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GUIdance 2016 – ‘Kaash’: o equilibrio das três artes e a perfeição da (con)fusão de culturas

O Espalha-Factos voltou a acompanhar o GUIdance nesta sua sexta edição. Apesar de chegarmos com uma semana de atraso a Guimarães, ainda fomos a tempo de assistir a um dos melhores espetáculos feitos nos últimos anos. Será difícil para uma qualquer companhia superar o que se passou ontem à noite no palco do Centro Cultural Vila Flor. Kaash do coreógrafo Akram Khan conseguiu atingir a perfeição da dança e o equilíbrio fundamental de três artes: dança, cenário e som.

“E se” este é o significado de Kaash, a palavra que dá nome ao espetáculo de Akram Khan Company. É sobre esta condicional que partimos para uma descoberta de um mundo de transculturalidade, onde a dança contemporânea se funde com a dança tradicional hindu, o kathak. Falamos de dança sim, aliás Kaash é um espetáculo sobre dança apenas. Não é um espetáculo ilustrativo, não é contada nenhuma história, mas por trás de toda a abstração da dança, conseguimos salientar uma série de figuras e temáticas. Fala-se de deuses hindus, de ciclos de criação e destruição, de buracos negros, de forças e de controlo. E tudo está tão bem representado em palco e os bailarinos expressam-se até às pontas dos dedos. É impressionante como os detalhes contam e como tudo é tão bem pensado.

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Às dez horas o primeiro bailarino entra em cena. De costas para a sala que teima em atrasar-se a encher, espera que todos façam silêncio. Esta imagem é uma premonição que só descobriremos no fim do espetáculo. É assim de costas no escuro, mirando o fundo e aparentemente ignorando o público que Kaash começa e termina. Aquele corpo, aquela presença, algo ali que é superior a qualquer outra pessoa ou ser. Começam a surgir mais sombras e as silhuetas dos restantes bailarinos vão-se desenhando não sabemos de onde. Solta-se um som e imediatamente somos transportados para um outro mundo, o mundo de Khan.

A perfeição e o trabalho árduo destes bailarinos é perceptível ao primeiro movimento. São cinco corpos musculados, maciços, extremamente expressivos e desenhados. São pessoas imponentes, são deuses da dança e o público está presente para os adorar. Uma coreografia exigente e diferente, que não é para qualquer bailarino, nem da autoria de qualquer um. A mestria do coreógrafo inglês é retratada a cada momento. Não é só sorte ou bom gosto. É muito trabalho, muito estudo, muita dedicação e inteligência.

Kaash©JeanLouisFernandez
Foto: Jean-Louis Fernandez

Kaash tem em si a génese do trabalho de Akram Khan. Foi a peça que o consagrou em 2002 e com a qual arrecadou prémios e ovações sem fim, tal como a de ontem, onde uma sala esgotada aplaudiu em pé até não mais poder, gritou e não descansou até ter a certeza que mais ninguém voltaria a palco. Kaash é um espetáculo que funciona como uma ponte entre as duas danças deste coreógrafo, entre as suas duas culturas e onde as suas regras são notórias: arriscar, explorar o desconhecido, trabalhar a grandeza e manter a integridade artística.

Não há um defeito a apontar a este espetáculo. Tudo combina, tudo é uno, tudo funciona e tem sentido. Um espetáculo que causa arrepios, um espetáculo que influencia pessoas, que lhes dá a adrenalina e não as deixa dormir de noite. São os movimentos, o cenário e a música que não querem sair nunca da cabeça. Será sempre uma memória que estará bem presente para todos, graças à perfeição de três componentes: coreografia, cenografia e música.

Kaash©JeanLouis Fernandez
Foto: Jean-Louis Fernandez

O cenário é do reconhecido artista plástico Anish Kapoor. Parece ser um simples retângulo preto que se esfuma para um fundo branco, fundo esse que muda para tonalidades vermelhas, azuis e púrpuras, mas é um retângulo que emana energia, que produz um efeito fortíssimo no público. A determinada altura o palco é deixado pelo bailarinos. A música intensifica-se, aumenta de volume num crescendo ensurdecedor. Sentem-se as vibrações do som no próprio corpo, o público fixa aquele retângulo que aprece avançar sob a plateia, que a qualquer momento vai engolir a multidão que assiste numa escuridão.

A música não pára de aumentar, o desconforto e a inquietação na cadeira sente-se no público, o fim está próximo mas é incerto. Pode chegar a qualquer momento, há uma vontade de gritar, de fugir, de tomar uma atitude face àquela força que prende e enfeitiça. Pressente-se a catarse, há uma necessidade de libertação, estamos fundidos com a peça, entramos naquele mundo, naquele novo horizonte psicadélico, e… Pára. Silêncio, calma, voltam os bailarinos. A paz e a calma estão instauradas.

Fotografia: Jean-Louis Fernandez
Foto: Jean-Louis Fernandez

Cada uma das respirações que se ouvem, ofegantes quase sempre pela fisicalidade, velocidade, força e exatidão que o espetáculo exige, cada um dos silêncios, as pausas, as trocas de olhares são necessários para estabilizar. Pára-se para ouvir a música, o terceiro elemento essencial para a perfeição e equilíbrio deste espetáculo.

“E se” nada deste espetáculo existisse? “E se” estes três artistas não tivessem surgido? Provavelmente os deuses se uniriam e num dos seus ciclos de criação arranjariam forma de os juntar. Citando Pessoa“Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”. E que obra… São génios destes que se fundem para criar verdadeiras obras-primas. Na verdade para Khan fusão não é a palavra certa para definir o seu trabalho, considera-a muito superficial. Prefere intitula-la de confusão, vê mais sentido nisso.

Fotografia: Jean-Louis Fernandez
Foto: Jean-Louis Fernandez

Ficha Técnica

Direção artistica/ Coreografia: Akram Khan
Composição: Nitin Sawhney
Cenografia: Anish Kapoor
Design de Luz: Aideen Malone
Figurinos: Kimie Nakano
Interpretação: Kristina Alleyne, Sadé Alleyne, Sung Hoon Kim, Nicola Monaco, Sarah Cerneaux

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