GUIdance 2016_2

GUIdance 2016 – ‘Je danse parce que je me méfie des mots’: uma homenagem em forma de reencontro

Ontem o Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor recebeu Je danse parce que je me méfie des mots, um espetáculo da japonesa Kaori Ito. Pela quarta vez em Guimarães, esta criadora veio acompanhada pelo pai. Um espetáculo de partilha de intimidades, de reencontro entre pai e filha, uma aproximação pela arte. Comovente e divertido, mais um espetáculo da sexta edição do GUIdance que foi aplaudido em pé por uma plateia esgotada.

Entrando na sala e já Kaori e o pai estão em cena. Ele sentado numa cadeira, olhando uma grande estrutura que parecem ser cadeiras amontoadas. Ela vai circulando pelo palco. De fundo temos a voz da coreógrafa e bailarina que vai colocando questões sobre si mesma, sobre a sua cultura, sobre a sua formação. São muitas perguntas íntimas e pessoas, perguntas que mais tarde vai coloca ao seu pai. Torna-se óbvio que este espetáculo será algo intenso, uma partilha do íntimo, uma abertura não só entre pai e filha, mas também com o público. Eles vão expor-se pela arte.

Je danse parce que je me méfie des mots significa eu danço porque não confio nas palavras. Mas é de palavras que esta peça é feita. Uma avalanche de perguntas que coloca ao pai aquando do seu regresso a casa. Kaori sente que a sua casa funciona quase como um museus dela, fotografia por todo o lado, o seu quarto intocado desde que saiu. É como se estivesse morta e nada pudesse ser mexido para não alterar a sua presença. Ela afastou-se, perdeu a ligação com a família. Saiu de casa muito cedo pela exigências da profissão, correu mundo e aos poucos a distância física também se tornou sentimental.

Fotografia: Gabriel Wong
Fotografia: Gabriel Wong

Inicialmente Kaori assume-se como um bebé grande. Chora, cai, gatinha, grita, tenta pôr-se em pé. Tem uma máscara e é assustador ver um adulta desempenhar tão bem o papel de um bebé grande.

Não é um espetáculo de dança, não é nada muito coreografado ou desenhado. É sim uma peça de partilha, uma performance singular onde o conceito e a intenção falam por si mesmos. É inegável que Ito é uma bailarina com uma técnica e um expressividade invejáveis.  Num simples passo vemos como os seus dedos esticam um a um, num balanço de corpo é perceptível como suspende o movimento e o pára por micro segundos no tempo, num virar repentino de cabeça há expressão corporal.

Voltamos à carga de perguntas. Finalmente o pai põe-se em pé e vai bailando livremente pelo palco. É passada a sensação de que a família Ito abriu a porta de sua casa e nos deixaram espreitar lá para dentro, é como se estivéssemos dentro da sua sala. É uma brincadeira, um encontro familiar simples e honesto. Kaori diz que vai oferecer ao seu pai a dança que ele sempre lhe pediu. Decidiu mostrá-la ao mundo e assim voltar a identificar-se com ele.

Fotografia: Gabriel Wong
Fotografia: Gabriel Wong

Ela caracteriza o pai como autoritário e diz que ele sempre o foi para a manter como filha. A verdade é que observando aquela personagem de cabelo branco e com o peso da idade nos ombros, a mexer-se e a dançar de forma tão descontraída é impossível vê-lo como autoritário. Parece ser tão cómico, um artista cheio de energia, que só conseguimos admirar pela sua energia, simpatia e atrevimento em subir a palco e se divertir com a filha.

Kaori questiona o seu pai sobre as mais diversas coisas. De algo tão banal como o porquê de ele fumar, passa para algo cómico como o porquê de ele deixar os dentes falsos no lavatório, revisitando a sua memória de infância com o porquê das histórias de terror antes de dormir, fazendo ainda referencia a perguntas filosóficas sobre a vida e a morte.

Só quando Kaori é deixada em palco sozinha, ouvimos a resposta do pai a todas a estas perguntas. Acompanhamos esta relação de aproximação de pai e filha, de reconhecimento e de redescoberta. Acabaram finalmente por dançar juntos, por se abraçarem, por brincarem ao espelho, por saltarem e dançarem quase um tango.

Fotografia: Gabriel Wong
Fotografia: Gabriel Wong

Agora há uma nova partilha naquelas respostas. Há uma outra visão, um outro sentido. É comovente assistir a esta brincadeira que afinal é uma bonita homenagem:

“Tens medo que a distância nos separe? Não. Éramos muito próximos mas a distância não nos afastou. Eu sou uma memória do teu passado e isso basta-me.

Quantos pólipos tens? Não sei, mas fui operado quatro vezes.

Quantos anos de vida te restam? Talvez uns cinco anos.

O que é a vida? Nada. As pessoas põe demasiada pressão nisso. Assim que nascemos caminhamos para a morte e é isso a vida.

O que sentes por estar em cena? Medo.”

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=hGcq1lF39bY&w=560&h=315]

Finalmente percebemos que estamos a assistir a uma despedida. Não é só uma concretização de um sonho de um pai que teve de deixar a sua filha partir cedo de mais. É interessante ver como alguém que não tem medo da morte diz que tem medo de estar em palco. Mas a sua prestação mostra alguém confiante e seguro, uma pessoa humilde, sincera e muito bem-disposto.

Je danse parce que je me méfie des mots fez-me sentir representada naquela cena. Eu quando comecei a dançar “era a mais pequena da minha turma e tinha uma barriga que fazia de mim um pato”. Desde que me lembro que “o meu pai me pedia para dançar com ele na sala e eu irritava-me”, tinha vergonha. E ainda era pior quando se lembrava de fazer o andar performático na rua.

Sempre me perguntei se os pais das minhas amigas faziam o mesmo ou se seria só o meu que gostava de dançar lá em casa com música alto. Ainda hoje não sei, mas o pai da Kaori Ito faz, por isso já não estou sozinha neste mundo. Ainda bem que desta vez não levei o meu pai comigo, caso contrário era só mais um incentivo para o espetáculo continuar aqui na sala de casa e não havia desculpas para não o fazer.

Fotografia: Gabriel Wong
Fotografia: Gabriel Wong

Ficha Técnica

Conceito, texto e coreografia: Kaori Ito
Interpretação e criação: Kaori Ito (filha) e Hiroshi Ito (pai)
Dramatugia e Texto:
 Julien Mages
Assistente de Coreografia: Gabriel Wong
Cenografia: Hiroshi Ito
Design de Luz: Arno Veyrat
Musica: Joan Cambon e Alexis Gfeller

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