Aurora dos Criatura

Crítica: “Aurora” da Criatura

Às 7h38 nasceu o sol. Às 7h38 deu-se a Aurora da Criatura. Um disco assente em raízes rurais, tradicionais e mensagens fortes.

Foi uma epopeia de dois anos. Gravado em Serpa, nas planícies do Alentejo, Aurora levou o seu tempo a subir do horizonte. Com a ajuda do Coral Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, que se faz ouvir tão bem com o seu cante alentejano, Criatura dá à luz um disco com uma mensagem tão forte quanto a voz que carrega.

Ao ouvirmos Filhe Pastor Sem Cajado, os dois temas de antecipação do álbum, percebemos que estamos na presença de um disco que alia a sonoridade rural à atualidade lírica. Na verdade, são músicas capazes de arrepiar. Filhe é uma introspeção. “Criaturas todos somos, todos Filhe de ninguém. E sejam avós ou pais, todos são Filhe de alguém.” A música cresce, multiplica-se e à medida que a intensidade sobe, sobe também o ritmo cardíaco, a respiração torna-se mais rápida e quando acaba damos por nós satisfeitos. O álbum tem oito faixas, mas poderia ter só uma e chamar-se Filhe.

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Pastor Sem Cajado tem uma sonoridade mais ritmada, como se estivéssemos na presença de um terrier na caça da lebre. “Tanto verde pr’ ocupar,/Tanta terra pr’a cavar,/Tanto velho p’ ajudar,/Tanto novo a zarpar.” O segredo está na letra cantada na métrica de Godinho, onde as palavras se somam e se somem, ficando cravadas como um cajado na terra que apalpa.

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Aurora é, talvez, o momento mais épico do álbum. Aparece-nos como uma epopeia que começa no interior do país, se estende ao litoral e navega pelo mar alto. “Quem espera e não desespera, sempre alcança.” Assente em provérbios tipicamente portugueses, é um tema tão musicalmente belo como bem produzido. À boleia de “A água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.“, somos levados a numa viagem que não quer acabar. Quem não se arrepiar que atire a primeira pedra.

Moda Nova e Menina da Paz são os momentos em que o cante alentejano se faz ouvir. Aqui percebemos o porquê desta arte ser agora Património Cultural Imaterial da Humanidade. Em Menina da Paz voltamos a ouvir a voz de Zeca Afonso, aliado à sonoridade de Sérgio Godinho. Os trejeitos de jazz deste tema confirmam que este disco é eclético, casando a sonoridade tradicional da guitarra portuguesa à sonoridade intelectual do jazz.

Tempo Algaraviada fecham o álbum, num final de trava-línguas e anedotas alentejanas. O ponto fraco deste disco está em Algaraviada, uma música que está desenquadrada.

Aurora é um álbum em dois momentos. Começa de forma muito intensa, com letras fortes e sonoridades profundas e acaba com sonoridades mais vivas. É um disco consistente, onde o ponto fraco reside numa ou outra música fora do sítio. Não é o melhor disco nacional deste ano, mas isso não retira beleza ao álbum. Com músicas excecionalmente bem construídas, a Criatura mostra que o interior do país ainda existe, contra tudo e contra todos.

Aurora pode ser escutado aqui:

Nota final: 6,7/10

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