Terapia é a nova série diária da RTP1 que passa a ir para o ar, ao final da noite, na estação pública. Adaptada a partir de um original israelita, a produção destaca-se pela sua estrutura narrativa pouco convencional. Emitida de segunda a sexta-feira, conta com 45 episódios. Cada dia da semana foca-se numa personagem diferente.


Mário Magalhães (Virgílio Castelo) é um terapeuta que segue quatro tratamentos psicoterapêuticos em curso no seu consultório. À segunda-feira acompanhamos a história de Laura Dias (Soraia Chaves), uma mulher frágil e com um casamento à beira do fim. Na terça-feira, Alexandre Gomes (Nuno Lopes) senta-se no sofá do terapeuta. À quarta, Sofia Cruz (Catarina Rebelo) revela a sua vida ao profissional. Na quinta-feira, o casal Jorge e Ana Velez (Filipe Duarte e Maria João Pinho) são ouvidos por Mário. E à sexta-feira, é a vez de Mário expor os seus problemas com a mulher Catarina (Leonor Silveira) à psicóloga Graça Ribeiro (Ana Zanatti).

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Neste primeiro episódio, que se centrou na história de Laura, acompanhamos uma mulher, que começa por se revelar uma vítima mas que, à medida que o diálogo avança, vai revelando algumas das suas fragilidades, o que nos faz mudar o nosso ponto de vista em relação à personagem.

Soraia Chaves mostrou, na estreia de Terapia, que é muito mais do que a menina bonita dos filmes portugueses. Até porque consegue interpretar aqui aquela que é, provavelmente, a personagem com  maior profundidade da sua carreira e que mais atenção receberá por parte de quem assiste à série. Afinal, todos nós, espectadores, somos terapeutas e durante trinta minutos estamos concentrados nos seus dramas de vida.

Habitualmente, um dos pontos que distingue a linguagem cinematográfica da televisiva é o guião. No grande ecrã, uma cena procura transmitir o máximo de sensações através do olhar, dos gestos ou simplesmente da cumplicidade entre duas personagens.

Em Terapia, o texto adaptado por Mário Cunha não cai em clichês, nem domina por completo a cena. É bastante visual e descritivo, mas é também intenso e surpreendente. Aqui o que interessa é a forma como este texto é interpretado, é a expressividade do paciente e as reações do terapeuta que nos prendem ao que é contado. Neste aspeto, também o trabalho das diretoras de elenco Cristina Carvalhal e Sara Carinhas é fundamental.

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Terapia é claramente um produto de excelência num mar de novelas que se limitam a suceder umas às outras – apesar da grande evolução técnica que este género tem vindo a conseguir.

Tecnicamente, Terapia é do melhor que já se fez em Portugal. Também André Szankowski, responsável pela fotografia da série, contribui (e muito) para a qualidade visual do produto. Diretor de fotografias de projetos como A Gaiola Dourada, As Linhas de Wellington ou Mistérios de Lisboa, Szankowski volta a mostrar o quão importante é a fotografia na definição de uma história audiovisual.

Patrícia Sequeira, a realizadora, encontra neste projeto um trabalho facilitado e, ao mesmo tempo, desafiante. Uma vez que os episódios se passam na sala onde decorrem as sessões, os planos utilizados variam apenas na sua escala, intercalando entre alguns gerais ou outros mais fechados que se concentram nas personagens. O desafio é tornar, por isso, a história visualmente interessante e captar todos os pormenores nas emoções de cada um.

Afinal, durante trinta minutos estamos simplesmente a ver alguém a falar e a contar a sua vida a outra pessoa, sempre sentados, no mesmo espaço. Então o que nos cativa? Talvez seja isso mesmo, o facto de estarmos a ouvir a história de alguém, contada na primeira pessoa. É como se estivéssemos de uma forma quase ‘ilegal’ a assistir a este diálogo tão íntimo e privado e é esta vertente que nos prende ao ecrã.

Quando vemos Terapia, sabemos que estamos a ver uma série e não um filme (apesar de até o formato de exibição escolhido, o 2:35, nos remeter para uma linguagem visual cinematográfica), mas ficamos com a sensação que estamos a assistir a uma daquelas séries de excelência, que normalmente só se fazem “lá fora”.

Terapia merece, por isso, os nossos aplausos pela qualidade técnica acima da média e por ser uma produção que, apesar de ter passado despercebida na estreia, na RTP1, pelo seu horário tardio, promete viciar muitos portugueses diariamente, até meados de março. Para ver também na RTP Play.