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‘Persépolis’: uma autobiografia sobre guerra, revolução, família e punk rock

Persépolis: A história de uma infância e a história de um regresso trata-se de uma memória gráfica, contada num tom franco e cativante por Marjane Satrapi, ilustradora e autora franco-iraniana. Uma banda desenhada autobiográfica que, em 351 páginas, ilustra de forma dramática, mas pessoal, a maneira como os regimes repressivos deformam a vida quotidiana dos cidadãos.

Marjane Satrapi, a primeira iraniana a escrever BD, aborda as grandes mudanças com que o seu país se confrontou, através de uma narrativa pessoal, constituída por 39 capítulos, que nos permite acompanhá-la desde a infância até à idade adulta. São-nos relevados costumes e relações familiares e sociais como parte constituinte da história do Irão, no período de 1978 até aos anos 90.

“Aos 6 anos tinha a certeza de que era o último profeta. Foi uns anos antes da revolução” – Marjane Satrapi in Persépolis

Em 1979, ocorreu a Revolução Iraniana, que destituiu o Xá, o representante da monarquia, e instaurou a República Islâmica. Marjane Satrapi tinha apenas 10 anos quando os costumes ocidentais, antes praticados, foram proibidos. É no seio de uma família moderna e avant-garde que terá de encontrar o equilíbrio entre a religião, com que nasceu, e a educação com que cresceu.

Na infância, Marjane Satrapi, que andara numa escola laica francesa, na qual rapazes e raparigas aprendiam em conjunto, confronta-se com o uso obrigatório do véu e com a separação de géneros. Nas manifestações nas ruas pró e contra o véu, a sua mãe gritava pela fação a favor da liberdade. Fotografada por uma jornalista alemã, a revolucionária ficou com medo e pintou o cabelo. Satrapi, por outro lado, estava muito orgulhosa da fotografia publicada em todos os jornais europeus.

Marjane sabia muito sobre a revolução, sobretudo porque os pais faziam questão que lesse sobre o assunto. A sua obra favorita tratava-se, no entanto, de uma banda desenhada, chamada Materialismo Dialético, na qual figuravam Marx e Descartes. Um dia, quis ser como os pais e manifestar-se. “Para a revolução vingar, tem de ter o apoio de toda a população”, afirmou. Mas era demasiado perigoso.

Durante a infância, Marjane vive a revolução contra a moral islâmica através de relatos familiares. Do seu pai, que lhe conta que o imperador deposto era o pai do avô. Da mãe, que lhe confessa o medo que sentira em criança cada vez que ouvia bater à porta. Da avó, que viveu na miséria e que fingia cozinhar para os vizinhos não perceberem. De prisioneiros políticos, amigos dos seus pais. Do seu tio Anoosh, que esteve na prisão durante nove anos. De quem estivesse disposto a contar-lhe uma nova história.

“A razão da minha vergonha e da revolução é a mesma: a diferença entre classes sociais” – Marjane Satrapi in Persépolis

Desde cedo que Marjane revela abraçar a cultura ocidental. Apesar do amor à tradição persa, sempre quis usar ténis Nike, depilar as pernas e escutar Kim Wilde e Iron Maiden. Por questionar as regras e saber gritar mais alto que o seu agressor, os pais acabaram por enviá-la para a Áustria para que pudesse viver em segurança.

Foi em Viena que a autora viveu a sua adolescência. Após conhecer Julie, Momo, Olivier Thierry, descobriu o anarquismo e Bakunine, a história da comuna e Sartre, o autor favorito dos seus companheiros. Nessa altura, leu muito para entender tudo, mas nunca se esqueceu que para se cultivar tinha de compreender-se, primeiro, a si, Marjane Satrapi.

Durante uns tempos esteve afastada da sua cultura, tendo chegado a negar a sua própria nacionalidade. Na altura, “o Irão era o epítome do mal” e ser iraniana afigurava-se-lhe como um fardo difícil de carregar.

Ao longo de Persépolis, Marjane define-se como uma mulher rebelde, progressista e emancipada face aos fundamentalismos religiosos. A sua obra é um testemunho singular que não deixa de ser, na expressão de Ruth Leys, “inerentemente política e coletiva”, apresentando-se também, e por isso, como uma memória cultural.

“Podemos perdoar, mas não devemos nunca esquecer” – Marjane Satrapi no prefácio de Persépolis

Com desenhos realistas sem serem particularmente ricos, que permitem que a carga emocional se concentre no enredo, Persépolis é, antes de mais, uma autobiografia. Mas não o é, de maneira alguma, nos moldes tradicionais. Narrada com ilustrações monocromáticas, destaca-se com eloquência, apesar da simplicidade, e revela-se inteligente, divertida e comovente. Marjane Satrapi desvela não apenas as suas memórias como uma mulher que cresce no Irão durante a Revolução Islâmica, como transmite, de forma profundamente humana, uma mensagem universal de liberdade e tolerância.

Nota: 10/10

Ficha Técnica

Título: Persépolis

Autor: Marjane Satrapi

Design da capa: Ana Monteiro

Tradução: Duarte Sousa Tavares

Revisão: Raquel Dang

Editora: Bertrand Editora

Páginas: 351 páginas

Preço: 16,50€ (na Fnac)

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