus

A cortina é aberta pelos dois arcanjos, Miguel e Gabriel, que anunciam a descida de Deus à Terra. Ele desce então a escadaria que liga o céu ao palco do auditório e, quase em estilo de stand-up, com muito humor, alguma música e até com a presença d’ A Voz, começa a peça.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O Senhor confessa que está desiludido e furioso com a má interpretação que a Humanidade tem feito da Palavra que entregou a Moisés e que, por isso, decidiu dirigir-se pessoalmente a todos nós para um puxão de orelhas.

Nesta missão, ajudado pelos arcanjos Miguel e Gabriel, Deus revela-nos os Novos Dez Mandamentos. Miguel, personagem interpretada por Rui Andrade, consegue ler a mente das pessoas que estão na plateia e dá voz às questões que estas têm para colocar, como é caso da “porque é que morremos?” ou “porque é que as coisas más acontecem às pessoas boas?”.

God. Foto: Catarina Veiga

God. Foto: Catarina Veiga

Gabriel, personagem de Diogo Mesquita, permanece no palco durante toda a peça, vai introduzindo os novos mandamentos e questionando Deus com algumas passagens do Livro Sagrado, já que acreditava estarem sempre corretas. Dessa forma, Deus acaba por nos confessar que a Bíblia não descreve exatamente todos os momentos da história, respondendo a Gabriel com humor: “A Bíblia acerta sempre, sobretudo quando a atiramos com força e de muito perto”.

Um chamamento à atualidade e uma adaptação da Bíblia

A escadaria iluminada, o sofá branco, os sons, a própria Voz do reality show Casa dos Segredos, transportam-nos para um ambiente diferente do habitual. Durante cerca uma hora e quarenta minutos, não faltam alusões a programas, figuras nacionais e aos mais célebres cantores internacionais que Deus levou mais cedo para o céu, para assim poder ouvir quando quisesse a música I Will Always Love You de Whitney Houston, a sua artista favorita. É então que Rui Andrade, neste caso o anjo Miguel, recebe o dom de cantar e interpreta o tema, surgindo ali um grande momento musical.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O discurso? Esse baseia-se numa interpretação bastante diferente dos escritos sagrados, onde ficamos a conhecer pormenores nunca revelados. Por exemplo, afinal o Jardim do Paraíso foi inicialmente habitado por Antunes e Adão, criados apenas para tratar do jardim. No entanto, por culpa da serpente que lhes deu a provar o fruto da árvore do conhecimento, estes descobriram a sexualidade em conjunto. Claro que a serpente foi castigada. Perdeu os seus membros e foi condenada a rastejar para sempre.

Também o pedido feito a Noé não foi bem aquele que se julga. Afinal de contas, por maior que fosse a Arca, onde é que caberiam dois exemplares de cada espécie?! O recado foi antes dado no sentido de levar dois tupperwares, um com frango assado, outro com batatas fritas, já que é sempre o que se leva para as excursões. A expressão corporal do ator e as entoações na voz são os ingredientes que tornam este texto rico e quase verídico, como se estivéssemos de facto perante Deus.

Este não é o “Deus da aflição”

Ao longo da peça, e como nos explicou também Joaquim Monchique, percebemos que aquele não é o “Deus da aflição”, mas sim o “Deus do 1.º Testamento, o Deus destruidor, o que faz o dilúvio, o afogamento dos egípcios (…), o Deus que não tem perdão (…), o Deus criador, o Deus arrasador, o que manda”. No final, Deus admite mesmo ser “egocêntrico, sexista, racista” como todos nós.

Não faltam, por isso, várias críticas. Primeiro àqueles que invocam o nome do Senhor em todos os momentos, muitas vezes em vão. Inclusive na música pimba, onde tão abusivamente se refere o nome de Deus. Não nos podemos esquecer, como o próprio God salienta, que este é mais um planeta que ele se divertiu a criar, com papel de parede, loiças, espaços verdes e com peixes voadores. Não é o único e que, portanto, a ele pouco lhe interessa o que fazem ou deixam de fazer os humanos, as suas dúvidas existenciais e futilidades. Para atender a todos teria de estar “sozinho num call center a atender milhões de chamadas” a cada minuto, algo que não é possível.

Depois, a questão ecológica. O apocalipse e o juízo final, acontecimento que ponderou fazer para castigar os homens pelos seus maus comportamentos, afinal não chegará a acontecer. Conseguiremos sozinhos destruir o planeta, com uma bomba nuclear qualquer ou por pura e simplesmente não cuidarmos desta que é a “vossa casa!”, como diz no final.

A “comadre” Fátima e os Três Pastorinhos também não faltaram, bem como as referências a todos os sacrifícios de seu filho, Jesus, e outros momentos marcantes da história bíblica. Além de divertir este é um espetáculo que alerta consciências sobre coisas que nos tendemos a esquecer.

Ao despedir-se, com pressa já que vai a caminho da atualização 2.0 de outro dos seus planetas, projeto assinado por Steve Jobs, Deus diz-nos que, apesar de estar tudo do avesso, ainda há lugar para um sentimento de esperança. Devemos acreditar em nós próprios, esquecer futilidades (futilidades estas que assistimos até entre os membros da Igreja) e cuidar da Terra.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Achámos curioso o facto de nos Cromos da TSF, entre 2003 e 2006, Joaquim Monchique ter interpretado o Bispo Tadeu, personagem criada por ele. Referia, a dada altura, que os homens tinham criado uma vacina contra a cárie dentária, tornando desnecessárias a escova e a pasta de dentes, cenário que funcionava como uma crítica às questões que os homens consideravam mais importantes.

À conversa com o ator, o Espalha-Factos questionou-o sobre esse tema também muito marcante no discurso da peça. “Os homens começaram a arranjar umas coisas que não têm qualquer interesse. Às vezes quando estou com os meus amigos digo-lhes: Tu és o espermatozóide vencedor. Imagina quantos é que ficaram para trás. Estamos aqui pouco tempo, por isso enjoy it! Faço sempre isso, até nos meus espetáculos. Ainda para mais com todo este público a agasalhar-me”. E, de facto, é isso que importa!

Joaquim Monchique. Foto: Catarina Veiga

Joaquim Monchique. Foto: Catarina Veiga

Onde podes ver…

God está em cena no Auditório dos Oceanos, onde podes ver e ouvir o que trouxe Deus à Terra até ao dia 17 de abril, de quinta-feira a sábado, às 21h30, e aos domingos, às 17h00. Os bilhetes custam entre 12 e 16 euros e estão à venda nos locais habituais.