O Espalha-Factos esteve à conversa com Joana Afonso, uma jovem promessa da banda desenhada. Em 2013, ganhou com O Baile o prémio do Amadora BD de Melhor Álbum e os Prémios Profissionais de BD de Melhor Desenho e Melhor Cor. Em 2014, ano em que foi autora destaque no Amadora BD, editou Deixa-me Entrar, a sua primeira BD a solo. 

Joana Afonso é uma das autoras mais jovens já publicadas pela revista Zona. Licenciada em Pintura e com um mestrado em Desenho na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, é também aí que ensina, tal como a ensinaram a ela, que “é importante desenvolver a cultura visual de uma forma menos contaminada”, como afirma.

“Quando entrei para a faculdade fui obrigada a desenhar modelos. A partir daí dei um salto exponencial. É o que digo às pessoas que querem evoluir no desenho: desenhem coisas reais” – Joana Afonso

Além do ensino, trabalha como freelancer nas áreas de ilustração e banda desenhada, tendo já realizado colaborações em jornais, revistas e produtoras. É ainda membro do coletivo The Lisbon Studio, estúdio de profissionais liberais que partilha com autores conhecidos do panorama nacional, como Jorge Coelho, Ricardo Cabral, Pedro Brito ou Ricardo Venâncio.

Apesar do currículo, define-se como “uma pessoa que, essencialmente, gosta de desenhar”. As suas escolhas académicas sempre foram orientadas para a área, embora confesse que, “no início, não estava muito confiante”. Só quando entrou para a faculdade e se começou a dar com pessoas do meio, percebeu que se calhar não é, como afirmou entre risos, assim tão “mal jeitosa”. Afinal de contas, passados cinco anos, ainda não parou e, assegura, não tem intenções de o fazer.

Sobre o seu primeiro desenho, revela que foi, provavelmente, numa cadeira qualquer. Lembra-se de desenhar tudo o que via, como o Dragon Ball. Os desenhos animados influenciaram-na muito e, atualmente, as suas maiores referências encontram-se na animação. “É uma área, que se tivesse tempo, até gostaria de explorar.” 

A banda desenhada franco-belga é outra referência a assinalar. Ainda assim, não se cansa de destacar a importância de um traço, não necessariamente animado, mas que em termos de movimento e expressões se assemelhe à linguagem da animação. Confessa, por isso, de que gosta muito de Cyril Pedrosa, argumentista e ilustrador francês que trabalhou como animador nos estúdios da Disney.

Joana Afonso gosta da sensação de ação. “Mas sempre foi assim”: a sua família não era ligada às artes e em casa não existiam livros de BD. “Era só o que via na televisão.” Mais tarde, começou naturalmente a aperceber-se de que existia um universo inteiro a explorar. A partir daí, aprendeu a praticar.  

O Baile foi o seu primeiro trabalho de “maior magnitude”. Até então só tinha realizado curtas, tanto com histórias suas como de outras pessoas, mas sem nunca passar das oito páginas. A oportunidade de criar algo com 48 páginas surgiu quando Nuno Duarte, o argumentista da obra, lhe fez o convite.

“Eu fiquei um bocado assustada. Mas foi aliciante e aproveitei logo. E eu sou uma pessoa que precisa de praticar o dizer não. Ah, vamos fazer isto? Vamos, mas depois a Joana não dorme” – Joana Afonso

Apesar do trabalho que envolve criar uma obra como O Baile, confessa que não podia ter sido mais gratificante. A obra ganhou, em 2013, seis categorias da primeira edição dos Prémios Profissionais de Banda Desenhada, criados para dar visibilidade à produção portuguesa de BD. Duas das categorias, Melhor Desenho e Melhor Cor, reconhecem o mérito de Joana Afonso. No mesmo ano, O Baile ganhou o prémio de Melhor Álbum no Amadora BD – Festival Internacional de Banda Desenhada.

Joana Afonso apoia, naturalmente, iniciativas como o Amadora BD. “Já lá vão 26 anos e ainda há pessoas a aderir.” Mostra-se, aliás, bastante satisfeita por, apesar da BD se tratar de “um nicho dentro de um nicho”, aparecerem, além dos habitués, desconhecidos. Afirma que eventos como o Amadora BD ajudam a proporcionar encontros, que agradam tanto aos amantes da nona arte como aos profissionais e aspirantes.

“O Festival da Amadora é apologista das cenografias. Fazem exposições com alguma criatividade, não espetam as obras e pronto. Criam um ambiente, algo que acrescenta ou que complementa os originais e o trabalho dos autores” – Joana Afonso

Em 2014, Joana Afonso foi a autora destaque do Amadora BD. No mesmo ano em que editou Deixa-me Entrar, o seu primeiro álbum de BD a solo. Com a chancela editorial da Polvo, Joana Afonso é, simultaneamente, ilustradora e argumentista, mostrando-se “sensível a alguns dos problemas que assolam a sociedade atual: a solidão e os transtornos mentais, que acometem, em algum momento da vida, pelo menos 20% da população mundial.”

Sobre o processo de criação, admite agarrar-se aos trabalhos mais ao menos da mesma forma. “Eu costumo praticar e estudar bem o personagem, se deve ser mais magro, se deve ser mais forte, se deve ter uma cara mais alongada ou mais quadrada.” Explica, assim, que estuda a personalidade dos personagens para os conseguir transmitir melhor visualmente. Depois é que começa a desenhar, “em A6, em A8 se existir, são desenhos mesmo muito pequeninos”. O objetivo é descobrir em que posição colocar os personagens, quais as vinhetas necessárias e como fazer a balonagem. “Primeiro, estudo até à exaustão. E faço testes. Depois é só uma questão de concretização.”

No mundo editorial, tem feito, conta, mais ao menos o que quer e gosta. Ainda assim, deixa claro que, no início, é difícil, sobretudo para pessoas tímidas, como ela, com quem relacionar-se com os outros se pode tornar complicado. “Há uma grande componente social. É preciso falar com as pessoas e mostrar que se existe. Nessa parte foi um pouco como andar com os pés em areias movediças.” De qualquer forma, Joana Afonso não se queixa: “correu tudo bem”. Até já publicou internacionalmente, na revista polaca Ziniol e na antologia Outlaw Territory 3, contando ainda com exposições em Varsóvia e no Festival de Banda Desenhada de Treviso.

Obras da autora: