Há pessoas que mudam a nossa vida para sempre“. O slogan prometedor de Carol quase que podia adivinhar a excelente recepção que o filme tem tido pela crítica internacional e pelos vários circuitos de prémios deste e do passado ano. E a verdade é que essa expectativa criada é mais que merecida, pois Carol é não só um filme extremamente competente como também extraordinariamente cativante e envolvente.

A película deambula por volta dos anos 50 para apresentar pedaços da vida de duas mulheres, peculiares de diferentes formas, que se apaixonam numa Nova Iorque que transparece a complacência própria da época natalícia. Therese é a jovem indecisa e sonhadora que ama a fotografia mas que está ainda em busca de si própria. Carol é a mulher mais velha, mais madura, segura de si mesma e deliciosamente intrigante e misteriosa.

De forma mais específica, Carol justifica indubitavelmente o título conferido à longa-metragem. Ela é a alma do filme.  E Cate Blanchett, detentora do peso da responsabilidade aparentemente premeditado da sua personagem, é exatamente aquilo que se espera que seja (e um pouco mais). É a senhora e dona de uma narrativa que já não gira só em redor da personagem como também da sua atriz – pela forma como esta se revela perante a câmara, como se desvenda subtilmente ao espectador sem perder a sua complexidade e profundidade. É este interessantíssimo exercício que o cinema de Todd Haynes continua a executar minuciosamente, esse “outro lado do espelho” que o cinema ainda tem a capacidade de ser, o que a relação argumento-câmara-atriz ainda consegue transformar em vez de (re)produzir.

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E se a performance de Cate Blanchett merece rasgados elogios, esta só fica verdadeiramente completa com a sua articulação com a doçura e a inocência de Rooney Mara . É através dos seus olhos que somos conduzidos, pela mão delicada de Blanchett, e acabamos por crescer com a personagem. Neste caminho, observamos uma química genuinamente forte entre atrizes que volta a constituir-se como prova de um excelente trabalho de atores desempenhado por Todd Haynes.

Todavia, a realização de Haynes não se esgota aí. A um filme que numa primeira impressão retrata um enredo tipo de uma narrativa LGBT, o cineasta acrescenta-lhe a sua sensibilidade. Esta percorre as ruas de Nova Iorque e as estradas americanas com uma graciosidade estonteante e uma incrível atenção ao mistério e ao detalhe. É especialmente esta atitude que permite a Todd Haynes aproximar-se de uma visão moderna e individual daquilo que foi o próprio olhar do cinema clássico americano e de alguns dos seus grandes mestres (Alfred Hitchcock, Billy Wilder,…).

Talvez a afirmação pareça exagerada ou estranha, mas tudo tem a ver com a sensação que o realizador e a sua equipa conseguem criar no espectador. De facto, o que sobressai em Carol é a desconstrução do filme LGBT. Isto porque o romance é tratado com a mesma elegância do cinema que tão bem conhecemos e que chegou a constituir a idade de ouro de Hollywood. Carol é despretensioso e singelo. É pura e simplesmente uma história de amor.

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O filme fecha-se, no entanto, nessa ideia. Não há um olhar histórico-social de grande escrutínio na narrativa. Existem pistas. E talvez esse olhar proporcionasse, se bem integrado, uma interessante e original perspectiva à construção fílmica. A complexidade da fita está a um outro nível, guardada propositadamente nos alicerces e nas nuances das relações humanas.

Belo, subtil e inspirador Carol não é, porém, um filme para todos os públicos. Não é por isso que deixa de ser o epítome de um ótimo trabalho – desde a construção do argumento até aos toques da montagem final.

9,5/10

Título: Carol
Realizador: Todd Haynes
Argumento: Phillys Nagy adaptado da obra de Patricia Highsmith
Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Kyle Chandler
Género: Drama
Duração: 118 minutos