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Foto: Marco Carvalho

‘Macbeth’: fisicalidade e risos em Shakespeare

Se é para provar que as reposições não são seca nenhuma e que até podem ser uma lufada de ar fresco, chame-se o Chapitô! Depois de ter andado em digressão pelo mundo, a “inadaptação” de Macbeth regressa à Tenda do Chapitô, com um novo ator no elenco e mais gargalhadas para oferecer! O Espalha-Factos foi, viu, riu e agora partilha o que podes esperar do espetáculo em cena até 7 de fevereiro.

Ainda é uma caminhada até chegar à Costa do Castelo, bem no topo de Lisboa, mas vale muito a pena. Mal cruzamos as portas de entrada e nos dirigimos para o exterior, começamos a sentir imediatamente a atmosfera. Estar no Chapitô, só por si, é uma experiência. Todo o pátio está iluminado por luzes e, nas varandas, há canteiros com verduras a crescer. À nossa frente, uma banquinha vende poções do amor achocolatadas e, em plano de fundo, está uma vista incrível sobre a cidade. Quase nem nos atrevemos a sair daqui, mas avistamos a Tenda do Chapitô e somos lembrados de que há um espetáculo a aguardar-nos.

Macbeth esteve aqui em cena em 2013. Depois disso, a criação coletiva da Companhia do Chapitô seguiu para outras paragens, mas agora regressa. John Mowat volta a trazer à Tenda uma encenação sua com a assistência de José Carlos Garcia. Duarte Grilo é a nova peça do elenco, que já contava com os nomes de Jorge Cruz e Tiago Viegas.

A sala está de tal forma cheia que os últimos espetadores servem-se do chão junto ao palco como assento. Não é difícil de perceber porque foi a peça premiada com o Prémio do Público no Festival MITFC de Cangas, em Espanha. A partir do primeiro momento, o público está rendido. Das crianças aos adultos, a plateia inteira ri de uma ponta à outra do espetáculo. É verdade: às mãos do Chapitô, Macbeth passa inquestionavelmente de tragédia a comédia.

Se há forma de tornar Shakespeare acessível e apelativo a todos, a Companhia do Chapitô tem a fórmula certa. As peripécias do casal Macbeth, as profecias das três bruxas (ou apenas de duas, que uma delas foi de férias para Espanha e esqueceu-se da Inquisição!) e até mesmo o regicídio tornam-se momentos descontraídos e divertidos – até estranharíamos se assim não fosse, ou não estivéssemos na grande escola de circo do Chapitô!

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Fotografia: Facebook Chapitô

Nesta Macbeth encontramos uma desconstrução do texto original aliada a uma comicidade extremamente física, tão característica da Companhia do Chapitô. A expressividade e agilidade do elenco são incríveis e bem notórias na forma como entram e saem de cada personagem, sem nunca nos fazer perder o fio à meada – é que os três atores interpretam todos os personagens do universo de Macbeth, rotativamente.

Não há mais nada em palco senão os atores e os dois outros grandes protagonistas da peça: os seus kilts e o sistema de som. É através destes que toda a ação é construída. Os famosos kilts não só nos situam na Escócia do século XVII, como servem a caracterização de todas as personagens que Duarte Grilo, Jorge Cruz e Tiago Viegas tomam: são usados à cintura, se o personagem for um homem; ao peito, se for uma mulher, e retirados, se o personagem não for escocês; lenços à cabeça, se for uma bruxa, ao pescoço, se for um padre – as possibilidades parecem infinitas!

Os microfones e tripés são utilizados como adereço para toda e qualquer situação, podendo tomar a forma de espadas para batalhas até à morte ou de equídeos para as longas cavalgadas da nobreza escocesa. O som é uma parte fulcral do espetáculo e são os atores os responsáveis pela sonoplastia, em palco, e os próprios a emitir os efeitos sonoros da peça, seja o som de passarinhos, de chicotadas ou de tacadas de golfe!

Este é um Shakespeare em termos modernos, um Shakespeare em tempo real, onde a comunicação social participa em peso: há uma reportagem em direto a partir da guerra, há uma conferência de imprensa aquando do discurso do rei e há microfones direcionais em cima de cabeças a atrapalhar diálogos, qual telenovela!

A qualidade da performance dos atores, que extravasa a mera interpretação, e o trabalho físico do risível, com o cunho de Mowat, são as peças-chave desta Macbeth. Momentos de muito boa disposição que não defraudam a complexa obra de Shakespeare, numa (aqui vamos outra vez) “inadaptação” que a resume eficientemente. Peça amaldiçoada? Não no Chapitô, obrigada!

Fotografias de Marco Carvalho e Facebook do Chapitô

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