Pouco se sabia sobre a vida dos Orelha Negra em 2016: há a promessa de um álbum, lá para a primavera, e duas datas de concertos, uma em Lisboa e outra no Porto, para dar um cheirinho daquilo que vai ser o álbum. Um pequeno spoiler: um longa-duração que vai ser bom.

As expectativas podem ser tramadas – ter demasiadas expectativas que depois não são correspondidas funciona mal, dá desgosto. Ter expectativas baixas, fáceis de ultrapassar consegue sempre ser melhor, se der para escolher. Enquanto fazia a viagem até ao CCB, para ver o primeiro concerto dos Orelha Negra com temas novos, nomeado simplesmente de 16.1.2016, tentava ir baixando as expectativas. “E se isto toma um caminho completamente diferente e vai ser uma desilusão? Mais vale ir de espírito aberto, tipo folha em branco”, tentava convencer-me.

Depois de procurar o lugar no Grande Auditório do CCB, um exercício contemplativo: sala cheia – mas isso já nem era grande novidade, o concerto estava esgotado há algum tempo. Muitas caras conhecidas (em cerca de dois minutos dei pelo Valete e pelo Camané no meio da multidão), ou não fossem os Orelha Negra compostos por nomes fortes do nosso panorama musical – Fred Ferreira, Sam The Kid, Francisco Rebelo, João Gomes e DJ Cruzfader – deixando muitos curiosos para saber o que aí vinha.

Minutos antes de as luzes baixarem no CCB, ouvia atrás de mim a frase “tens expectativas demasiado altas.” Sorri, pensando novamente no tema e na coincidência daquela conversa outra vez. Podendo já fazer aqui um ‘resumindo’ antes do tempo, as expectativas foram mais do que superadas. E porquê?

Tudo naquele concerto foi bonito: o apoio do público, que chamava por Orelha Negra, aplaudia em todas as pausas de ritmo, gritava “’tá a bater!”, as luzes em perfeita sincronia com as batidas… Até o pormenor de haver uma tela no palco, que só foi levantada ao final da segunda música. Nunca a expressão “levantar a pontinha do véu” fez tanto sentido; ou não fosse exatamente isso que era o concerto no CCB – dar um gostinho daquilo que seria o álbum novo.

Vamos voltar a ouvir os samples de excelência recolhidos por Sam The Kid, a bateria irrequieta, aquela linha de baixo malandra que tanto nos marca… Tudo para garantir um som imponente e emocionante. Ver Orelha Negra foi sinónimo de passar um concerto arrepiada, sem ter frio, basicamente.

Algumas músicas mais calmas, outras com um funk bonito, com direito até a bolas de espelho no cimo do palco do CCB, levaram muitas cabeças a acompanhar o ritmo dos cinco. Com espaço até para algumas brincadeiras pelo meio – “I am a sinner, who’s probably gonna sin again, Lord forgive me…” dava um cheirinho de Kendrick Lamar, que recolheu aplausos no auditório. Depois disso, até um pouco de Hotline Bling. Gritos, risos, euforia. Quem é que ainda não disse “You used to call me on my cellphone” com uma dad dance à la Drake, não é verdade?

O tempo passou depressa. Quando dei por isso, já havia uma despedida e saída de palco. Normalmente, costumo achar o ritual do encore uma coisa escusada – “sim, sabemos todos que vão voltar.” Mas, se é possível, que todos os encores sejam assim, com coisas que importam. 961919169 dava o mote a um trio maravilha, que me faz sempre recordar que foi uma das primeiras músicas de Orelha Negra que experienciei, com a voz de Nerve a dizer “siga partir a noite ao meio, baby” de forma tão característica.

Seguiu-se a deliciosa Throwback, que, claro, tantos aplausos arrancou. Para terminar, M.I.R.I.A.M, que concluiu tudo com sentido. “Give you my love, all of my love” pode bem ser um resumo da noite de ontem, que terminou com uma ovação geral.

Se é possível que um álbum que ainda nem foi lançado possa tornar-se num dos álbuns portugueses a marcar 2016? Tudo aponta que sim. Dia 30 de janeiro há mais, no Hard Club, no Porto. A quem interessar, corram para as bilheteiras desta vida e não percam uma oportunidade destas. Afinal, sair de um concerto com um sorriso parvo de felicidade é sempre uma experiência boa.