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‘Career of Evil’: o pseudónimo de J.K. Rowling está de volta

Após o lançamento de O Bicho de Seda em 2014, o terceiro livro da saga policial do detetive Cormoran Strike, intitulado Career of Evil, foi lançado no ano seguinte, a 20 de outubro de 2015, no Reino Unido, pelas mãos da editora Sphere Books.

Este é a terceira obra assinada por Robert Galbraith, o pseudónimo de J.K. Rowling, autora da famosa saga Harry Potter. Uma saga altamente cativante, que fica cada vez melhor livro após livro, provando que J.K. Rowling é não só uma excelente contadora de histórias como consegue também dominar vários géneros literários.

Em Portugal, os dois primeiros livros, Quando o Cuco Chama e O Bicho de Seda, estão ao encargo da Editorial Presença. Esta terceira instalação, contudo, ainda não tem tradução oficial nem data de lançamento prevista.

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Blue Öyster Cult, banda americana que iniciou a sua carreira em 1967 e cujas músicas são mencionadas em todos os capítulos do livro.

O livro começa quando a nossa assistente favorita, Robin Ellacott, recebe no escritório uma encomenda inesperada: a perna de uma mulher, acompanhada por um excerto de uma música da banda americana Blue Öyster Cult. Graças a esta referência, Strike pensa que a pessoa por trás do sucedido é alguém do seu passado.

O detetive nomeia quatro suspeitos: Donald Laing, Jeff Whittaker, Noel Broackbank e Digger Malley. À medida que a polícia decide concentrar-se neste último, Strike suspeita que o verdadeiro culpado é um dos três primeiros, e decide tomar a investigação nas suas próprias mãos, acompanhado pela perícia e inteligência de Robin.

Como sabemos, Robin está noiva de Matthew e este livro contempla os preparativos para o casamento. Isto é uma facada no coração, porque desde que Robin entrou no escritório no primeiro livro, foi estabelecida uma clara tensão romântica entre ela e Strike. É aqui que entram as habilidades de J.K. Rowling enquanto escritora.

Os sentimentos de Robin e Strike nunca são explicitados em palavras. O público vai apanhando pequenas pistas através daquilo que as personagens fazem (ou não fazem), daquilo que elas pensam (ou não pensam). À medida que Robin e Strike se apercebem dos sentimentos que nutrem um pelo outro, fazem os possíveis e os impossíveis para os esconder.

Esta dinâmica foi brilhantemente inserida neste livro, já que o caso em questão, ao contrário dos dois anteriores, tem um cunho muito pessoal para o detetive. O criminoso é claramente alguém do passado de Strike e que aparentemente teve até alguma ligação com a sua falecida mãe. Em oposição às duas obras anteriores, Strike não é contratado por ninguém para desvendar um homicídio. O protagonista é que decide resolver o caso de forma independente, ao se aperceber que a sua vida e a de Robin correm perigo.career of evil book review

Claro que este é o pretexto perfeito para descobrirmos mais acerca das vidas pessoais de Strike e Robin. O detetive inicia uma relação amorosa com uma mulher chamada Elin e, a meio do livro, Robin rompe o noivado com Matthew, por razões externas. No meio de viagens, investigações e bebedeiras, os protagonistas acabam por confessar muitos dos seus segredos uns aos outros, nomeadamente que Robin fora violada enquanto frequentava a universidade.

Como sabemos, Strike perdera metade de uma perna na guerra. A dupla, antes do início da narrativa, recebera uma carta de uma rapariga que pedia conselhos a Strike para amputar a sua própria perna. A encomenda que Robin recebeu é rapidamente identificada como pertencendo a essa dita rapariga. Como se isto não bastasse, Robin recebe outra carta, contendo um dedo, acompanhado por mais excertos de Blue Öyster Cult.

A investigação rapidamente se torna numa corrida contra o tempo, à medida que o assassino continua a matar e desfigurar raparigas, tendo aparentemente como vítima principal a própria Robin. Uma das novidades interessantes deste livro é que são incluídos capítulos dedicados ao assassino, acompanhando os seus movimentos e as suas intenções, mas nunca revelando a sua identidade.

A dupla descobre a localização dos três principais suspeitos mas não possui quaisquer provas contra algum deles. Robin é finalmente atacada e, após a recuperação, decide tomar o caso pelas suas próprias mãos, dirigindo-se a Noel Brockbank, na esperança de encontrar respostas. O cenário dá para o torto e Strike, num ataque de raiva ao ver o seu negócio a cair e o noivado de Robin entrar novamente nos eixos, decide despedi-la.

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J.K. Rowling, o rosto por trás de Robert Galbraith.

A resolução do caso é o único aspeto negativo da obra e um momento altamente anti-climático. Com apenas três suspeitos na mesa, não só é difícil apontar um deles como o culpado, como é também bastante desmotivador. Quando o assassino é finalmente revelado e apanhado, Strike põe-se a caminho do casamento de Robin, na esperança de resolver a situação, conduzindo ao momento final do livro, que me partiu o coração em dois e do qual eu ainda não recuperei.

Robert Galbraith – ou J.K. Rowling – pecou ao apresentar um leque tão reduzido de suspeitos, não tendo até apresentando provas suficientes que nos fizesse realmente desconfiar de um deles. Ainda assim, este facto não é suficiente para denegrir o caso como um todo e tudo aquilo a que ele nos deu acesso.

No primeiro livro, fomos apresentados ao mundo da moda e da fama. No segundo, entrámos no universo da literatura e de fetiches sexuais. Aqui, o caso foca-se no ambiente da prostituição e de perturbações mentais. Embora as outras obras tenham sido igualmente excecionais, esta transmitiu um sentimento de estar com os pés bem assentes na terra, retratando a cidade de Londres numa luz nua e crua.

J.K. Rowling realiza descrições como ninguém: à medida que percorre o livro, o leitor tem acesso a diferentes locais de Inglaterra e ganha uma sensação extraordinária de que está realmente ao lado de Strike e Robin na investigação. Já para não falar que as personagens são altamente cativantes: Strike, um detetive banal que ganha na vida graças à sua coragem e ao seu raciocínio frio, e Robin, uma mulher encantadora, cuja beleza é rapidamente ofuscada pela sua destreza, o seu espírito de iniciativa e as suas capacidades de auto-defesa.

Os dois primeiros livros construíram o negócio do detetive e a entidade de Robert Galbraith enquanto autor. Esta nova obra veio revelar detalhes das vidas de Strike e Robin, numa dinâmica entre o profissional e o romântico construída à maneira de um verdadeiro génio. O livro apresenta um equilíbrio perfeito entre ação e reflexão, entre a vertente criminal e a vertente pessoal das personagens, num ritmo contagiante que prende o leitor desde a primeira página. Uma obra de mestre que me faz rezar para que a quarta instalação seja lançada o mais rapidamente possível.

Nota: 9.5/10

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