Hoje seguimos os passos de Luna Andermatt um dos mais importantes nomes da dança em Portugal. Falecida em 2013, Luna marcou a dança em Portugal e foi graças a esta grande bailarina que a dança conseguiu o seu estatuto de arte digna e profissional. Deu tudo de si à dança e agora só com homenagens é possível retribuir-lhe. A ela o mundo da dança deve muito e, por isso, não devemos esquecer esta personalidade.

Devia ter 13 ou 14 anos, já não era criança nenhuma, e olhei para aquelas bailarinas no palco do São Carlos e pensei: “Está aqui a minha vida.” Não abria a boca, claro. Em 1940 e tal, pensar nisso era um desastre. Pensava noutras coisas, mas nada me entusiasmava e fui inscrever-me no Conservatório às escondidas. Eu queria era dançar.”

Assim contou Luna Andermatt ao jornal Público em 2010. Foi entre a curiosidade e o medo que decidiu ser bailarina. Sem nunca ter conhecido o pai, Andermatt foi educada pela mãe com a ajuda de um tio, governador militar de Lisboa , tendo seguido uma formação muito rígida.

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Depois de ter tido aulas com Margarida Abreu, Luna recebeu uma bolsa da Alta Cultura e mudou-se para Londres para o Royal Ballet. Deixemo-la contar o seu percurso:

“Tinha umas pontas muito boas e fortes, sempre fui muito “brava” em pontas. Estive lá um ano e adorei. Falava o inglês fundamental, mas vivia sôfrega de tudo quanto via. Bebia tudo quanto havia e podia, mesmo se a minha vida era escola-casa-cama.”

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Fotografia Bruno Simão. Facebook Oficial Companhia Maior

Quando chegou o tempo de regressar a Portugal, Luna teria de optar entre bailarina de circo ou corista. Ser bailarina clássica não era uma profissão e foi preciso lutar até conseguir este estatuto, mais do que para si, mas para todos os que se seguiram.

“Sabia que a vida de bailarina seria curta. De vez em quando havia espectáculos, mas depois passavam-se meses… Mesmo assim dancei muito por vários teatros do país. A amargura que sentia em muita gente motivou-me e percebi que era importante dedicar-me a criar condições, primeiro, em 1961, com a escola de bailado do São Carlos e, mais tarde, em 1977, com a criação da Companhia Nacional de Bailado (CNB).”

 

E além da CNB foi Luna que implementou o ensino do ballet a crianças pequenas. Visionária, entendida e mulher capaz de fazer mexer, Luna facilmente percebeu que a técnica é algo a ser treinado desde cedo e consoante o corpo e a idade da pessoa. Mais do que técnica, Luna preocupava-se também com a expressão corporal.

“É preciso ser-se atento a muitas coisas ligadas à pessoa, à espiritualidade, é preciso trabalhar todos os dias, e as coisas não são feitas ao som do relógio.”

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Fotografia Bruno Simão. Facebook Oficial Companhia Maior

Mãe, professora, coreógrafa e bailarina. A primeira mulher a andar de lambreta em Lisboa esteve sempre um passo à frente da sua época. Sem saber o que é parar, Luna chegou a ser coreografada pela filha Clara Andermatt, mas nunca quis ser a mãezinha em palco e tudo foi feito da forma mais profissional possível. Teve medo de aceitar esta nova vertente da dança que não conhecia. Não desistiu e avançou apesar de pela primeira vez estar em palco descalça, sem as suas pontas. Além de ter sido membro da Companhia Maior desde a sua formação em 2011, esta bailarina nunca soube o que era não dançar.

“Às vezes, em casa, quando estou sozinha, ainda tento umas coisas. Mas por brincadeira. O corpo já não corresponde. Quem me dera. Mas prefiro não me entristecer a fazer uma coisa que eu sei que está errada. É preciso encarar a realidade. Uma coisa é aceitar e a outra é resignar-se. O aceitar é o mais fácil, porque é uma escolha. Não é um disfarce. Ninguém pense que ao disfarçar-se se consegue iludir. É só pobreza de espírito.”

Fotografia Bruno Simão. Facebook Oficial Companhia Maior

Fotografia Bruno Simão. Facebook Oficial Companhia Maior

Mulher concretizada e feliz, Luna Andermatt mudou o panorama da dança de Portugal. Nunca parou de lutar pela profissão, nunca deixou de acreditar no que se poderia fazer pelo ballet neste país de mentalidade fechada e conservador. Aos poucos foi lutando e arrecadando vitórias. O reconhecimento oficial aconteceu aos 87 anos quando recebeu a Medalha de Ouro pela Câmara Municipal de Lisboa.

“Se eu pudesse hoje dançar, diria melhor pelo gesto o que me vai na alma.”

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Todas as citações foram retiradas da entrevista do Jornal Público por Tiago Bartolomeu Costa a Luna Andermatt de 22 de novembro de 2010.