Miguel Ramalho
Foto: Bruno Simão

Programa Dança e Documentário da CNB: um jogo de contrastes e a procura do humano

Miguel Ramalho é um dos bailarinos da Companhia Nacional de Bailado. Tem uma técnica perfeita, um movimento limpo e preciso, uma interpretação intensa e uma ligação com o público fortíssima. Durante 2015, Miguel esteve em alta. Foi reconhecido, falado e pode-se dizer que foi um ano de grande relevo na sua carreira. Ele foi o escolhido para o primeiro trabalho de Faustin Linyekula, o artista congolês que é o Artista na Cidade de Lisboa em 2016.

No último dia de janeiro, Miguel Ramalho subiu pela última vez a palco para mostrar I Miguel, a primeira peça de autoria coreográfica de Faustin Linyekula. Foi no Teatro Municipal do Porto – Rivoli que se assistiu a uma peça de contrastes, de intensidade, de vivências. Falamos de Miguel, de Faustin, de Portugal e do Congo. Falamos do eu, falamos do outro, do eu ser o outro e de não ser ninguém.

Miguel está sentado já em cena com uma lamparina de luz. Fuma um cigarro. Espera que todos cheguem, que todos se sentem e se acalmem. Mais do que esperar o público, Miguel espera que ele mesmo esteja pronto, sereno, concentrado para começar.  É Pedro Carneiro, o percussionista, quem dá o toque no gongo, e aquele forte som quebra a ligação entre o momento presente e o momento da performance.

Fotografia: Bruno Simão. Facebook oficial da CNB
Foto: Bruno Simão.

I Miguel é mais que uma coreografia ou uma dança

Entrando no retângulo de serradura, Miguel reencontra-se com o espaço exterior de Studios Kabako, o lugar do projecto de Faustin na cidade congolesa de Kisangani onde o solo foi criado. “Através do corpo, a terra sustenta as minhas ideias”, sussurra Linyekula a Miguel enquanto o bailarino improvisa, desenvolve o seu movimento e cria o seu eu. Tal como as árvores criam raízes, absorvem o que o meio lhes dá e crescem, também as pessoas são feitas daquilo que as rodeia. Mas há mais em cada um, há uma formação que cria cada um diferente do outro. Miguel e Faustin são dois homens ligados à sua terra, mas que cresceram e foram além sem nunca esquecer o seu solo-mãe.

Em I Miguel há mais do que uma coreografia ou uma dança. Há uma vivência e uma experiência marcada, vemos a cumplicidade entre bailarino e coreógrafo. É uma peça introspectiva, uma dança das entranhas, algo criado e que surgiu da simbiose entre estes dois artistas. Faustin foi conhecer a vida de Miguel à margem sul, Miguel passou três semanas na terra de Faustin. Num jogo de dar e receber, de partilha de ideias e de sabedoria, de histórias e de sensações, esta peça foi-se desenvolvendo.

Fotografia: Bruno Simão. Facebook oficial da CNB
Foto: Bruno Simão.

É o solo de Miguel, um solo só dele e que só ele será capaz de fazer. Não pela dificuldade dos movimentos, pela exatidão técnica ou por qualquer outra razão. É o solo de Miguel porque o conceito é só dele, o movimento abstrato é só dele, o sentimento é só dele.

Miguel está em palco e o público sente que há algo que ele quer mostrar. A dança abstrata tem algo aprisionado em si. Há uma mensagem confusa: há algo sobre contrastes, sobre diferenças, sobre estranheza e desconforto. No entanto há calma e plenitude, tudo está sereno e em harmonia. Rapidamente saltamos para o extremo oposto e voltamos ao rigor, ao exato e à brutalidade.

I Miguel é um solo sobre ligações. O corpo no espaço, a música no corpo, as sensações a coordenador, os movimentos a surgir. Há uma envolvência na performance e na temática. Há mudanças bruscas, contínuos serenos e uma queda constante no limbo entre Portugal e o Congo, entre Miguel e Faustin, entre o corpo e a natureza.

Fotografia Bruno Simão. Facebook Oficial CNB
Foto: Bruno Simão.

Miguel sai de cena. Fuma mais um cigarro. A tela cai e há uma ruptura com tudo o foi vivido e revivido. Vemos Miguel de olhos fechados, ouvimos Faustin a dar-lhe indicações não tanto sobre o movimento mas sobre o corpo e o que sentir. Fala em ligações e em como elas são o começo de tudo. Dançar é ligar por isso tudo parte da dança.

Um documentário feito de pessoas

E foi da dança que surgiu No escuro do cinema descalço os sapatos, o documentário de Cláudia Varejão em homenagem à CNB. Há quarenta anos que a Companhia Nacional de Bailado percorre os palcos do país. Conhecemos várias caras em cima de palco, vimos peças e ouvimos histórias, mas sabemos realmente quem faz a companhia? Foi com isso que a realizadora se preocupou, em trazer o lado humano a público, revelar o que se passa nos bastidores, quem são estes bailarinos e essencialmente de que são feitos.

Durante um ano Cláudia Varejão descalçou os sapatos e entrou na CNB. Foi convidada a visitar a companhia, a observá-la, a gravá-la e a fazer um filme documentário com isso. Sem regras ou limitações, Cláudia percorreu os corredores do Teatro Camões, acompanhou digressões, invadiu bastidores, assistiu a aulas e treinos.

Percebeu que a CNB é feita de pessoas. Os bailarinos, por mais que pareçam seres idílicos, são pessoas, muitas delas afastadas e desenraizadas. A frustração, o cansaço, o desgastes e a angustia de ser bailarino estão bem retratadas, tal como a alegria e bem-estar que a dança lhes proporciona. A procura do detalhe, o confronto com a falha, a mistura de sentimentos, a busca da perfeição,  a vitória e a consagração de mais um momento na vida de um bailarino. De uma forma ou de outra Cláudia consegue transpor tudo para a tela.

As conversas entre bailarinos e coreógrafos são verdadeiros ensinamentos, lições de dança e explicações da vida.  São palavras sábias que mostram como saber lidar com a essência do que é ser pessoa.

Há momentos de cumplicidade entre bailarinos, há ensaios, aulas e espetáculos, há momentos triviais do dia a dia como uma massagem ou o arranjar os sapatos de ponta. Falta o outro lado da companhia, os técnicos, os figurinistas, os cenógrafos ou as histórias dos arquivos. Foi uma opção pessoal em pegar pelo lado humano de quem agora constitui a companhia e essa não será uma opção menos viável. O gesto é transformado em imagem. O corpo não permite mentiras e é este que expressa tudo.

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