Tarkovsky_Capa

Andrei Tarkovsky: o escultor do tempo

Começa hoje um ciclo de cinema russo organizado pela Leopardo Filmes e a Medeia Filmes, durante o qual serão exibidas obras essenciais de cineastas como Andrei TarkovskySergei Eisenstein ou Dziga Vertov, muitas delas em versões restauradas. As exibições terão lugar no Espaço Nimas, em Lisboa, no Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto, e noutras localidades como Coimbra, Braga, Setúbal, Figueira da Foz e Castelo Branco.

Esta programação irá revisitar e celebrar, a partir do dia 11 de fevereiro, todas as sete longas-metragens de Andrei Tarkovsky: A Infância de Ivan (1962), Andrey Rublev (1966), Solarys (1972), O Espelho (1974), Stalker (1979), Nostalgia (1983) e O Sacrifício (1986). Também será feita a exibição de um dos seus projetos académicos, O Rolo Compressor e o Violino (1961), de alguns documentários e filmes de homenagem endereçados a este grande mestre russo da segunda metade do século XX.

Tarkovsky2

Com o seu filme O Espelho, Andrei Tarkovsky (1932-1986) deixou-nos uma fotografia suficientemente nítida de si próprio, à qual pouco me resta para acrescentar. Demito-me, portanto, de escrever uma nota biográfica; quero apenas referir que falamos de um artista que, durante o exercício da sua arte, foi repetidamente perseguido pela censura que vigorava no país em que nasceu e viveu, até partir para Itália, em 1982. No entanto, Tarkovsky não era o radical que tantos outros foram, movidos por intenções políticas. O que motivou, então, as “autoridades artísticas” da União Soviética a praticar esta continuada repressão?

Hoje sabe-se que terá sido a profunda religiosidade da sua obra a incomodar os censores. Os homens e mulheres que habitam o universo em ruínas de Tarkovsky, que faz lembrar o de Blake e de outros poetas “apocalípticos”, personificam um desejo de regeneração espiritual manifestamente cristão que, é claro, não estava alinhado com o ateísmo sistémico e institucionalizado da URSS. E, para além da transgressão temática, também o estilo do cineasta não satisfazia as expectativas dos seus compatriotas. O cinema de Tarkovsky exigia muito dos seus espetadores, chegava mesmo a encontrar-se num polo oposto ao da distração comercial. Tudo isto valeu-lhe críticas recorrentes na União Soviética (acusavam-no, entre outras coisas, de ser um “elitista”), apesar dos prémios e seguidores que ia acumulando internacionalmente.

A dificuldade intrínseca à sua obra deve-se, em grande parte, à natureza quase exclusivamente cinematográfica da linguagem que emprega. Tarkovsky é, antes de mais, senhor da imagem e do som, da sensação enquanto comunhão, não tendo, imediatamente, o alcance literário e dramatúrgico de um autor como Ingmar Bergman (que, por várias vezes, exprimiu grande admiração pelo trabalho do cineasta russo). Contudo, esta sua invulgar forma de fazer cinema produziu pequenos milagres de cor que sobrevivem ao escrutínio e à explicação, e, por isso, perduram.

Feita a introdução, seguem-se breves apontamentos sobre três dos meus filmes favoritos de Andrei Tarkovsky (presentes neste ciclo), que servirão, espero eu, para aguçar a curiosidade dos leitores que não estejam familiarizados com os mesmos.

 

 

Andrei Rublev (1966) – 10/10

andrei-rublev-main-review

Andrei Rublev foi um monge-pintor, que terá vivido entre 1360 e 1430, sobre o qual pouco se conhece para além do seu legado artístico (essencialmente, frescos e ícones religiosos). Esperar-se-ia que a vida deste artista resultasse num filme linear, que o acompanhasse do nascimento à morte, uma peça de psicologismo barato onde meros dados biográficos bastariam para justificar a arte de um homem. E, todavia, o drama histórico de Tarkovsky transcende essa condição de exercício museológico, e torna-se num campo de batalha metafórico (e, por vezes, literal), no qual se digladiam os temas fundamentais: fé e descrença, bem e mal, ordem e caos.

Ao lado de Rublev, excelentemente interpretado por Anatoly Solonitsyn, assistimos às convulsões de um império autoritário que não vê na experiência estética outro propósito que não o da disseminação do medo (em que medida serão estes tempos muito diferentes dos da URSS?). Uma das cenas que, a meu ver, perfeitamente define este filme é aquela em que o nosso monge desabafa: “eu não quero assustar as pessoas”. Rublev não pinta demónios, infernos, fins do mundo, porque crê numa teologia de amor e compaixão, mesmo quando está rodeado de males tão explicitamente presentes: violência, pobreza e doença. Sem querer revelar demasiado do enredo, num certo momento da grande peregrinação que é este filme, o monge-pintor achará a sua antítese, a sua sombra: um jovem rapaz construtor de sinos, cínico e orgulhoso, que tem uma conceção servil da arte, procurando, acima de tudo, a instrumentalização da sua expressão artística. Há que prestar atenção a estes subtis jogos de identidade e alteridade que se refletem em toda a filmografia de Tarkovsky, complementados pelo trabalho de câmara inconfundível, que, nas suas palavras, consegue “esculpir o tempo”, reconhecendo-se em Andrei Rublev esse seu gosto pelos longos planos meditativos.

 

Stalker (1979) – 10/10

stalker-1979-02-g

Stalker é a segunda incursão de Tarkovsky no género da ficção científica. A primeira, Solarys (1972), está agora um pouco datada, por culpa de alguns efeitos especiais e outros detalhes técnicos; já a ambição de Stalker não envelheceu, e ainda muito há por discutir e escrever acerca desta obra-prima que parece existir desde sempre: a sua intemporalidade é francamente assustadora.

Não adianta definir Stalker como uma adaptação livre de Roadside Picnic, romance de Arkadi e Boris Strugatski, quando o próprio Tarkovsky admitiu que as semelhanças entre livro e filme são mínimas. A história de extraterrestres dos irmãos Strugatski é usada enquanto pano de fundo para uma meditação filosófica de contornos religiosos que funciona como síntese do pensamento e poesia deste cineasta. Acompanhamos o percurso de três homens, o Stalker, o Professor e o Escritor, que viajam até a um território inóspito (a Zona) onde, diz-se, existe um quarto dentro do qual todos os maiores desejos de quem nele entrar serão concretizados. Logo pelos “nomes” das personagens se adivinha o pendor alegórico desta narrativa, mas a premissa permanece intrigante se for entendida literalmente.

A interpretação de Alexander Kaidanovsky é inesquecível, encarnando o Stalker, esse Jesus que prega em vão, com uma sinceridade desarmante. A fotografia, embora mais discreta aqui do que em obras como O Espelho, é maravilhosa: não exagero se disser que cada frame merece ser emoldurado. Todos estes elementos reúnem-se para compor um filme próximo da perfeição. Confesso que tive de revisitá-lo algumas vezes para que a sua magia surtisse o devido efeito; a primeira tentativa pode revelar-se frustrante para os menos pacientes. Não faltarão dias ao longo deste ciclo de cinema russo para ver e rever, as vezes que forem precisas, Stalker.

 

O Sacrifício (1986)- 8,5/10

TarkovskyOffret

O último e mais subvalorizado dos filmes de Tarkovsky é também aquele que o aproxima de Bergman. A presença do ator Erland Josephson e do diretor de fotografia Sven Nykvist, dois habitués do trabalho do cineasta sueco, muito contribui para isso, é verdade, mas encontramos, igualmente, diálogos e disposições teatrais que nos recordam dos clássicos bergmanianos.

Em O Sacrifício, Tarkovsky deixa cair algumas máscaras e ficam bem visíveis duas das suas maiores influências, que, não o esgotando, ajudam a melhor compreender o seu mistério: o Shakespeare inglês e esse outro Shakespeare russo a quem chamamos Dostoiévski. Raramente nos deparamos com um filme assim, que se atreve a manipular estas intertextualidades sem se tornar numa espécie de xarope intelectualista. O Sacrifício não é, porém, uma obra fácil; pelo contrário, é só um pouco mais acessível que o auto-indulgente Nostalghia (1983). Narra, com uma unidade de ação quase aristotélica, o dia de aniversário de Alexander, um jornalista e filósofo. A sua vida (e a dos familiares e amigos que com ele festejam) será drasticamente alterada por um fenómeno terrível, súbito. Como em tantas outras histórias do autor russo, aqui são recriados e explorados conceitos bíblicos, nomeadamente, o de “tributo”, o “sacrifício” que dá nome ao filme. Quando a parábola se fecha, perto do fim, Tarkovsky reserva-nos uma última surpresa: um plano-sequência tão ousado que parece impossível, sagrado. Depois de uma cena como essa, o resto é silêncio.

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Sam The Kid e Mundo Segundo no Campo Pequeno
Sam the Kid e Mundo Segundo levaram público de Gaia a Chelas [fotogaleria]