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Brooklyn: uma história de emigração que ninguém quer saber

Não, não gostei do filme. Não, não li o livro de Colm Tóibín no qual este filme, realizado por John Crowley, foi adaptado, mas depois desta experiência também não o irei ler. E não. Não quero saber dos feedbacks positivos que esta obra tem vindo a receber. Esta é uma história fútil, num filme pretensioso e uma visão completamente plástica sobre o “sonho americano”.

Nos anos 50, Eilis Lacey (Saoirse Ronan) é uma imigrante irlandesa a viver em Brooklyn, Nova Iorque, nos Estados Unidos. A tristeza das saudades de casa rapidamente cedem perante a emergência de um novo amor. Mas, com o passar do tempo, o que deixou para trás volta a ressurgir e ela terá de escolher entre os dois países e as possibilidades de vida que cada um deles lhe oferece.

Por onde começar? Talvez pelo ponto que, para mim, menos resultou nesta salganhada a que chamam filme. O argumento. Aqui também admito a minha falta de competência para falar da narrativa por não conhecer a obra de Tóibín que, espero, esteja melhor consolidada que nesta algo sofrível adaptação. Na verdade o filme que Crowley oferece tem tanta coisa de errado que é difícil começar a enumeração, mas vamos então tentar: Primeiro de tudo o escusado e falso embelezamento da emigração. Em segundo lugar, a facilidade do “sonho americano”. Em terceiro, a rapidez na resolução de problemas tão grandes como a perda de identidade e o afastamento de casa. Juntando tudo isto, Brooklyn oferece-nos um retrato fraquíssimo de uma história com tanto potencial. Uma desinspirada e feia pintura que se demarca principalmente por ser artificial, plástica e sem qualquer ponta de estilo criativo.

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Emory Cohen e Saoirse Ronan como Tony e Eilis

E é neste despreocupado e pretensioso pegar de tema que Brooklyn falha redondamente. Este cenário pintado da emigração como algo superficial, o glorificar duma América pujante e cosmopolita contra a retrograda e conservadora Irlanda provinciana. Tudo se torna tão plástico e tão cliché, chegando a ser desrespeitoso até. É um filme para americanos e um filme de glorificação do “sonho americano” completamente desnecessário, numa sessão de auto-comiseração sem qualquer fundo ou dimensão que justifique a vontade de trazer esta narrativa ao grande ecrã.

Se não bastasse podemos juntar a isto tudo um trabalho horrendo na construção das personagens, sendo que o mais gritante é a forma quase ilógica e sem consistência que Eilis – a personagem principal interpretada por Saoirse Ronan – é dada a conhecer ao público. Temos uma protagonista completamente perdida no meio de uma confusão de sentimentos sem qualquer dimensão. As tristezas passam num cortar de plano, as mágoas, nostalgias e saudades da casa (um tema que podia ter sido tão bem explorado por ser tão relacionável a uma determinada faixa etária) são tão passageiras e leves que nos fazem crer que esta irlandesa é apenas oca. Tudo no argumento e no plano da construção de personagens foi terrivelmente mal feito e o resultado final só podia resultar num filme completamente banal e desprovido de qualquer interesse.

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Domhnall Gleeson e Saoirse Ronan como Jim Farrell e Eilis

Mas depois da longa lista dos contras há que também destacar o que Crowley conseguiu fazer de correto nesta longa-metragem. Antes de tudo – e talvez o grande suporte do filme – o trabalho de casting. Ronan é, sem margem de dúvidas, o elemento central do elenco e a prestação que mais se destaca, sendo que a sua nomeação ao Oscar da Academia é totalmente merecido, mesmo que a sua personagem e o material que lhe foi dado tenha sido tão mediocre. Depois temos também aspetos mais técnicos como a questão da fotografia e do guarda-roupa. O primeiro a brilhar principalmente através do uso da palete de cores usada no filme e o segundo a brilhar pela extravagância mas ao mesmo tempo fidelidade à época.

Em suma e em semana pós-nomeações aos Oscars: Brooklyn revela-se na primeira grande desilusão de 2016. Um filme que promete tanto mas que entrega algo tão mediocre, sem sabor, cliché e desapontante. Um filme que revela tudo o que está de errado ainda no seio da Academia e de como é urgente a mudança e revitalização da mesma, que tem sido desde já tão falada nos últimos dias graças a toda a questão racial que se colocou uma vez mais depois da revelação dos nomeados. Brooklyn é um filme que rouba um lugar importante na categoria de melhor filme nos Oscars 2016. Um lugar que seria perfeitamente entregue a filmes como Carol, Straight Outta Compton ou até A Rapariga Dinamarquesa.

4/10

Ficha Técnica

Título: Brooklyn

Realizador: John Crowley

Argumento: Nick Hornby baseado no romance de Colm Tóibín

Com: Saoirse Ronan, Emory Cohen, Domhnall Gleeson

Género: Drama, Romance

 

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