Na véspera de apresentar o seu trabalho na sexta edição do GUIdance, o Espalha-Factos falou com Luís Guerra, coreógrafo de Nevoeiro. Formado em Dança, Luís começou a assinar peças em nome próprio em 2005. Além do seu trabalho como criador, tem trabalhado regularmente como bailarino. Além de desenhar no espaço com movimento, também as linhas que deixa no papel o fascinam.

Espalha-Factos (EF): Bailarino, coreógrafo e artista plástico. A inspiração para criar duas artes diferentes vem do mesmo?

Luís Guerra (LG): Sim, acho que sim. Aquilo que me inspira eu depois extravaso tanto para uma arte como para outra. Não consigo separar aquilo que deve seguir um caminho e outro.

EF: És formado em Dança e ela surgiu cedo. Mas e o desenho?

LG: Sim, comecei a estudar Dança muito cedo. Aos seis anos entrei no ballet e depois fiz o Conservatório inteiro. O desenho faço desde pequeno e tem sempre a ver com Geografia. Quando era pequeno fazia mapas de países imaginários, muitos labirintos mas sempre ligado à Geografia, até porque não tenho paciência para desenho científico ou técnico. O desenho foi algo que fui descobrindo e o facto de ser bailarino freelancer faz com que muitas vezes tenha tempo livre para fazer desenhar. Aos poucos fui adensando esse lado e dando mais atenção aos meus desenhos.

Desenho de Luís Guerra

Desenho de Luís Guerra

EF: Nunca tiveste receio de ser bailarino profissional tendo em conta as condições da profissão?

LG: Nada. Foi aquilo que sempre quis e que pedi cedo aos meus pais para ser. Sempre fiquei na Dança porque gostava, nunca pensei em sair por isso também nunca pensei numa outra profissão possível. Acho que é mesmo vocação, foi um chamamento. Eu queria mesmo ser bailarino, depois dei-me bem no Conservatório e felizmente tudo se desencadeou até aqui.

EF: Dirias que dançar é também desenhar?

LG: Claro! Aliás temos o desenho coreográfico que eu valorizo e trabalho imenso. Nesta peça por exemplo está toda desenhada, o movimento está definido. Eu consigo pegar nesta peça e  passá-la para outros bailarinos. Toda a coreografia está anotada, não parto de técnicas de improvisação por exemplo. É algo em que penso, desenho todo o movimento estruturado e que depois pode ser dançada por outros bailarinos.

EF: E sobre a peça, nevoeiro porquê? 

LG: Nevoeiro foi uma peça que surgiu quando eu estava em Viana do Castelo e tens aquela neblina inevitável numa cidade costeira. E com o nevoeiro há também mais uma série de fenómenos atmosféricos incríveis, como as ventanias brutais que fazem chapas voar no meio da cidade. E isso é algo que me fascina e que me marcou muito esse poder da natureza. Nevoeiro tem a ver com um gosto estético,  a nível artístico podes associar a uma atmosfera mais romancista. É este fenómeno atmosférico que leva a pensar no sublime e no divino que os escritores e pintores românticos falavam. Mas depende muito de cada um e daquilo que se retira da obra.

“Nevoeiro tem a ver com um gosto estético, a nível artístico podes associar a uma atmosfera mais romancista” – Luís Guerra

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Foto: Beatriz Vasconcelos

EF: Em relação a esta peça, a cortina é uma forma de criar uma quarta parede ou apenas uma nova forma de ver?

LG: Não é bem isso. Eu costumo pensar sempre primeiro nos títulos e quando penso em nevoeiro penso em desfoque. Queria passar a imagem de quando acordas de manhã e vês tudo desfocado, senão mesmo uma neblina em que não há uma definição, onde as linhas não estão definidas. Então quis que as pessoas vissem a dança de forma desfocada e por isso a cortina. Mas também o desfoque provocado pelo próprio desenho coreográfico. E a ideia em que trabalhei foi a rapidez, trabalhar com uma coisa muito precisa e que idealmente chegaria a uma altura em que verias tudo como num ecrã de televisão com mau sinal.

EF: Então todas as tuas peças partem de um título já definido?

LG: Eles têm aparecido sempre primeiro. Até porque se eu fico obcecado por uma palavra depois começam-me a vir visões e imagens que se inserem na peça para servir essa palavra. Depois de ter o nome começo a imaginar tudo o que quero e vou criando conceitos e ideias à volta disso até ter tudo definido.

EF: É um espetáculo de três atos, tal e qual os bailados clássicos. Foi essa a intenção ou a separação tem outro motivo?

LG: Olha não sei. Nunca tinha pensado nisso sinceramente. Dividi porque gosto e são efetivamente muito definidos. Não sei, se calhar até pode vir pela influência clássica mas foi uma decisão para mudar totalmente de paisagem e por isso precisava dessas duas quebras que acabam por ser dois bons minutos de escuro para haver um corte, mas que pelo efeito da música consegues aceitar bem essa quebra e nem te assusta ou te perturba porque já estás num estado hipnótico.

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Foto: Beatriz Vasconcelos

EF: Entre ser coreógrafo ou só intérprete há muitas coisas que mudam?

LG: É um trabalho diferente sem dúvida. Sinto necessidade de ser coreógrafo e de criar porque existem visões e coisas que quero deitar cá para fora. Como bailarino adoro e gosto de trabalhar mais com criadores que desenhem um movimento e o passem para os outros. Desde que assino as minhas peças que reduzi fazer parte de peças mais colaborativas ou de improvisação, em que vais para estúdio e toda a gente cria e isso já não faria sentido para mim.

“Eu gosto de ser ou o diretor em que tudo parte de mim ou então gosto de ser dirigido, tal como acontece com a Tânia Carvalho em que sou o barro e entro no universo dela e adoro”– Luís Guerra

EF: Em 2011 foste considerado um dos melhores bailarinos do mundo? Esse reconhecimento mudou alguma coisa?

LG: Não de todo. Isso foi uma nomeação, um destaque de uma peça da Tânia, de um dueto de nós os dois. Mas isso foi um bocado golpe de sorte porque estávamos na Bienal de Lion, uns críticos viram e gostaram da interpretação e surgiu. Mas foi para aquela peça, naquele ano, naquela interpretação. E depois cá em Portugal pegou-se muito nisso, mais até do que eu esperava, até me queriam convidar para a televisão. Foi uma altura em que se usava nos media o orgulho de ser português e de destacar que tínhamos os melhores espalhados pelo mundo. E eu quis travar isso, quis deixar claro que era um destaque mas face àquela peça. É um destaque muito fixe, até porque eu adoro a peça e adorei dançá-la, mas não é um título nem nada. É uma coisa fixe, um destaque.

EF: Na dança contemporânea  conseguimos distinguir várias vertentes: umas mais teatrais, outras mais abstratas e outras que levam a técnica ao limite. Como te identificas?

LG: A nível de coreografia gosto de tudo desenhado e definido. A nível de conceito pode ser mais abstrato, é trabalhar numa palavra mas sei lá. Olho para trabalhos anteriores e tenho numa peça em que pensei em dançar com uma mesa e depois de definido esse quadro, vou entendendo e puxando por esse quadro até ao limite, mesmo durante muito tempo.

EF: Então não te consideras um artista com uma única visão seja ela abstrata ou figurativa.

LG: Não, não. É mesmo o que me apetecer na altura e se não tiver inspiração nem sequer coreografo. Agora em retrospetiva ao que fiz, se calhar até tenho uma tendência para o abstracionismo, mas nem sei bem o que isso quer dizer, porque no fundo o abstrato pode dar para todos os sítios. E a nível de técnica isso não é limitativo. Tenho a ideia agora de uma peça que nem sequer é para ser dançada por bailarinos, mas por outro lado o Nevoeiro foi criado para ser dançado por bailarinos com técnica e formação. Depende muito.

EF: E olhando para o panorama da dança do momento no nosso país?

LG: Vejo que há muitos criadores e muitas vozes singulares e diferentes. Há muita gente a fazer muitos trabalhos e muito diferentes uns dos outros e isso é algo que eu considero muito engraçado e muito importante. Tu podes comparar trabalhos de vários coreógrafos e não importa nomes, seja quem for e tu não consegues ver como uma tendência. Cada um tem a sua forma, tem a sua voz. Portugal não é como muitas cidades europeias, cidades da dança, em que se cria um verdadeiro movimento e que de repente tens muitos criadores a trabalhar num estilo. Cá sinto que funciona como cinema de autor em que cada um está na sua trip a desenvolver a sua cena e dar voz a si mesmo.

EF: E se pensares no público, vês um interesse crescente?

LG: É assim se virmos desde que eu comecei, sim. Mas acho que sinceramente depende muito de cidade para cidade e do desenvolvimento da dança aí.

“Em Portugal não temos aquela necessidade de ver realmente uma peça, quase como um vício. Não é ir ver dança como obrigação ou para poder dizer aos amigos que foi, é mesmo um apetecer. Uma vontade de consumir dança, de querer e procurar” – Luís Guerra

EF: E achas que isso será possível?

LG: Não sei, mas espero que sim. Era mesmo fixe. Mas eu não gosto de verdade assim certas e absolutas por isso…