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De Brokeback Mountain a Carol: o cinema saiu do armário

Bem-vindos a 2016. O casamento homossexual é legal em todos os estados norte-americanos, em 13 dos países da União Europeia e o Cavaco será obrigado a promulgar a adopção por casais homossexuais, aprovada pela segunda vez na Assembleia da República.  Em jeito de comemoração, Carol estreou a semana passada pelas salas portuguesas e hoje é décimo aniversário da estreia de Brokeback Mountain em Portugal. Bem-vindos a 2016, e às semanas mais coloridas do ano.

Lembro-me de há dez anos atrás ter uma conversa sobre o Brokeback Mountain na parte de trás de um dos muitos pavilhões cobertos de tijoleira da minha escola básica, lembro-me de tantas conversas fiadas encostado nessa mesma tijoleira coberta de nomes e de mensagens de apaixonados e paixonetas de 5 minutos.

A minha família nunca foi muito de abraçar a cultura, a minha mãe chegava sempre demasiado cansada do trabalho para ainda me levar até Cascais (os cinemas mais próximos) para ver que filme fosse que não fosse aqueles da Disney de que todos os pais falam e se sentem na obrigação de levar os filhos. Mas mesmo assim, lembro-me da conversa sobre o Brokeback Mountain. Lembro-me porque um dos meus amigos, na altura éramos um grupo de 4 que andávamos sempre juntos, foi ver com os pais e… que crime… ele gostou.

Brokeback Mountain, realizado por Ang Lee
Brokeback Mountain, realizado por Ang Lee

“O amigo que foi ver o filme dos cowboys gay”

Na realidade nenhum de nós os três tinha visto o filme, mas na altura falava-se tanto dele que toda a gente no recreio sabia qual era. Era o filme dos “cowboys gay“. Lembro-me que o primeiro a reagir nesta conversa foi o “chefe do grupo”, aquele que tem mais força e acaba sempre por liderar a matilha. Ele começa a rir-se e a dizer que ele assim também era gay.

Começamos todos a rir. O amigo que foi ver o filme começa a tentar justificar-se, dizendo que tinha gostado mas não da parte entre os dois homens, isso seria gay. A partir dali ele ficou sempre como “o amigo que foi ver o filme dos cowboys gay”. Era engraçado se isto fosse tudo uma anedota, mas não é.

Enquanto criança há muita coisa de que me arrependo de ter feito. Culpo essencialmente a sociedade por este tipo de comportamentos, as crianças nunca nascem com preconceitos, são-lhes é transmitidos pela forma que são educadas. Não culpo a minha mãe, mas culpo sim o estigma e o sistema que a criou. Ainda hoje não percebo como é que as regras do recreio e da básica funcionam, apenas sei que é uma selva e que em 2006 era uma selva muito homofóbica.

Volvidos agora dez anos encontramo-nos num mundo bem diferente. Na semana passada fui a um café com vários amigos e reparei que estávamos lá os quatro novamente. O chefe da matilha (que entretanto se separou um pouco), o viciado em anime, o que viu o filme dos cowboys gay e eu.

Falámos de mil e uma coisas, de memórias ridículas da básica e do secundário, falámos do presente e principalmente do futuro, esse para sempre conhecido como o encoberto. Falámos também de filmes, muitos filmes. Desde a corrente soviética até ao Memento do Nolan, passando então pelo Carol de Todd Haynes.

Todos concordaram que estavam expectantes para ver o filme, principalmente depois de ter sido tão bem recebido em Cannes e das recentes nomeações aos Oscar. Lembro-me de lhes dizer o quão bom estava este filme que tive oportunidade de ver antes deles graças a um visionamento de imprensa. Lembro-me também de acrescentar o quão importante continua a ser que existam filmes como a Carol e A Rapariga Dinamarquesa nos dias de hoje, uma afirmação depois aprovada em unanimidade. Sei que o mundo é uma selva. Mas desconfio que a selva de 2016 é menos homofóbica que a de 2006.

“Coisas da Lisboa demasiado progressista e violenta”

Apenas agora, que estou a escrever este artigo é que penso na importância que esta corriqueira conversa de café teve. Além de termos seguido todos caminhos muito diferentes ainda temos em comum o facto de nós, o outrora imbatível “bando dos quatro”, termos crescido e experienciado uma infância bastante semelhante. Andámos sempre na mesma básica, numa pequena vila demasiado afastada da metrópole para que houvesse algum tipo de abertura de horizontes (onde ainda hoje se escrevem editoriais no quinzenário com mais tiragem da zona que apelidam a homossexualidade de “decisão”), tivemos os mesmos professores – uns com visões mais conservador e outros menos -, tivemos todos algum contacto com a religião e, como se fosse algo que existe apenas na ficção, nunca tínhamos tido qualquer contacto com a homossexualidade.

Isso não existia nessa altura nesta pequena vila, eram coisas da Lisboa demasiado progressista e violenta, eram coisas de americanos nos filmes e era algo demasiado tabu para sequer perguntar a alguém da família o que era ao certo. Mas mesmo neste contexto sentámo-nos nós a uma mesa de café a falar de um filme pelo filme que ele é. Pela fotografia, pelo desempenho das atrizes, a banda-sonora. E, dez anos depois da estreia de Brokeback Mountain, Carol não foi apelidado como “o filme das lésbicas“.

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Carol, realizado por Todd Haynes

Agora que penso em tudo, em retroespectiva, é que me apercebo o quanto estas duas simples conversas revelam toda uma mudança na mentalidade das camadas mais jovens da nossa sociedade. Não digo que o preconceito deixou de existir, claro que não. Ainda há um grande, longo e árduo caminho a percorrer, mas estes pequenos sinais são bastante animadores tanto para aceitação plena de todas as orientações sexuais como deste género de cinema, apelidado de LGBT, que ainda há uns anos atrás era olhado de lado pelo público mais mainstream que torcia o nariz a tais filmes, esclarecendo: “mas eu não sou gay, porque é que vou ver o Milk? (2008)”.

Cada vez mais esta mentalidade de pequenez e ignorância perante a arte e o entretenimento está a desaparecer, mas sempre achei engraçado este argumento. Se tudo fosse assim e todos nós fossemos retardados, os homossexuais não viam quase nenhum filme, porque “para quê ver filmes de heterossexuais?”, os bissexuais coitados ficavam para sempre em casa porque “para quê ver o Titanic com aquele casal hetero ou ver o A Vida de Adèle com aquele casal homo“? Para não falar já em questões raciais… Mas reparem agora…

É um facto que o mundo e a nossa sociedade percorreram um bom caminho nos últimos dez anos e isso denota-se logo pela forma como, por exemplo, Brokeback Mountain e Carol foram aceites pelo público e instituições conservadoras. O primeiro foi proibido em vários países por cenas tão “horripilantes” como simulação de sexo anal entre dois homens, em países tão recônditos como os Estados Unidos da América. É verdade, algumas salas de cinema, por todo o país da liberdade, recusaram-se a projetar e proibiram o filme de Ang Lee nas suas santas salas.

Carol, que também inclui desde já cenas de nudez e sexo entre as duas protagonistas, é, este ano, bastante falado principalmente pelas prestações das duas protagonistas e é, acredito, um filme que chamará um público mais heterogéneo às salas e não um filme com um determinado target, como aquele que foi ver o Brokeback Mountain. Carol é, acima de tudo em 2016, uma história de amor, um amor proibido, uma paixão temerária e uma loucura que se revela não temporária.

Assume-se assim como um filme não rotulado. Esses, os rótulos, caíram nesta volta de 10 anos e o cinema deste género terá de agradecer não só ao evoluir politicosocial do mundo (os direitos LGBT a serem finalmente reconhecidos um pouco por todo o lado a partir dos anos 10’s do século XXI), mas também à banalização deste tema nos meios de comunicação social e no mundo da arte e do entretenimento. Esta banalização que mencionei tem-se vindo a dar cada vez mais nesta nova década do século XXI.

A acompanhar a mudança dos tempos e a forma como a sociedade vê assuntos tão polémicos quanto o amor entre duas pessoas, o mundo do entretenimento tende, na verdade, a ser um dos grandes defensores da bandeira arco-íris que está já há décadas hasteada em cidades como Amesterdão e São Francisco.

5 casos que demonstram a mudança

Peguemos então em 5 casos que demonstram esta mudança na indústria e na forma do público de se relacionar com os filmes de temática LGBT. Milk (2008), Os Miúdos Estão Bem (2010), Weekend (2011), A Vida de Adèle (2013), Tangerine (2015).

É quase engraçado ver isto por esta ordem cronológica, porque podemos percepcionar como o próprio cinema do género evoluiu. O primeiro como o filme de intervenção que na altura ainda gerou alguma polémica. O segundo como o filme que tocou demasiado cedo num assunto que ainda estava fora de questão nos EUA. O terceiro que foi um indie que ousou já mostrar cenas de sexo bastante realistas entre dois homens. O quarto como a grande surpresa de Cannes, o filme de ouro europeu em 2013 e o catapultar do género LGBT para o mainstream. E finalmente o quinto, o filme sem quaisquer pudores que se atira a temas tão tabus como a prostituição e transexualidade.

A Vida de Adèle, realizado por Abdellatif Kechiche
A Vida de Adèle, realizado por Abdellatif Kechiche

Através destes cinco filmes percebemos o quanto o mundo do entretenimento ajudou na mudança de mentalidades, algo que também se deve ao advento da internet e ao uso do espaço público virtual de uma maneira mais crítica e também criativa (sites como o Tumblr e o YouTube foram importantes veículos para o transportar da cultura LGBT para o mainstream).

Lembro-me que Milk, filme que aliás deu o segundo Oscar a Sean Penn, foi um filme de receitas modestas para um “oscar contender“, mas que não foi por isso que deixou de fazer alguma polémica no ano em que estreou, principalmente pela sua veia mais ativista e de um caráter algo interventivo.

E por esta ordem temporal, através destes 5 filmes, vamos percebendo uma nova tendência no seio do cinema LGBT. Há cada vez mais um aproximar ao real e, desde logo, uma nova máxima – a do realismo / neorealismo – que vão tornando estes filmes cada vez mais banais. Digo isto não no sentido pejorativo. Banalidade no sentido em que a temática se torna cada vez mais acessível, mais normal aos olhos de um tipo de massa que consome apenas cinema muito agarrado à lógica de estúdio, a um certo tipo de narrativas e que não está habituada a ver filmes românticos de casais não convencionais.

Com filmes como o Weekend (um filme indie que, mesmo não tendo tido qualquer saída no ano de sua estreia se tornou num filme quase cult do cinema independente mais recente), Vida de Adèle e o mais recente Tangerine vamos vendo cada vez mais filmes LGBT que são conhecidos não só por essa sua característica. O facto de tratar temas de minorias, de os protagonistas serem gays, lésbicas ou até transexuais não faz com que estas sejam as únicas temáticas de que a audiência fale.

A homossexualidade no cinema da segunda década do século XXI já não é um tema monopolizador e não se torna, jamais, na única característica do mesmo. Os filmes não são monocromáticos, não são monossílabos, não são unidimensionais. Nunca o foram. Em 2006 a audiência não estava era preparada para perceber isso e, talvez devido à ignorância ou falta de sensibilização, rediziam obras como Brokeback Mountain a esse mesmo rótulo e também a um tipo de público. Reduziam a obra, principalmente, a algo unidimensional e é a descoberta da pluridimensionalidade do cinema LGBT que estamos a celebrar neste artigo e, acima de tudo, nesta data.

Tangerine, realizado por Sean S. Baker
Tangerine, realizado por Sean S. Baker

E agora acabo com uma nota para aquele leitor mais conservador, aquele mais submergido pelos estigmas e sombras de uma sociedade que ainda tem muito para crescer e colmatar. Aquele leitor de horizontes cerrados e cheio de ódios de estimação – que acredito que represente uma milésima fatia dos leitores que acompanham o Espalha-Factos. Esta nova fase do cinema não é uma tendência nem uma moda da cultura pop, esta mudança é a abertura das mentes, é o crescer do Humanismo, da compreensão e aceitação das diferenças.

Só não o vê quem ainda tem muito a negar e para vocês, público que ainda torce o nariz e leitor que exclama de raiva: não culpem os outros pelas vossas relações falhadas ou frustrações pessoais, não culpem ou torçam o nariz à arte por ser de uma certa maneira, não sejam tão rápidos a gerar preconceitos e, depois de tudo isto, abram os horizontes, vejam para lá do que vos foi transmitido por gerações anteriores. Ou, simplesmente, saiam do armário.

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