Que fique registado que, em 2015, os Capitão Fausto decidiram celebrar o Natal junto dos fãs. Enquanto que, à entrada do Bairro Alto, The Legendary Tigerman lotava a Galeria Zé dos Bois, aliciando os amantes do blues rock na noite de 25, o quinteto lisboeta canalizava camadas mais jovens que se amontoavam à porta do já familiar Musicbox. Prontos a serem recebidos por casa cheia (os bilhetes haviam esgotado em pré-venda), os Capitão Fausto preparavam um espectáculo digno de ceia natalícia.

É certo que o concerto propriamente dito não constituiu nada de excessivamente transcendente: as luzes rondavam sempre por entre o aceitável e o agradável, a atitude de “rockstar despreocupado” em palco de Tomás Wallenstein e companhia nunca se desviava muito da apatia e, para quem já se habituou a ver os Capitão Fausto ao vivo, a setlist tinha poucas surpresas a oferecer. Sucessos de nicho de Pesar o Sol (Célebre Batalha de Formariz, Flores do Mal, Prefiro que Não Concordem) intercalavam-se com as mais antigas Supernova, Zé Cid ou Santa Ana. As surpresas que houve, não obstante, foram de qualidade – duas faixas novas em primeira mão do ainda em produção terceiro disco, que exibem a banda a afastar-se das divagações psicadélicas em direcção a um art pop mais requintado, relevando bastante as capacidades composicionais e orquestrativas do grupo – e o público reagiu em reverente concordância.

Fazendo-se justiça, a verdade é que dificilmente poderiam os Capitão Fausto ter pedido melhor público para esta noite de 25 de Dezembro. Parecendo ignorar a tradicional festividade da data (ou aproveitá-la), a base de fãs lisboeta do quinteto compareceu em massa, e absorveu cada segundo do espectáculo proporcionado com visível deleite. Os cânticos uníssonos rapidamente transformavam-se em moshpits e stagedives nas linhas de frente do público, sem sinais de refreio ou moderação. “Que se lixe”, comentava um fã especialmente turbulento que já havia captado a atenção dos seguranças, e parecia estar a um ou outro empurrão de ser expulso do recinto – “são os Capitão Fausto!”. Estaria efectivamente a banda a dar um concerto assim tão bom? Dificilmente, em grande parte pela manifesta estaticidade dos protagonistas em palco.

Mas os Capitão Fausto deixaram, no Musicbox, uma performance composta daquilo que são feitos os pequenos grandes espectáculos rock: muito suor, energia adolescente de sobra à retaguarda, guitarras distorcidas e sempre sincronizadas, e uma boa dose de refrões desajeitados sobre remendar as próprias meias e desejar às inimigas vida longa (“Deixem os outros falar/Só me dão ideias para cantar”). De tal forma que, quando voltaram ao palco para o encore de Sobremesa e Maneiras Más, para além da noção de excelente química que partilham como banda, ficou também a impressão de missão cumprida.

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo o Acordo Ortográfico de 1945.

Fotos por Inês Gonçalves