É já no domingo, dia 14, que estreia a nova série Vinyl, criada por Martin Scorsese e Mick Jagger. O Espalha-Factos foi à antestreia e conta-te tudo o que esperar de uma série despida dos poucos preconceitos em que o rock&roll ainda está envolto.

“Tenho uns ouvidos de ouro, uma língua de prata e uns tomates de aço”. Assim se apresenta Richie Finestra, trazido à vida por Bobby Cannavale, o dono da American Century, uma editora discográfica sobre a qual gira toda a ação. É talvez a frase que melhor define a série que desde o início se mostra como aquilo que realmente é: crua, sem pretensiosismos e decididamente irreverente.

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Estamos em Nova Iorque de 1973 e se existe um mundo além do underground da música rock, não nos é dado a conhecer nem temos interesse que surja. O ambiente em que o primeiro episódio se inicia não é pacífico nem lento – Richie, de aspeto bastante alterado no seu carro, enquanto compra cocaína num beco. As drogas rapidamente se provam comuns em Vinyl – todos consomem, todos gostam. Funcionam como o café da manhã para os personagens funcionarem melhor.

Um barulho ensurdecedor começa a entrar-nos pelos ouvidos – Richie estacionou em frente a um clube onde se ouve rock’n’roll alto e bom som. Curioso, decide entrar e depara-se com tudo aquilo que há dias lhe assombra o espírito. A necessidade de encontrar uma boa música que tivesse resolvido os problemas da sua discográfica.

Isto porque cinco dias antes a gigante companhia teve de ser vendida a um consórcio musical liderado por executivos da Alemanha, que parecem pouco ou nada entender o espírito e a essência crua da música que Finestra tanto ama.

É por esta altura que somos apresentados a Kip Stevens, um músico de segunda categoria que tenta entregar uma cassete da sua banda na American Century. Não lhe ligaríamos muito não fosse a imediata parecença a algum outro músico que tão bem conhecemos. É que Kip é protagonizado por James Jagger e, como o pai noutras dimensões, promete dar cartas em episódios futuros.

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Mas por estas alturas, a sua música é largamente ignorada senão por Jamie (Juno Temple), uma assistente no mínimo ambiciosa e que, como um extra, fornece mais que almoços no seu escritório. É que continuamos nos anos 70 – e a gaveta da secretária de Jamie é rica em todo o tipo de comprimidos e substâncias.

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O problema em contratar novos artistas que tragam um som original pauta o quotidiano da discográfica. Sabendo que os seus executivos acabaram de recusar um contrato com uma pequena banda de “suecos oui oui” chamada ABBA, Richie enfurece-se ao afirmar que após ouvir apenas três compassos, sabe que encherão estádios um dia. Mas ainda existe um contrato milagroso, essencial para que a discográfica que já só dá prejuízo se possa vender. Chamam-se Led Zeppelin e estão quase a assinar pela American Century.

Mas no mundo de Richie nada parece querer correr bem. O advogado da lendária banda britânica descobre uma falcatrua financeira e cancela o acordo, contribuindo para a narrativa do negócio falhado. A juntar a tudo isto, o radialista e empresário “Buck” Rogers (Andrew Dice Clay) ameaça parar de passar as músicas da American Century devido a divergências com Richie, o que seria a morte do artista (não literalmente, mas lá perto) para uma companhia discográfica desta época. O problema é resolvido, para melhor ou para pior, de uma forma no mínimo interessante.

Numa série pautada pela excelência a todos os níveis, temos no entanto que deixar uma nota negativa para Olivia Wilde que dá vida a Dev. Com cartas já dadas no mundo da representação,  no início de temporada tem uma performance completamente apagada e que parece nada acrescentar a uma série recheada de personagens peculiares e com uma personalidade vibrante. No entanto, com a pista do envolvimento desta no universo de Andy Warhol anteveem-se desenvolvimentos certamente mais interessantes para a personagem.

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Em Vinyl está bem patente o cunho de Scorsese, um realizador cujos filmes normalmente se baseiam em torno dos seus protagonistas e onde os primeiros segmentos são já do meio da narrativa. Todo o espírito frenético que os anos 60 e 70 pedem, foi respeitado na íntegra por uma visão de autor que é implacável no que toca à crueza com que a realidade é mostrada.

Na passagem para o pequeno ecrã, Scorsese conseguiu manter-se fiel a si mesmo através do uso de segmentos longos e com uma edição que não deixa nenhum recurso técnico de lado. São passagens muitas das vezes abruptas, precisamente com o intuito de chocar o espectador, e que não podiam espelhar melhor os excessos da época.

Se num momento temos uma cena de um concerto onde o stereo quase que nos engole para dentro daquela atmosfera, no momento seguinte ensurdecedor é o silêncio. Se numa cena temos a típica câmara lenta, logo a seguir somos transportados para outra com um ritmo vertiginoso.

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São estas mudanças que dão ritmo à narrativa, complementando a música que é sempre usada com um propósito para além daquele de nos entreter. Marca os diferentes saltos temporais da história da série e faz com que o nosso ouvido e os nossos olhos funcionem em sincronia perfeita. Enquanto os blues remetem para as cenas mais antigas da vida de Richie, coincidentes com o início da sua carreira, o rock&roll progressivamente mais agressivo vai mostrando a ascensão e posterior decadência do protagonista.

O hip-hop e o disco sound aparecem abafados por um clima onde o rock é rei, mas fica a promessa de que terão influência no futuro de Richie após este perder o trabalho de uma vida ou não estivéssemos nós a entrar em plenos anos 70.

Já blues que só por si são demarcadamente melancólicos, em Vinyl têm uma carga emocional mais forte para Richie, uma vez que foi o estilo que primeiramente o fez apaixonar-se pela música e marcam um assunto mal resolvido na vida deste – Lester Grimes (Ato Essandoh). Este foi o seu primeiro artista, cujo som acaba comprometido pelas contingências do mercado e podemos dizer que a separação manager/artista não foi propriamente pacífica.

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O próprio jogo de luzes utilizado reflete o estado de espírito de Richie Finestra, levando o espectador a sentir ou a pelo menos entender aquilo por que este está a passar. A claridade dá lugar à neblina causada pelo uso excessivo de drogas e os tons mas frios cedem espaço a tonalidades mais quentes mostrando o ponto de ebulição em que a vida de Richie se encontra numa fase posterior em que perde a American Century.

O início da temporada está naturalmente recheado de referências a artistas, cantores e músicas da vida real. Não obstante à presença de gigantes da indústria já referidos, como os Led Zeppelin, ainda somos presenteados com outras pequenas gemas. É o caso da música Cha Cha Twist, que pela boca de Lester Grimes pode relembrar alguns fãs a versão homónima de Brice Coefield nos anos 60.

Por outro lado, a aparição da misteriosa Ingrid (Birgitte Hjort Sørensen) enquanto amiga de Dev transporta-nos de imediato ao universo de Andy Warhol e das suas superstars. Como o mesmo dizia, “no futuro, todos serão famosos por quinze minutos.” Previdente ou não, o artista descrevia já nesta altura as amargas realidades da indústria discográfica, com artistas a serem trocados e esquecidos numa eterna tentativa de se imortalizarem.

A falta de moralidade de Finestra que fazem dele o protagonista que todos amamos odiar, reflete a podridão e obscuridade do mundo da música que em Vinyl é posta a nu sem qualquer pudor. Desde o pagamento a estações de rádio para que certas músicas sejam postas, passando pela inflação de vendas, até a contratos mais e menos honestos com os artistas o véu do cinismo do meio é completamente levantado, convidando-nos e deslumbrando-nos com este mundo fetidamente maravilhoso.

Com um humor para lá do cínico, uma irreverência própria de uma altura em que os limites eram constantemente ultrapassados aliados à mestria de Scorsese, à visão hiper realista de Jagger que passou por tudo em primeira mão, e a um elenco estupendo, Vinyl tem todas as condições para se tornar num dos maiores êxitos televisivos de 2016.

A série da HBO estreia em Portugal no TVCine Series em simultâneo com os EUA, às 2h da madrugada de domingo para segunda. Os restantes episódios serão exibidos à segunda-feira às 22h15. Por enquanto vê ou revê o trailer:

http://www.youtube.com/watch?v=MMo8K0Bt-NA&feature=youtu.be
Artigo escrito por Helena Santos e Miguel Pais.