No dia 7 de janeiro, Salvador Martinha demonstrou como ter tudo Na Ponta da Língua. O seu mais recente espetáculo de stand-up comedy estará em cena até dia 16, às 21h30, no Teatro da Trindade. O Espalha-Factos foi não só ver, como também conversou com o comediante.

O humorista que Pensa Rápido, na RFM, é capaz de provocar momentos constrangedores para, logo a seguir, arrancar facilmente muitas e deliciosas gargalhadas, daquelas que dão dores de barriga porque fica difícil respirar. Razão mais que plausível para se levar uma garrafa de litro e meio para o Teatro da Trindade, diria um espetador que, à pala da sua sede crónica, foi ridicularizado sem dó mas com muita piada.

“Tu hoje viste, estava um senhor a beber uma água e não consegui deixar passar. Quer dizer estava uma pessoa a beber uma garrafa de litro e meio no Teatro da Trindade!” – Salvador Martinha

Com um à-vontade impressionante e uma força de expressão corporal invejável, a estranheza de Salvador entranha-se e materializa-se em irrevogável carisma, demonstrado ainda na frequente, mas seletiva, interação com o público. O humorista explicou que “há pessoas que não são tão reativas”, daí sentir necessidade de reagir a tudo, porque afinal de contas “isso traz sempre material”.

Além do material humorístico, criou-se ainda um desconforto que, pessoalmente, lhe interessa. O espetador com sede não foi o único a ser abordado e ainda bem. A reação do público à vergonha alheia parece dar frutos e, por isso, não hesita em dizer que está habituado a lidar com o desconforto, precisamente por fazer questão de o criar.

“Eu apanhei essa situação da garrafa e deixei instalar-se um desconforto, porque é bom para o humor. Se nós estamos sempre a rir muito é uma velocidade de cruzeiro. Criar desconforto dá ritmo ao espetáculo, porque são picos, isso é que é giro, é como na vida: quando estás no hospital e a máquina pip pip pip [risos]” – Salvador Martinha

Esta vontade de fazer rir os outros já lhe vem desde pequeno. Lembra-se de ser um miúdo extrovertido. “Desde puto que era assim estúpido”, confessa entre mais risos. Gostava “de avacalhar” e, naturalmente, acabava sempre por ir para a rua, até porque passava as aulas a fazer sketches do Herman.

Herman não é o único comediante de que gosta muito. Não consegue destacar uma referência, mas não se coíbe de apontar alguns nomes que o marcaram, como Seinfeld, Ricky Gervais e os Monty Phyton. Atualmente gosta especialmente “deste novo humor que se faz, destas novas séries, do Modern Family, do 30 Rock”. Acrescenta ainda que, se se pudesse descrever, “era um choque entre Family Guy e Seinfeld”.

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A verdade é que só percebeu que também queria fazer humor quando fez um workshop de comédia para televisão. “Desde aí nunca perdi o meu foco, aos 20 tive a certeza que era isto que queria fazer.” Entretanto, desde 2005 que Salvador Martinha vive da comédia e admite que se continua a viver bem. Talvez por ter sido “das primeiras gerações a fazer stand-up”. Embora tenha tido muito trabalho pela frente, reconhece que compensou e que “podia viver só dos espetáculos”.

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Na Ponta da Língua é a prova viva da dedicação que Salvador coloca no que faz. Um observador nato que recusa os monólogos e conversa com o público acerca da seca que é ir a museus, das dramas queen em que as mulheres se tornam quando dão jantares em casa ou das vantagens e desvantagens do Nokia 3100. Alguém ainda se lembra dos resistentes “pauzinhos” da bateria?

Apesar do vasto curriculum em televisão, redação e espetáculos ao vivo, há quem não lhe reconheça o jeito. Mas lidar com críticas negativas “faz parte”. Aliás, Salvador explica que se há quem ache que o Ronaldo ou o Messi não jogam bem, quando é indiscutivelmente objetivo que o fazem, é natural que aconteça o mesmo “na arte, que é subjetiva”.

“Obviamente que há [críticas] e respeito. Mas, normalmente em palco, acontece muito as pessoas virem ver ao vivo e passarem a gostar mais. Há pessoas que dizem ‘ah não gostei tanto disto ou daquilo’, mas depois no stand-up redimo-me sempre de tudo. É a minha redenção” Salvador Martinha

Ainda assim não existe fórmula mágica para o sucesso. “Existem técnicas”, como as comparações ou a regra de três simples, muito utilizada por humoristas. “Dois itens não são suficientes para estabelecer um padrão, mas três já dá.” Acrescenta, por isso, um exemplo de uma piada feita Na Ponta da Língua para deixar claro que “é preciso estabelecer um padrão para as pessoas irem embaladas e tu surpreenderes.”

Além das técnicas, existe o fator tempo que o permitiu maturar. A princípio é possível evocar um determinado vídeo em que imitava uma Pita corada e que acabou por o tornar viral, com 421, 630 visualizações. “Eu nunca fui uma pita, mas já fui um puto com amigas pitas. As pessoas gostam muito de gozar com as pitas e acham graça, porque é uma leveza que todos queriam, não é?” É como quando voltamos a ler algo que escrevemos há uns anos atrás e sentimos vergonha, sugiro. “É naïve [ingénuo], mas é fixe.”

Agora, com mais piadas sobre mas não só para adultos, Salvador pode dizer estar cada vez mais próximo do seu tipo de humor. “Tu quando começas tens um humor, em palco tens outro muito diferente.” Explica, então, que a luta é conseguir ter a mesma piada em palco que se tem na vida real.

“Há momentos do espetáculo em que estou eu exatamente aqui como estou contigo. Agora estás a ver-me e realmente estou mais tímido porque o microfone foi desligado, mas agora, imagina, íamos beber um copo e percebias que sou muito parecido. Isto demorou muitos anos! Ao príncipio as pessoas até diziam que era arrogante. Hoje em palco não sou arrogante, sou friendly”Salvador Martinha

Salvador Martinha é, efetivamente, amigável. Percebe-se não só em palco como nos bastidores. Quando entrou no seu camarim para se sentar à conversa com o Espalha-Factos fez questão de, tão rápido como brincalhão, mostrar um retrato rabiscado por si num caderno escolar vulgar.

Não há pretensiosismos nem sequer na forma de se vestir. Com umas jeans, a t-shirt branca mais simples que poderia existir e uns ténis, lembra-nos um qualquer colega da faculdade. Ideia reforçada ao olharmos para as dezenas de post-its amarelos colados ao espelho, com tópicos para o Na Ponta da Língua, ao estilo de cábula, curiosamente o nome do seu espetáculo anterior. “Eu tenho uma memória muito visual”, declara.

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Sobre o humor em Portugal, afirma convicto de que está a crescer e que nunca se deixou de fazer. “É engraçado, não há picos. O negócio dos espetáculos cresce muito. Há cada vez mais humoristas em salas e isso é bom.” É muito bom, na verdade. É sinal de que as pessoas gostam de se rir, mesmo quando o seu riso é estranho e a sonoridade do Teatro da Trindade é reveladora.

Quanto ao futuro, está já muito próximo. Salvador Martinha não pode contar tudo, mas adiantou que tem “uma macacada” pensada com Alexandre Romão, seu sidekick em Pensa Rápido, na RFM. “É para 2016”, ou seja, ainda para este ano.

Na Ponta da Língua estará em palco até dia 16 de janeiro, de quinta a sábado, às 21h30, no Teatro da Trindade. O valor do bilhete varia entre 10€ e 15€.

Fotografias de Élio Santos