Alan Rickman deixou a sua marca numa geração inteira. A sua peculiar voz nasal remeter-nos-á sempre para os brilhantes filmes em que participou ou para as memoráveis personagens de teatro que tão bem desempenhou. O Espalha-Factos reuniu cinco dessas personagens, porque um artista tão especial como foi Rickman merece ficar na nossa memória. Sempre.

“Os atores são agentes de mudança. Um filme, uma peça de teatro, uma peça musical ou os livros podem fazer a diferença e podem mudar o mundo”. Esta é uma das muitas brilhantes afirmações que tornaram Alan Rickman na figura inesquecível que é hoje.

Nascido em Londres em 1946 e o segundo de quatro irmãos, Alan formou-se na Academia Real de Artes Dramáticas e integrou a prestigiada Royal Shakespeare Company. Entregou-se à plenitude da arte dramática um pouco tarde, com 28 anos, mas despediu-se dela demasiado cedo, aos 69 anos.

Rickman foi um afortunado. Fez parte de uma geração que acentuou a importância do Teatro, e dedicou-lhe paixão, daquelas que só um artista na sua essência dedica. A boa aparência e a sua altura foram as suas melhores características, mas a sua voz ligeiramente nasal foi a sua maior idiossincrasia.

Ligações Perigosas

Como ator, Alan tinha o dom incomparável para a melancolia irónica, que tão bem o caraterizava. O seu momento de reconhecimento público surgiu em 1986, ao interpretar o Visconde de Valmont na produção original de Les Liaisons Dangereuses (Ligações Perigosas), do dramaturgo Christopher Hampton. A adaptação foi levada da West End para a Broadway e valeu-lhe uma nomeação para um Tony de melhor ator.

Lindsay Duncan e Alan Rickman na produção Les Liaisons Dangereuses, da Royal Shakespeare Company. Fotografia: Douglas H. Jeffery

Lindsay Duncan e Alan Rickman na produção Les Liaisons Dangereuses, da Royal Shakespeare Company. Fotografia: Douglas H. Jeffery

Rickman não se limitou ao papel de ator. Experimentou a encenação em duas produções: My Name is Rachel Corrie, em 2005, e Creditors, em 2010. Estas peças passaram pelos principais palcos do West End, em Londres, mas também na Broadway, em Nova Iorque.

Antony and Cleopatra

Contracenou com Helen Mirren em Antony and Cleopatra, de Shakespeare. Esta produção do Royal National Theatre esteve em palco em Londres entre 20 de outubro e 3 de dezembro de 1998 e foi outro enorme sucesso do ator.

Alan Rickman em Antony and Cleopatra no National Theatre em 1998. Fotografia: Alamy

Alan Rickman em Antony and Cleopatra no National Theatre em 1998. Fotografia: Alamy

Private Lives

Em 2001 estreou a peça Private Lives, uma comédia romântica ligeira do dramaturgo Noël Coward, no Albery Theatre em Londres. Nesta peça, Rickman representou o papel principal, Elyot. Como era de esperar, a peça teve um sucesso estrondoso, de tal forma que passou também pela Broadway, onde esteve em cena até setembro de 2002. Private Lives venceu três prémios Olivier e outros três prémios Tony.

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Seminar

Se é verdade que não se pode julgar um livro pela sua capa, também é verdade que Seminar pode ser avaliado apenas por um par de frases. Essa, pelo menos, é a impressão deixada pela peça, uma comédia de Theresa Rebeck que esteve em palco no Golden Theater, em 2011. Alan Rickman foi a estrela, desempenhando o papel de Leonard, um formidável professor de uma oficina de escrita. Esta foi uma peça repleta de revelações meticulosamente preparadas e retornos inesperados, que mais uma vez valeu um prémio a Alan, o de melhor ator eleito pelo público no site da Broadway, e uma nomeação para os Drama League Awards.

Hamish Linklater, Alan Rickman, Lily Rabe, Hettienne Park e Jerry O’Connell em Seminar, no Golden Theatre. Photo: Jeremy Daniel

Hamish Linklater, Alan Rickman, Lily Rabe, Hettienne Park e Jerry O’Connell em Seminar, no Golden Theatre. Photo: Jeremy Daniel

Tango at the End of Winter

Rickman foi ainda memorável na produção Tango at the End of Winter, em 1991, de Yukio Ninagawa, que esteve em palco no King’s Theatre, em Nova Iorque. Esta foi uma peça de teatro moderna japonesa que retratou a história de um famoso ator que encerrou abruptamente a sua vida nos palcos e passou a viver num mundo dividido entre o sonho e a fantasia. Alan captou na perfeição o romantismo condenado e o narcisismo requintado deste famoso em decadência.

Alan Rickman foi um génio na representação. Foi um grande ator de cinema, mas antes provou a sua mestria no teatro. Tinha um dom quase divino que o diferenciou de todos: a sua voz. Encheu as principais salas de teatro, desde Londres a Dublin e, claro, Nova Iorque. Cativou-nos, tornou-se um ídolo, um ícone, uma estrela. Agora brilha o mais alto possível.