Na passada terça-feira a Academia anunciou a reavaliação dos seus nomeados. Porquê? Porque pelo segundo ano consecutivo não houve nenhum ator afro-americano nomeado, resultando numa campanha para boicotar a cerimónia dos Oscares 2016

Liderada pelo realizador Spike Lee (que este ano receberá um Prémio Honorário na cerimónia) e pela atriz Jada Pinkett Smith, a campanha tomou a forma de hashtag: #OscarSoWhite.

Apesar do reconhecimento internacional que as interpretações de atores afro-americanos estão a ter este ano (nomeadamente Will Smith em A Coragem de um Campeão, Jason Mitchell em Straight Outta Compton e Michael B. Jordan em Creed: O Legado de Rocky) a Academia de Hollywood não nomeou nenhum deles.

Questões desta natureza implicam uma reflexão: terá a Academia subvalorizado performances com base na cor da pele dos atores? É no sentido de não te deixar sem respostas para este debate que o Espalha-Factos apresenta 5 interpretações de atores “não-brancos” que foram inequivocamente subvalorizadas pela Academia.

Denzel Washington – Malcolm X – 1992

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O ano dedicado à consagração de Al Pacino e de Clint Eastwood foi também ano de ignorar o épico de Spike Lee. Uma das mais fortes biografias da história do cinema, Malcolm X é um filme extremamente agressivo.

O espírito pregão de Lee tocou sempre no nervo errado da Academia, que poucas vezes premiou filmes com uma mensagem que não considerasse “politicamente correta”. E isso traz-nos à performance de Washington. Considerado um dos melhores atores da sua geração, Denzel já tinha vencido o prémio de Melhor Ator Secundário com Tempo de Glória em 1990 e em 2002 mereceu o prémio de Melhor Ator Principal, com Dia de Treino. E embora ambas sejam grandes interpretações, nenhuma se equipara à inesquecível experiência de o ver a personificar o génio da oratória americana. Dividido entre as duas facetas do seu personagem (antes e depois de encontrar a fé), esta é sem dúvida umas das melhores interpretações dos últimos 25 anos.

Samuel L. Jackson – Pulp Fiction – 1994

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Esta foi a única vez que a Academia achou por bem nomear Jackson. E não ganhou. Contam-se pelos dedos de uma mão as personagens na história do cinema que são mais memoráveis (e citadas) que Jules Winnfield.

Poético como só ele sabe ser, Samuel L. Jackson debita articuladamente o diálogo lendário de Quentin Tarantino, dando-lhe corpo e alma: como se Shakespeare tivesse renascido na América com um queixo maior. No entanto, o valor desta interpretação vai para lá da sua coolness superficial: a capacidade de demonstrar várias facetas humanas, como o medo, a agressividade, a determinação, a calma e a reflexão, fazem desta uma das mais complexas personagens já criadas pelo realizador de Os Oito Odiados.

Maribel Verdú – Y tu mamá también – 2001

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Há atores espanhóis para além de Javier Bardem e Penélope Cruz: mas muitas vezes a Academiaesquece-se”.

O exemplo mais flagrante foi a não nomeação de Maribel Verdú pelo muito aclamado Y tu mamá también: o primeiro grande êxito do realizador Alfonso Cuarón. Este filme indicado para o prémio de Melhor Argumento Original descreve as aventuras de dois jovens amigos (belissimamente interpretados por Diego Luna e Gael García Bernal) enquanto conduzem em direcção a uma “praia” paradisíaca na companhia de uma mulher adulta (Maribel).

De uma leveza de espírito extraordinária, a performance da espanhola cativa pela sensualidade mas também pela amargura ambígua que a controla. A atriz, apesar dos seus 31 anos de carreira, ainda não conta no currículo com qualquer nomeação aos principais prémios de Hollywood.

Leandro Firmino – Cidade de Deus – 2002

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Bom de mais para ser ignorado pela crítica internacional, o magnum opus do realizador Fernando Meirelles apaixonou o mundo no ano de 2002.

A crueza do tema misturada com a energia da fotografia e da edição elevou este clássico do cinema brasileiro a patamares inimagináveis. No entanto, não levou para casa um único prémio (dos quatro para os quais esteve nomeado), nem uma óbvia nomeação para Melhor Filme Estrangeiro.

Uma interrogação menos gritante, mas não menos evidente, é a exclusão do ator Leandro Firmino (no papel de Zé Pequeno) do lote de atores secundários nomeados. É da sua boca que sai a mais conhecida deixa de cinema em português (imprópria para aqui escrever). É da sua performance que nasce a tensão de toda a narrativa. E é através dos seus olhos fulminantes e do seu sorriso sádico que este filme se torna numa experiência inolvidável.

David Oyelowo – Selma – 2014

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A vitória de 12 Anos Escravo no ano anterior gerou alguma controvérsia, com alguns membros da Academia a admitirem que votaram na obra de Steve McQueen sem a terem visto. Se isto dificultou ou não a vida a Selma, realizado por Ava DuVernay, é desconhecido.

Facto é que com apenas uma nomeação (para Melhor Canção Original) o filme sobre Martin Luther King Jr. recebeu também uma indicação para Melhor Filme. À parte de toda a controvérsia, o ator David Oyelowo abraça o difícil papel que lhe foi confiado e faz um trabalho extraordinário. Num ano em que Bradley Cooper foi nomeado por um desempenho facilmente esquecível em Sniper Americano, Oyelowo podia e devia estar na lista da Academia por ter dado ao mundo a melhor interpretação possível do ícone norte-americano.

Performances em filmes que não tenham sido nomeados para nenhum Oscar não foram contabilizadas.