O último dia de GUIdance foi preenchido com dois espetáculos. Caberia a Anne Teresa De Keersmaeker fechar o festival à noite, mas o fim da tarde foi preenchido com Nevoeiro de Luís Guerra. A Black Box da Plataforma das Artes e da Criatividade encheu para receber o trabalho deste bailarino e coreógrafo português.

Nevoeiro é uma peça de 2013 que surgiu a quando Luís Guerra vivia em Viana do Castelo. “O título foi o que me chegou primeiro, como me acontece habitualmente. Pensei fazer uma elegia, estava fascinado, adoro o nevoeiro. A questão era: como consigo fazer isso em dança?”, afirmou-nos o coreógrafo. Este fenómeno meteorológico distorce a visão e deixa uma neblina que transpõe para um universo onírico. Luís Guerra deixa-se levar e o conceito acaba por se tornar uma divagação que se vai expandindo e se torna numa viagem sem rumo ou objetivo.

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Foto: Beatriz Vasconcelos

Este é um espetáculo de três atos totalmente distintos e desconexos. A coreografia está bem definida e o desenho coreográfico é preciso e não há espaço para acasos ou improvisos.

Entramos na sala escura e o som que ecoava fora da sala torna-se mais intenso. É uma melodia hipnotizante e repetitiva. É uma forma de usar mais um sentido para transportar o público para outro universo. No palco temos uma cortina prateada limitada por pano preto que nos limita o olhar. É como um quadro cuja moldura separa a obra do exterior, do mundo real. Este quadro para que olhamos é uma pintura viva e de movimento, onde quatro personagens habitam.

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Foto: Beatriz Vasconcelos

No primeiro momento, os quatro bailarinos em coloridas leggings e tronco nu vão percorrer todo o palco numa só viagem. Sempre os mesmo movimentos, precisos e muito rápidos são repetidos ao longo de meia hora. Poses sensuais, gestos banais, passos robóticos, saltos, giros são feitos numa sequência diferente para cada bailarino. O objectivo seria que a rapidez dos movimentos acabasse por confundir a visão do espectador para algo turvo e contínuo, uma confusão óptica provocada pela rapidez dos movimentos. O público seria assim sugado para outra dimensão e ficaria enfeitiçado por estes quatro corpos num movimento constante, onde a rapidez não dá lugar ao cansaço e onde o humano se confunde com uma máquina.

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Foto: Beatriz Vasconcelos

A luz apaga-se durante muito tempo. Quando reacende vemos três silhuetas vestidas da cabeça aos pés. Cada uma delas têm um foco com uma cor por cima de si: vermelho, verde e azul. Nada mais há em cena, nada mais acontece. As três figuras ficam paradas a fitar o público. Aos poucos há uma mudança muito lenta, quase imperceptível da posição. Há um certo desconforto na sala provocada pelas três personagens com as quais não é possível haver identificação.

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Foto: Beatriz Vasconcelos

No último momento acende-se a luz à frente da cortina. Os quatro bailarinos vão saindo do seu quadro e entram no mundo da plateia. Aqui regressamos ao movimento sob a forma de gestos de agradecimento que facilmente associamos a diferentes artistas e vedetas. Este é o momento mais curto de todos e que corta totalmente com o ambiente anterior ao remover-se o véu e trazer as personagens para o mesmo mundo.

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Foto: Beatriz Vasconcelos

No final não é deixado espaço para agradecimentos. Os artistas reentram no seu mundo sem se despedirem e não voltam no fim para serem aplaudidos. A música mantém-se igual, a luz da plateia acende-se e as pessoas vão saindo sem se manifestarem, acima de tudo com medo de que a performance não tenha terminado e que os bailarinos regressem.

Nevoeiro é um espetáculo cuja duração podia ser reduzida. Os dois primeiros momentos são muito longos e não há qualquer variação ao longo do tempo, apenas uma repetição que se pode tornar monótona.  É uma peça abstrata em que o conceito se cinge ao cenário. Passar um fenómeno da natureza para o palco e procurar transpor a ideia e os efeitos que a que ele remete para palco é uma tarefa de exploração que cabe a cada um decifrar.