O Espalha-Factos esteve à conversa com Marcos Farrajota, fundador da Chili com Carne (CCC), associação que editou Zona de Desconforto, obra vencedora do Melhor Álbum Português na edição 2014 do Amadora BD.

Marcos Farrajota, parte integrante dos quadros da Bedeteca de Lisboa e criador de BD e fanzines desde 1992, fundou a associação sem fins lucrativos Chili com Carne. O projeto nasceu porque conheceu uma série de criativos, que fazia sentido juntar numa estrutura legal, capaz de projetar e promover os seus trabalhos. “Havia de tudo, desde músicos a artistas plásticos. Chegámos até a ajudar a produzir uma curta de cinema, uma peça de teatro e encontros de arte contemporânea”, conta.

Apesar de ter aparecido em 1995, a Chili com Carne só foi legalizada dois anos mais tarde. Os notários em Cascais nunca mais avançavam com o projeto e a equipa continuava à espera que os chamassem para a escritura. “Talvez por inércia”, confessa Farrajota. “Se calhar perdemos alguma energia logo no início. Infelizmente até acho que começou mal. É um bocado triste, mas é verdade.”

“Podemos fazer o que quisermos [Chili com Carne] . Temos essa independência total em relação a qualquer pressão económica, até porque uma associação sem fins lucrativos nem sequer devia sentir isso.” – Marcos Farrajota

Atualmente a associação, que só em 2000 se estabeleceu como plataforma editorial propriamente dita, é completamente independente, tendo já sido confrontada com “as maiores dificuldades em relação àquele que é o mercado livreiro”. Embora continue a ser algo microscópico em comparação com grandes editoras, o fundador afirma existir autossustentabilidade.

Marcos Farrajota acrescenta que a maior parte dos autores, ligados ao desenho e à banda desenhada, provêm do meio das fanzines, da cultura pop e do do it yourself, razão pela qual não têm de agradar a ninguém. “Tentamos, se calhar, até desagradar porque é isso que faz as coisas mexerem e as pessoas pensarem um bocado”, confessa.

Obras editadas pela Chili com Carne

Incisivo e desconcertante, não hesita em descrever-se, em duas palavras, como não nacionalista. Para si, “o que faz o mundo avançar é justamente a capacidade de encontrarmos pessoas de outros credos, de outras geografias, de outros pensamentos e fazer essa fusão, de discussão, de relação.”

A Chili com Carne é precisamente “uma lata cheia de confusão, de coisas diferentes, que disparam para a música, para a literatura, para o ensaio, para o desenho e, obviamente, para a banda desenhada.” Explica que é a diferença que acaba por criar discursos e que, por isso, gosta muito de misturar. Aliás, a pureza não lhe agrada particularmente, admite.

Marcos Farrajota explica que muito do trabalho da Chili com Carne passa não por agradar, mas por educar. Como exemplo refere a fusão clara com a música. “Tentar explicar a uma pessoa que, se gosta de punk, tem de ler este gajo.” Mostrar que existem “coisas que são realmente interessantes, que são boas e que tu podes gostar”, o que passa por “sair um bocado fora da banda desenhada.”

Revela que têm uma carrinha e que vão até à Sérvia ou fazem 15 dias pela Europa fora, “como se fosse uma digressão de rock mas com livros”, para que possam estar em festivais de jazz, de metal ou de eletrónica e “chegar a outro tipo de público que ainda não está formatado.” Até porque não editam apenas BD. De livros de ensaio e literatura, a música ou design, tentam ser sempre transversais.

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No que diz respeito às suas próprias criações, são essencialmente autobiográficas. Não se lembra porquê nem como começou. “Mas é o que me está na pele.” É por aí que segue, mesmo quando o tema foi a escultura e esteve quase para recusar. Conta que, entretanto, se lembrou de umas esculturas em Santo Tirso, “um barracão nojento, num jardim”, e criou duas páginas sobre isso.

“Cada projeto que sai é sempre uma vitória, porque se tratam de desafios e de trabalho voluntário.” Confessa, por sua vez, o entusiasmo sentido na primeira antologia que fizeram na Chili com Carne. Todos os dias chegavam respostas da Croácia, da Argentina e até de países que não conheciam. “Como é que eles souberam disto? Foi super excitante. “

“Tinha sérias dúvidas se o público do Amadora BD eventualmente estaria interessado nas nossas coisas. Mas foi uma surpresa agradável. Pessoas que já conhecem, pessoas que estão a ver pela primeira vez e gostam.” – Marcos Farrajota

Talvez pelo currículo tão completo ou por ver originais desde 1991, já há pouco que o impressione. Na última edição do Amadora BD, por exemplo, existia uma exposição de Tardi que já tinha visto há dois anos. Por outro lado, a banca da Chili com Carne esteve mais movimentada do que Farrajota esperava, o que não permitiu grandes passeios.

Na sua opinião, em Portugal “não há assim tanta coisa” e desde 2000 que a CCC se apresenta como um projeto coerente. Apesar disso, admite que a indústria da BD “está a voltar a mexer”. Entretanto, desvenda algumas novidades, como um ensaio, de Rui Duarte Pais, sobre o movimento queer em torno da música. “Um livro muito ilustrado, muito desenhado, com um grafismo muito radical, diga-se de passagem.” Ou os resultados do concurso Toma lá 500 paus e faz uma BD, que já vai na 3.ª edição. A iniciativa destina-se aos sócios da associação, com um prémio monetário de 500€ para o trabalho vencedor, que será anunciado no dia 14 de fevereiro e publicado durante o ano de 2017.

Cartaz da autoria de José Smith Vargas, vencedor da 2.ª edição de Toma lá 500 paus e faz uma BD